Acima da produtividade

De vez em quando lê-se por aí que os salários cresceram, ou vão crescer, acima da produtividade. E na maior parte das vezes não há problema em escrever isto, porque o contexto é suficientemente específico para que possamos ter a certeza de que os potenciais leitores sabem exactamente o que é que está – ou não está – em causa. O problema é quando a coisa sai dos relatórios sem o devido contexto e acaba a contaminar a discussão pública de uma forma pouco rigorosa. E é por isso que a UTAO, que bem percebe destas coisas, devia evitar frases como esta:

Neste cenário [PEC 2016-2020], a produtividade do trabalho deverá também aumentar, ainda que a um ritmo inferior ao das remunerações do total da economia.

Este é um tema antigo, e já escrevi tantas vezes sobre ele que por esta altura talvez fosse mais simples e eficaz linkar alguma coisa antiga do que voltar à carga. Acontece que entretanto encontrei uma forma mais interessante e didáctica de explicar a ideia, e por isso talvez não seja perda de tempo acrescentar mais alguns caracteres.

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Custos salariais

Um excelente post de Miguel Lebre de Freitas no The Portuguese Economy: The Real Wage Gap once again. (Uma curiosidade: os dois posts iniciais do autor – já em 2011, aqui e aqui – moldaram em grande medida a análise de Custos Unitários do Trabalho feita neste blogue).

1 – The claim that real wages have departed significantly above productivity does not match the national accounts data. In the case of manufactures, the maximum observed real wage gap amounted to 4.6%, during the 2009′ collapse of international trade, to recover one year after.

2 – In general the data supports the narrative that aggregate demand effects, rather than nominal wage stickiness explain the pre-2008 external imbalance: during the capital inflow episode, prices of non-tradable goods increased, pressing nominal wages up. This forced average productivity in manufactures to increase, in some cases with technological change, but mostly through the shutting down of low productivity firms, while labour was reallocated to low-productivity-growth non-tradable good sectors.

3 – The preliminary data for the bailout episode suggests that real wages have been evolving below productivity, not the other way around. By 2011, this trend was more evident in transportation and storage, financial services, and energy supply

4 – The preliminary data for 2012 also points to the case that real wages in manufactures fell short the productivity trend by some 4.6%. This suggests a scope for entrepreneurs to raise profits by hiring more workers. However, there are reasons to believe that in the current juncture, other factors apart from labour costs are constraining the entrepreneurs’ choices. This will be the subject of my next post.

Os CUT vistos de perto

No post anterior, argumentei que os Custos Unitários do Trabalho são um indicador de valor analítico limitado. Em primeiro lugar, os CUT não são úteis para comparar salários com produtividade, porque deflacionam a produção sem aplicar o mesmo tratamento aos rendimentos do trabalho; em segundo lugar, os CUT não são um proxy perfeito para medir a evolução da competitividade externa, porque agregam a informação ao nível da economia completa, sem separar o sector transaccionável do sector não transaccionável.

Este post acrescenta mais alguns dados a esta discussão, concluindo com uma curiosidade que ainda não vi referida em nenhuma análise.

A narrativa oficial, recorde-se, estabelece uma relação entre a evolução dos CUT, competitividade externa e crescimento das exportações. Veja-se em baixo como Portugal tem sido um dos países a apresentar um crescimento das vendas ao exterior mais expressivo ao longo dos últimos dois anos.

A Troika afirma que esta evolução resulta do comporamento dos CUT, que apresento em baixo numa base trimestral (clicar para aumentar).

Os CUT não reflectem um grande crescimento da produtividade. O Eurostat revela que a produtividade tem crescido em linha com a média da Zona Euro. A descida dos CUT reflecte, por isso, redução das remunerações. De onde vem esta redução?

Ao contrário do que porventura se esperaria, esta redução vem do sector público. Para chegar a esta conclusão, fiz o seguinte exercício: a) comparar as remunerações das Administrações Públicas das Contas Nacionais com as remunerações das famílias, sector financeiro e empresas não financeiras da mesma fonte; b) dividir o agregado pelo número total de trabalhadores de cada subsector; c) utilizar o boletim do emprego público para extrair os números do emprego nas Administrações Públicas no primeiro trimestre de 2012; d) calcular taxas de variação homólogas.

A variação negativa das remunerações vem sobretudo do sector público, devido ao corte salarial médio de 5% em 2011. Estes números não reflectem a retenção dos subsídios a fazer em 2012. A divergência deverá, por isso, agravar-se. Daqui extraem-se três conclusões.

A primeira conclusão é a impressionante rigidez nominal da economia portuguesa. A subida da taxa de desemprego para valores acima dos 13% não parece estar a ter efeito nas negociações salariais do sector privado.

A segunda conclusão é que a descida dos CUT deverá ter muito pouco a ver com a melhoria das exportações, tendo em conta que ela reflecte sobretudo desenvolvimentos salariais num sector (Administrações Públicas) que nem sequer concorre no mercado internacional.

Uma terceira conclusão tem que ver com a protecção relativa de sectores. Ao contrário do que seria de esperar, é no sector público que as remunerações têm caído mais. É verdade que o funcionário público médio tem maior estabilidade laboral, o que, poderá argumentar-se, compensa este efeito; porém, mesmo a este nível parece que as coisas mudaram muito nos últimos dois anos.

A TSU, os salários e a produtividade

A polémica em torno da TSU permanece ao rubro. Mas o debate parece ter cristalizado em torno da seguinte questão: a alteração permite reduzir salários no sector exportador e assim ganhar quota de mercado?

Subjacente a esta ideia está um diagnóstico que é frequentemente repetido no discurso político e económico: que os salários em Portugal cresceram acima da produtividade. Este diagnóstico é, no mínimo, pouco preciso. Vejamos porquê, começando por analisar o indicador comummente utilizado para ‘provar’ este facto.

Nesta imagem é óbvia a divergência salarial entre a Alemanhe e a periferia. Há contudo duas razões para acreditar que este indicador não conta a estória toda.

Note-se, em primeiro lugar, que a diferença entre a periferia e a média da Zona Euro é inferior à diferença entre esta e a Alemanha, sugerindo que pode ser a Alemanha o outlier e o verdadeiro ‘corpo estranho’ a necessitar de explicação. No caso específico de Portugal, há razões para crer que estes custos possam estar até sobrestimados.

Em segundo lugar, os ULC são um índice que compara a evolução das remunerações nominais com o PIB real por trabalhador. Incorporam assim três elementos: remunerações, PIB e deflator do PIB. Qualquer uma destas componentes pode conduzir a uma subida dos ULC, não havendo, à partida, razões para atribuir esta subida ao rácio remunerações/PIB.

De facto, o ‘Wage share’ calculado pela Comissão Europeia mostra que, à excepção do caso irlandês, não houve variação relevante da fracção do PIB absorvida pelo factor trabalho.

A explicação para a subida dos ULC está, isso sim, na evolução dos preços (avaliados pelo deflator do PIB), que cresceram mais em Portugal do que na média da Zona Euro.

Para ilustrar isto, decompus a variação acumulada das remunerações em três componentes: a produtividade, o deflator do PIB e um resíduo que é a parte não explicada por nenhuma destas parcelas – e que, na prática, significa a variação da repartição do PIB entre trabalho e capital. Um valor positivo indica que o trabalho absorve mais produção sem que isso seja explicado pela produtividade e/ou pela subida dos preços.

Como se vê, os salários cresceram menos do que seria de esperar tendo em conta a produtividade e a subida dos preços. A este nível, a Alemanha é novamente o ‘outlier’.

Tendo em conta que a política monetária é apenas uma, é legítimo perguntar por que é que os preços subiram mais em Portugal do que no resto da Zona Euro – e, em particular, na Alemanha.

A resposta mais provável tem que ver com um choque de procura. Entre 2000 e 2010, a economia portuguesa, tal como a maioria das economias da periferia, estiveram expostas a um crescimento de procura que aumentou os seus preços e levou assim a subidas salariais para compensar este desequilíbrio. Tal como seria de esperar numa pequena economia aberta, a subida dos preços notou-se no sector dos bens não transaccionáveis.

Esta narrativa foi defendida por alguns economistas, como Campos e Cunha. A principal diferença face à ‘história oficial’ é que nega que haja um problema de competitividade em Portugal, pondo a tónica no crescimento excessivo da procura, que atrofiou o sector exportador e engordou em demasia o sector não transaccionável.

Esta questão é relevante para a questão da TSU, na medida em que lança luz sobre os canais através dos quais a medida pode, ou não, ter efeito.

Por exemplo, perdem relevância as afirmações recentes do sector industrial, segundo as quais a margem garantida pela descida da TSU será devolvida aos trabalhadores. Se os salários estão alinhados pela produtividade, e os preços cresceram em linha com os preços internacionais, este é o resultado expectável.

Pelo contrário, continua a ser importante monitorizar a evolução dos salários e preços nos serviços e construção, seja porque a) foi o crescimento relativo destes sectores, seja em termos de emprego, seja em termos de preço, que gerou o desequilíbrio; seja porque b) serviços e construção são inputs do sector industrial, que acabam por afectar o seu desempenho.

Finalmente, há que considerar um terceiro factor: o diferencial de salários que se foi construindo na última década entre os trabalhadores da indústria e os trabalhadores dos serviços. Diminuir este diferencial é mais importante do que baixar os salários médios, na medida em que é este hiato que dificulta a transição da parte de um lado da economia para o outro.

Um laboratório para tirar a prova dos nove

Apesar de o novo pacote ser provavelmente neutro ao nível das contas públicas, o mesmo não se pode dizer acerca do impacto que tem no comportamento dos agentes económicos. A mexida da TSU parece ter claramente como objectivo simular a ‘desvalorização fiscal’ proposta pelo FMI, que por sua vez já tentava simular uma desvalorização cambial. Se é este o objectivo, como parece ser, vale a pena salientar alguns pontos.

A reforma do FMI propunha uma descida das contribuições sociais. A proposta do Governo é subir as contribuições sociais, mas de tal forma que a subida incida sobra o salário líquido do trabalhador, desafogando, como contrapartida, a factura salarial do empregador. A curto prazo, a medida pode permitir às empresas que têm a ‘corda na garganta’ e não conseguem reduzir salários (devido à rigidez nominal) ganharem algum espaço de manobra e assim evitar falências e mais desemprego.

No longo prazo, contudo, esta reforma corresponde a um salário de equilíbrio mais baixo, com uma oferta (e procura) de trabalho igualmente mais baixa. Questão: o novo mix é para ficar? O efeito negativo desta medida (no longo prazo, como é evidente) actua em sentido contrário ao efeito positivo de algumas das reformas estruturais actualmente em curso. Seria importante haver um plano para alterar esta situação.

Outro ponto importante: desde há algum tempo que há uma cisão entre os economistas que lêem a subida dos Custos Unitários do Trabalho como um resultado da degradação da posição competitiva externa de Portugal, produto de um deficiente mecanismo de formação de preços (a posição do FMI, aparentemente), e os que interpretam esta subida como resultado de um crescimento excessivo da procura interna, que aumentou os preços e salários do Sector Não Transaccionável (Campos e Cunha e Lebre de Freitas – ver aqui, por exemplo).

Se o FMI estiver certo, as empresas deverão, na sua generalidade, reter a folga permitida pela descida das contribuições sociais; mas se a segunda perspectiva for a correcta, então é expectável que haja subidas salariais nalguns sectores (sobretudo, de forma paradoxal, nos mais expostos à concorrência externa) através das quais a mesma folga seja redistribuída entre o capital e o trabalho. Quem faz trabalho empírico deve estar atento. Não é todos os dias que se tem uma experiência quase-controlada em economia.

Custos salariais sobrestimados?

E se os custos salariais forem mais baixos do que se pensa?

O Banco de Portugal (BdP) colocou a hipótese em 2010. Segundo o BdP, o encerramento da Caixa Geral de Aposentações a novos subscritores introduziu uma ruptura no tratamento dos dados das contribuições sociais pagas pela entidade patronal (o Estado, no caso), que aumentou artificalmente os custos salariais identificados nas estatísticas oficiais produzidas pelo INE (ver a caixa 2 do Boletim Económico de Verão de 2010).

Isto é relevante porque é com base nestes custos salariais que são calculados os Custos Unitários do Trabalho, o principal indicador de competitividade analisado pelos organismos europeus e, cada vez mais, pelos próprios observadores da Troika.

A novidade é que o BdP vai começar a publicar periodicamente uma nova série com a Taxa de Câmbio Efectiva Real de Portugal, deflacionada pelos Custos Unitários do Trabalho mas ajustada à alteração metodológica introduzida pelo INE. A diferença entre o indicador oficial, calculado pelo BCE com base nos dados do INE, e o indicador “ajustado”, é significativa.

A série pode ser acedida no Boletim Estatístico (tabela  D.123).