Emprego: comparações alternativas

O Inquérito ao Emprego do segundo trimestre, divulgado ontem pelo INE, confirmou os resultados globais dos números mensais – ou, pelo menos, dos números mensais revistos, (já que os valores preliminares não pareciam grande coisa). O número de desempregados caiu, o número de empregos aumentou, e a taxa de desemprego recuou. Tudo normal, tudo esperado e tudo boas notícias.

O passo seguinte é perceber quão boas são as notícias, porque convém ter uma ideia da magnitude da criação de emprego. E porque, enfim, bem lá no fundo todos gostamos de ler aquelas notícias a comparar o número de empregos que cada Governo criou num certo período de tempo. Por exemplo, o Carlos Guimarães Pinto faz aqui uma comparação do volume de criação de emprego, concluindo que “se os números do emprego do 2º trimestre são indicadores de alguma coisa é de que a economia está a desacelerar e de que está a ser perdida capacidade de criar emprego”.

O tipo de comparação faz sentido, mas acho que é mesmo preciso levar em linha de conta o factor ‘programas ocupacionais’. As oscilações do número de pessoas ocupadas foram tão grande ao longo dos últimos anos que afectam decisivamente os números do emprego, independentemente dos períodos e termos de comparação. É por isso que nos últimos tentei, sempre que possível, limpar este factor da análise do emprego. Este não é um factor menor.

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Para que serve a propriedade intelectual?

Bom, o título é um pouco exagerado. Todos sabemos para que serve a propriedade intelectual (PI). A PI serve para fomentar a inovação através da criação de um mercado que de outra forma não existiria. Por exemplo, a concessão de uma patente faz com que uma determinada inovação possa ser apropriada por alguém. Sem a patente, a inovação poderia ser usada por qualquer um, e ninguém teria incentivos para a produzir. Neste sentido, o sistema de patentes incentiva a inovação.

Esta é a justificação de manual, e poucas pessoas discordam dela. Mas as coisas ficam um pouco mais complicadas quando se começa a discutir os detalhes concretos da implementação do sistema. Faz sentido que os herdeiros de Martin Luther King possam bloquear a utilização do discurso ‘I have a dream’ em filmes? Este tipo de garantias estimula a inovação ou alimenta comportamentos rentistas?

Penso que a questão dos limites exactos da lei sempre foi controversa, mesmo entre os mais acérrimos defensores do direito à propriedade privada (por exemplo, Friedman). Mas como não havia dados, nunca ninguém se preocupou muito com a questão.

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Portugal e o FMI, dois anos depois do pó assentar

O FMI publicou um relatório acerca do seu papel nos programas de ajustamento da periferia europeia – e, como é habitual sempre que se põe a fazer auto-avaliações, gerou uma série de notícias que não são, digamos assim, completamente fiéis àquilo que o relatório tem lá dentro. Aliás, é sintomático que a notícia reportada pelo Esquerda.Net não seja assim tão diferente daquilo que se foi escrevendo por aí.

Há batalhas que estão perdidas à partida, e por isso nem vou tentar fazer de advogado do diabo (para isso leiam o Ricardo Reis). Mas queria aproveitar o momento para referir um dos background papers do estudo, que versa sobre Portugal e que é do melhor que vi por aí (o que não é estranho, tendo em conta que Sérgio Rebelo e Martin Eichenbaum são dois dos três autores).

Se se derem ao trabalho de ler o documento vão encontrar muita coisa boa. E também uma série de conclusões que há uns anos seriam consideradas anátema mas que hoje começam, pouco a pouco, a tornar-se (quase) consensuais. Algumas dessas ideias ocuparam uma boa parte dos posts deste blogue, e as referências que se seguem – uma boa parte dos quais são apenas links para textos alheios – reflecte bem a evolução das ideias ao longo do tempo. Só para nos relembrar que às vezes, de longe a longe, aprendemos uns com os outros. E – surpresa! – até se chega a alguns consensos.

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Portugal: a taxa de poupança mais alta de sempre

Os leitores mais atentos à imprensa económica já devem saber que as famílias portuguesas estão a poupar cada vez menos. Aliás, estão a poupar tão pouco que até já gastam mais em consumo do que o que ganham em rendimento. Como se lia no Expresso de há umas semanas:

Não é novidade que a reduzida poupança das famílias é um motivo de preocupação para a economia portuguesa, aflita em financiar o investimento e em garantir a sustentabilidade da dívida. De facto, a taxa de poupança das famílias portuguesas, que superava a casa dos 20% do rendimento disponível nos anos 80, caiu para metade com o processo de convergência para adesão ao euro nos anos 90 (…) Mas neste primeiro trimestre de 2016, o problema ganhou uma nova dimensão. De acordo com as estatísticas do INE, a questão já não está no facto dos portugueses pouparem cada vez menos, muito pouco quando comparados com os parceiros do euro. A questão agora é que a poupança não só desapareceu como é negativa.

Há dois problemas com este raciocínio. E não é que sejam novos – mas como o blogue anda parado…

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Desemprego: no meio do ruído há qualquer coisa a mexer

Os leitores mais atentos lembrar-se-ão certamente de que há coisa de cinco uns meses houve um burburinho razoável por causa da aparente travagem da descida do desemprego. Em Fevereiro, por exemplo, a taxa de desemprego já levava sete meses de subida contínua. Escreviam-se coisas como:

(…) o INE aponta para o desemprego a saltar duas décimas para 12,3% em Fevereiro. Como se isto não bastasse, nos primeiros dois meses são destruídos 20 mil empregos, acima do reforço do desemprego, e mostrando que o ciclo da emigração/ inactividade está para durar. As notícias não são apenas más. São péssimas.

Mas quem não padecia do problema mais recorrente da análise de conjuntura – começar e a acabar a análise num único trimestre e confundir ruído com tendências – percebia que a) subidas do desemprego durante cinco ou seis meses são habituais no segundo semestre do ano; b) o fim de uma série de programas ocupacionais, contabilizados como emprego nos inquéritos do INE, introduzia um enviesamento negativo que puxava o desemprego para cima.

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Pelo cumprimento das regras

 

Nesta discussão das sanções há um argumento recorrente: se a Europa em 2003 já perdoou a Alemanha, e fechou os olhos à França, com que direito vem agora tratar Portugal e Espanha de forma diferente? A ideia é apelativa e fácil de perceber, mas não me parece que seja a melhor estratégia de combate. Pelo contrário, o cumprimento das regras devia ser uma bandeira do Governo português.

Ponham-se no lugar de quem está em Berlim. As preocupações de um alemão, justificadas ou não, são simples: garantir que não são forçados a emprestar mais dinheiro à periferia, expondo-se a um possível default. Serão as preocupações legítimas? Claro que sim: ninguém gosta de perder dinheiro. (Os lesados do BES não gostaram, e a causa parece ter gerado muita solidariedade por aí fora). E será este cenário possível? Sem dúvida: Portugal tem uma dívida pública elevada, enormes necessidades de refinanciamento (já ‘acende luzinhas’ no FMI) e, convenhamos, não parece muito preocupado com isso (ver aqui e aqui).

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O jeito que dá ter os cofres cheios

Parece que Portugal tem uma almofada financeira para enfrentar o Brexit, segundo revelou o ministro das Finanças numa entrevista à TSF. Não há grande novidade na ‘revelação’ de Mário Centeno, mas ainda assim saúda-se a mudança de opinião quanto à importância de ter “os cofres cheios”. Parece que nestas coisas não há nada como passar da bancada da Oposição para o leme do navio.

Dito isto, vale a pena acrescentar dois comentários, um em jeito de alerta e o outro de lamento.

O primeiro é que a ideia de que os cofres estão “cheios” depende muito do termo de comparação. Neste momento há cerca de 8 mil milhões de euros em depósitos e/ou outras aplicações, mas há dois anos o valor era praticamente o dobro.

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