Desemprego a descer. Até onde não se sabe muito bem

O que é que sabemos ao certo acerca da Taxa Natural de Desemprego? Quando Olivier Blanchard escreveu um paper com este título, em 1996, a resposta parecia ser: não muito. Dissertando sobre um tema antigo – com a vantagem de o fazer embalado por duas décadas de investigação – Blanchard notou que os progressos ao nível do raciocínio teórico não tinham sido acompanhados por desenvolvimentos semelhantes no campo empíricos:

While substancial conceptual progress has been made in thinking about the natural rate of unemployment, empirical knowledge lags behind. Economists are a long way from having a good quantitative understanding of the natural rate, either across times or across countries.

Claro que estas limitações não impediram ninguém de fazer estimativas para a taxa natural de desemprego («NAIRU», usando a abreviatura inglesa). Tanto a Comissão Europeia como o FMI produzem NAIRU’s para períodos passados e projecções para o futuro, de modo a ajudar a interpretar a história económica recente e ajudar a guiar a política económica daqui para a frente.

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Um PIB aos pulinhos

A convergência para a média é um conceito simples e poderoso. Permite explicar muitos fenómenos interessantes e que à primeira vista não partilham quase nada em comum – desde a melhoria da situação clínica de pacientes que experimentam terapias alternativas, até ao aparente sucesso das chicotadas psicológicas no futebol. O processo é sempre o mesmo: uma ilusão de óptica causada pela aleatoriedade presente em quase todos os fenómenos da existência humana.

E, contudo, a maior parte das pessoas tem imensa dificuldade em aceitar explicações desta natureza. A ideia de que ‘tudo o que sobe tem de descer’, e que portanto resultados extraordinariamente bons tendem a ser seguidos por resultados menos bons (da mesma forma que os ciclos negativos acabam por chegar ao fim), não é intelectualmente satisfatória. Não sacia aquele desejo muito humano de procurar causas identificáveis a gerar efeitos observáveis. Por essa razão, estamos condenados a viver num corrupio incessante de ‘surpresas’ e ‘desilusões’ que se seguem umas após as outras, identificando surtos de optimismo e ciclos de más notícias onde provavelmente não há nada mais do que simples ruído.

A evolução do PIB no segundo trimestre é, suspeito, um bom exemplo disso mesmo. À primeira vista, parece uma enorme travagem. O PIB cresceu 0,2% em cadeia, depois de três trimestres a crescer entre os 0,7 e 1%. Mas será que o PIB está hoje muito acima – ou muito abaixo – do que se esperava que estivesse? Não. O PIB está mais ou menos onde devia estar segundo as previsões feitas pela Comissão Europeia em meados de 2015: com um valor trimestral (a preços constantes) na casa dos 44,3 mil milhões de euros.

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Nas entranhas do PIB

Nos últimos tempos perdi algumas horas a analisar a recuperação económica de Portugal, que começou em 2013 e acelerou na recta final de 2016. Como não sabia muito bem o que procurar, andei a vaguear aleatoriamente pelos quadros das contas nacionais do INE, à espera de alguma coisa que me chamasse a atenção. Depois de algum tempo, lá encontrei uma.

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Uma explicação trivial (mas palavrosa) para o maior crescimento económico do milénio

O crescimento do PIB de 2,8% – o ritmo mais alto do século, como as televisões não se cansam de repetir – deixou muita gente surpreendida, algumas pessoas radiantes e outras naturalmente desgostosas. A surpresa é justificada, porque nas análises que fui lendo nos últimos tempos não havia nada que sugerisse uma aceleração tão forte. Mas penso que a ‘explicação’ para este crescimento, se é que assim lhe podemos chamar, é mais prosaica do que se presume.

A situação, aliás, traz-me à memória uma rábula de 2013, quando o desemprego interrompeu inesperadamente a trajectória de subida e desatou a descer por ali abaixo. O choque entre as expectativas e a realidade criou uma dissonância cognitiva tão grande na altura que assistimos a um longo desfiar de teorias da conspiração para provar que o desemprego “real”, ao contrário do que se pensava, não só não estava a subir como tinha na verdade estabilizado em torno dos 25%. Assim de cabeça lembro-me dos: É tudo uma questão de sazonalidade, Os desempregados estão a voltar à agricultura de subsistência (ver aqui também), O desemprego desce mas é todo precário, O IEFP está a esconder os desempregados em acções de formação (e a queimá-los na área 51), É a emigração que fez desaparecer o desemprego (ver aqui também), É o Estado que está a contratar e É tudo isto e muito mais.

Mas a verdade é que os factos eram claros e a explicação simples. O desemprego estava a diminuir porque as recessões são cíclicas por natureza, e depois de atingir os 17% era difícil fazer outra coisa que não fosse descer. O facto de o ponto de partida ser tão alto, conjugado com uma quebra estrutural na relação entre PIB e emprego (ver aqui, aqui, aqui, aqui), justificava a descida sólida e consistente do desemprego. O desemprego caiu muito pela mesma razão que o crédito aumentou imenso: porque tudo o que sobe acaba por descer.

Com as devidas adaptações, julgo que o mesmo “fenómeno” pode explicar “o maior crescimento do século” do PIB. Vejamos porquê.

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PIB do terceiro trimestre

Já há um valor para o PIB no terceiro trimestre. Segundo o INE, que acabou de publicar a estimativa rápida, a actividade cresceu 0,8% entre Julho e Setembro face ao trimestre anterior.

É bom? É. O PIB tem vindo a crescer entre 0,1 e 0,5% ao longo dos últimos dois anos, e tendo isto como pano de fundo claro que 0,8% é um bom resultado.

Muda muita coisa para o conjunto do ano? Alguma. Há uns dias, o Negócios compilou as previsões de curto prazo dos centros de estudos que se dedicam a acompanhar a conjuntura, e o consenso apontava para uma expansão de 0,3%. A este ritmo, a economia deveria fechar 2016 com um crescimento anual de em torno de 1%. Com estes dados, o novo best guess é algo em torno dos 1,2-1,3%1.

Isto sinaliza uma nova tendência, ou acrescenta apenas ruído? Aqui eu seria bastante prudente. Desde 2013 já houve pelo menos dois trimestres de crescimento rápido – e aqui defino ‘crescimento rápido’ como crescimento-acima-de-0,5% – e em ambas as alturas a boa performance (barras verdes) foi seguida de uma forte correcção (barras vermelhas), com o PIB a recuar.

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Veremos o que se passa no quarto trimestre. Para já, parece-me que estes valores deviam ser lidos como os anteriores: bons números que escapam a uma tendência de longo prazo em torno dos 0,3% em cadeia.

1 Como é que se chega ao best guess? É simples: assumindo taxas ‘fictícias’ para o quarto trimestre, somando aos valores do primeiro, segundo e terceiro trimestres e comparando com o valor de 2015. Neste caso, basta que o PIB estagne no quarto trimestre para o crescimento anual atingir 1,2%; e seria preciso repetir o valor de 0,8% nos últimos três meses para que o valor anual ficasse além dos 1,3%. Assumindo que no quarto trimestre nem há um descalabro nem uma performance extraordinária, 1,2-1,3% é o range mais plausível).

Desemprego: mais um trimestre a descer

O INE publicou ontem os números do Inquérito ao Emprego para o terceiro trimestre. Não foi o dia mais feliz para divulgar a coisa, porque os portugueses – e o resto dos seres humanos, no geral – estavam mais atentos ao se passava no outro lado do globo. Mas agora que o choque já lá vai (sim, estou a ser irónico) podemos voltar a olhar para o que se passa cá dentro.

Primeira boa notícia: o desemprego continua a descer. Durante alguns trimestres o mercado de trabalho comportou-se de forma um pouco errática, e chegou a haver quem antecipasse uma inversão da tendência (ver Descida do desemprego: inversão de ciclo? e Desemprego: no meio do ruído há qualquer coisa a mexer). Felizmente, os números do terceiro trimestre confirmam aquilo que escrevi na altura: era apenas ruído a confundir a análise.

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Pouco PIB, muito emprego

O que se passa com o mercado laboral em Portugal? No fim-de-semana, até o ministro do Trabalho assumiu que há alguma coisa que lhe está escapar:

Aprendi nos livros que a economia tinha de crescer a 2,5% para que aumentasse o emprego. [O aumento das contribuições] não é muito compatível com um crescimento tão baixo esse é o mistério.

Os livros de economia em causa podem estar um pouco desactualizados. Em Portugal, pelo menos, há muitos anos que se regista crescimento de emprego sem que o PIB cresça acima dos 2,5%. A Lei de Okun, que relaciona a variação da actividade (eixo dos xx) com a variação do número de postos de trabalho (eixo dos yy) sugere que a partir de um crescimento de 0,8% já se nota qualquer coisita no mercado laboral.

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