Desemprego a descer. Até onde não se sabe muito bem

O que é que sabemos ao certo acerca da Taxa Natural de Desemprego? Quando Olivier Blanchard escreveu um paper com este título, em 1996, a resposta parecia ser: não muito. Dissertando sobre um tema antigo – com a vantagem de o fazer embalado por duas décadas de investigação – Blanchard notou que os progressos ao nível do raciocínio teórico não tinham sido acompanhados por desenvolvimentos semelhantes no campo empíricos:

While substancial conceptual progress has been made in thinking about the natural rate of unemployment, empirical knowledge lags behind. Economists are a long way from having a good quantitative understanding of the natural rate, either across times or across countries.

Claro que estas limitações não impediram ninguém de fazer estimativas para a taxa natural de desemprego («NAIRU», usando a abreviatura inglesa). Tanto a Comissão Europeia como o FMI produzem NAIRU’s para períodos passados e projecções para o futuro, de modo a ajudar a interpretar a história económica recente e ajudar a guiar a política económica daqui para a frente.

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Uma explicação trivial (mas palavrosa) para o maior crescimento económico do milénio

O crescimento do PIB de 2,8% – o ritmo mais alto do século, como as televisões não se cansam de repetir – deixou muita gente surpreendida, algumas pessoas radiantes e outras naturalmente desgostosas. A surpresa é justificada, porque nas análises que fui lendo nos últimos tempos não havia nada que sugerisse uma aceleração tão forte. Mas penso que a ‘explicação’ para este crescimento, se é que assim lhe podemos chamar, é mais prosaica do que se presume.

A situação, aliás, traz-me à memória uma rábula de 2013, quando o desemprego interrompeu inesperadamente a trajectória de subida e desatou a descer por ali abaixo. O choque entre as expectativas e a realidade criou uma dissonância cognitiva tão grande na altura que assistimos a um longo desfiar de teorias da conspiração para provar que o desemprego “real”, ao contrário do que se pensava, não só não estava a subir como tinha na verdade estabilizado em torno dos 25%. Assim de cabeça lembro-me dos: É tudo uma questão de sazonalidade, Os desempregados estão a voltar à agricultura de subsistência (ver aqui também), O desemprego desce mas é todo precário, O IEFP está a esconder os desempregados em acções de formação (e a queimá-los na área 51), É a emigração que fez desaparecer o desemprego (ver aqui também), É o Estado que está a contratar e É tudo isto e muito mais.

Mas a verdade é que os factos eram claros e a explicação simples. O desemprego estava a diminuir porque as recessões são cíclicas por natureza, e depois de atingir os 17% era difícil fazer outra coisa que não fosse descer. O facto de o ponto de partida ser tão alto, conjugado com uma quebra estrutural na relação entre PIB e emprego (ver aqui, aqui, aqui, aqui), justificava a descida sólida e consistente do desemprego. O desemprego caiu muito pela mesma razão que o crédito aumentou imenso: porque tudo o que sobe acaba por descer.

Com as devidas adaptações, julgo que o mesmo “fenómeno” pode explicar “o maior crescimento do século” do PIB. Vejamos porquê.

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Desemprego nos 10% até 2018?

A OCDE publicou o Economic Survey de Portugal e uma das coisas que mais chamou a atenção foi a previsão de que a taxa de desemprego já não vai descer abaixo dos 10%. Segundo as previsões do boletim, o desemprego ainda vai cair este ano – de 11,1 para 10% -, mas a partir daí não há melhorias à vista.

Eu imagino o que poderá ter levado a OCDE a inscrever estes números no seu cenário central – e consigo pensar em pelo menos três ou quatro boas razões para acreditar que o futuro um pouco menos sombrio do que isto. Mas quem não tem o mínimo interesse na discussão em torno de taxas naturais de desemprego pode achar instrutivo o gráfico seguinte.

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Como podem ver, as previsões da OCDE têm sistematicamente subestimado a descida do desemprego. Ok, também subestimaram a subida do período 2009/2012. Mas tanto um erro como o outro resultam, julgo eu, do mesmo problema de fundo: as previsões assumem sempre, pela forma como são construídas, uma excessiva convergência para a média. As quebras estruturais não passam-lhes ao lado.

Hey, e isto é o (ou uma parte do) tema da minha coluna no Jornal Económico desta semana, que se repete todas as sextas-feiras (o artigo, não o tema!).  A partir de quinta-feira o artigo é desbloqueado no site.

Desemprego: mais um trimestre a descer

O INE publicou ontem os números do Inquérito ao Emprego para o terceiro trimestre. Não foi o dia mais feliz para divulgar a coisa, porque os portugueses – e o resto dos seres humanos, no geral – estavam mais atentos ao se passava no outro lado do globo. Mas agora que o choque já lá vai (sim, estou a ser irónico) podemos voltar a olhar para o que se passa cá dentro.

Primeira boa notícia: o desemprego continua a descer. Durante alguns trimestres o mercado de trabalho comportou-se de forma um pouco errática, e chegou a haver quem antecipasse uma inversão da tendência (ver Descida do desemprego: inversão de ciclo? e Desemprego: no meio do ruído há qualquer coisa a mexer). Felizmente, os números do terceiro trimestre confirmam aquilo que escrevi na altura: era apenas ruído a confundir a análise.

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Pouco PIB, muito emprego

O que se passa com o mercado laboral em Portugal? No fim-de-semana, até o ministro do Trabalho assumiu que há alguma coisa que lhe está escapar:

Aprendi nos livros que a economia tinha de crescer a 2,5% para que aumentasse o emprego. [O aumento das contribuições] não é muito compatível com um crescimento tão baixo esse é o mistério.

Os livros de economia em causa podem estar um pouco desactualizados. Em Portugal, pelo menos, há muitos anos que se regista crescimento de emprego sem que o PIB cresça acima dos 2,5%. A Lei de Okun, que relaciona a variação da actividade (eixo dos xx) com a variação do número de postos de trabalho (eixo dos yy) sugere que a partir de um crescimento de 0,8% já se nota qualquer coisita no mercado laboral.

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Emprego: comparações alternativas

O Inquérito ao Emprego do segundo trimestre, divulgado ontem pelo INE, confirmou os resultados globais dos números mensais – ou, pelo menos, dos números mensais revistos, (já que os valores preliminares não pareciam grande coisa). O número de desempregados caiu, o número de empregos aumentou, e a taxa de desemprego recuou. Tudo normal, tudo esperado e tudo boas notícias.

O passo seguinte é perceber quão boas são as notícias, porque convém ter uma ideia da magnitude da criação de emprego. E porque, enfim, bem lá no fundo todos gostamos de ler aquelas notícias a comparar o número de empregos que cada Governo criou num certo período de tempo. Por exemplo, o Carlos Guimarães Pinto faz aqui uma comparação do volume de criação de emprego, concluindo que “se os números do emprego do 2º trimestre são indicadores de alguma coisa é de que a economia está a desacelerar e de que está a ser perdida capacidade de criar emprego”.

O tipo de comparação faz sentido, mas acho que é mesmo preciso levar em linha de conta o factor ‘programas ocupacionais’. As oscilações do número de pessoas ocupadas foram tão grande ao longo dos últimos anos que afectam decisivamente os números do emprego, independentemente dos períodos e termos de comparação. É por isso que nos últimos tentei, sempre que possível, limpar este factor da análise do emprego. Este não é um factor menor.

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Desemprego: no meio do ruído há qualquer coisa a mexer

Os leitores mais atentos lembrar-se-ão certamente de que há coisa de cinco uns meses houve um burburinho razoável por causa da aparente travagem da descida do desemprego. Em Fevereiro, por exemplo, a taxa de desemprego já levava sete meses de subida contínua. Escreviam-se coisas como:

(…) o INE aponta para o desemprego a saltar duas décimas para 12,3% em Fevereiro. Como se isto não bastasse, nos primeiros dois meses são destruídos 20 mil empregos, acima do reforço do desemprego, e mostrando que o ciclo da emigração/ inactividade está para durar. As notícias não são apenas más. São péssimas.

Mas quem não padecia do problema mais recorrente da análise de conjuntura – começar e a acabar a análise num único trimestre e confundir ruído com tendências – percebia que a) subidas do desemprego durante cinco ou seis meses são habituais no segundo semestre do ano; b) o fim de uma série de programas ocupacionais, contabilizados como emprego nos inquéritos do INE, introduzia um enviesamento negativo que puxava o desemprego para cima.

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