Um problema de empregos: pontas soltas da ‘hipótese cíclica’

O post anterior deu a explicação mais trivial de todas para a péssima performance do mercado laboral durante a primeira parte do século XXI: um típico choque de procura, que se concretizou num fraco crescimento do emprego.

Esta história ajusta-se aos factos ali até 2005. Mas uma propriedade da generalidade dos ciclos económicos é que são, enfim… cíclicos. O desemprego sobe e depois desce, à medida que os mecanismos internos de ajustamento da economia começam a operar.

E é essa parte que está a falhar nesta história. Durante o ciclo de 2000, o desemprego sobe muito. Mas, ao contrário do que aconteceu, nos ciclos anteriores, a descida subsequente é quase imperceptível. Parece haver ali alguma resistência a travar o ajustamento da economia. A imagem de baixo contrasta este ciclo com o ciclo anterior: assemelham-se em tudo… até 2006. (Infelizmente, não é possível fazer comparações com os ciclos anteriores, por limitações dados e alguma idiossincrasia da recessão em doube dip dos anos 70/80).

Imagem 10

O que terá de tão especial o período 2005-2007. Por que é que a taxa de desemprego continuou a subir, ao contrário do que seria de esperar?

Uma hipótese que não podemos descartar é simples má sorte. Os ciclos não têm necessariamente os mesmos timings, e é possível que os ritmos de subida e descida do desemprego divirjam um pouco de período para período.

Sendo possível, a explicação não me convence. Na imagem usei as previsões do FMI para os anos 2008-2009 (feitas em 2007), que mostram que já na altura ninguém esperava uma descida acentuada do desemprego.  É possível que o mercado de laboral recupere um ou dois anos mais tarde do que no ciclo anterior, mas um atraso de quatro anos parece-me difícil de engolir.

Uma segunda hipótese é a rigidez nominal introduzida pelo euro. Um dos mecanismos de ajustamento a choques macroeconómicos mais bem documentados é a desvalorização da moeda, que para todos os efeitos saiu de cima da mesa de 2001 em diante. Mas, para repetir um argumento avançado há muitos anos por Ricardo Reis, será a economia portuguesa tão inflexível que não consiga obter o mesmo efeito por via de desvalorização interna? Afinal de contas, estamos a falar de um período de quase oito anos. Além do mais, em 1991-2000 Portugal não tinha euro mas estava num regime de câmbios controlados, o que acaba por ter um resultado semelhante.

Uma terceira hipótese é a consolidação orçamental levada a cabo entre 2004 e 2007. Segundo as contas do FMI, a consolidação estrutural andou na casa dos 3,8% do PIB ao longo de três anos. São quase 4% do PIB, e mesmo que sejamos altamente conservadores na estimativa acerca do provável impacto desta consolidação, é difícil acreditar que ela foi inócua do ponto de vista da criação de emprego.

Um exemplo concreto: para um multiplicador moderado de 0.5, a consolidação implica um Produto cerca de 1,9% mais baixo do que no cenário contra-factural. Um desvio desta ordem, usando uma regra de Okun ‘habitual’ de 0.5% de emprego por cada 1% de PIB (e não a moderna regra de Okun) implica uma taxa de desemprego mais lenta em 1% ao longo deste período. Não chega para explicar tudo, mas pode dar uma ajuda. Novamente, estou a atirar para o ar alguns palpites informados.

Uma quarta hipótese é um kick-in de factores do lado da oferta. Alguns desses factores já foram enunciados num post anterior, e por isso apenas citarei o que já escrevi:

É fácil construir um argumento em torno de um sistema de reformas mal desenhado, que tornou a aposentação antecipada excessivamente atractiva; de um subsídio de desemprego demasiado longo, que desincentiva a reinserção no mercado laboral; da subida expressiva do Salário Mínimo Nacional a partir de 2001; e talvez até seja possível falar da expansão de prestações sociais no início do século XXI, que diminuem a urgência em encontrar emprego. Não sei se os timings de cada um destes factores bate certo com o fenómeno que estamos a tentar explicar, mas não seria estranho que tudo isto junto tivesse um impacto não negigenciável na redução das horas trabalhadas.

Uma diferente declinação desta ideia é o ‘enraizamento’ de desemprego cíclico como desemprego estrutural. Eu não gosto muito de invocar a histerese sem haver dados independentes que confirmem a hipótese (será que não estou apenas a racionalizar factos?), mas no caso de Portugal parece-me que é uma possibilidade a estudar. A minha leitura da investigação em torno deste tema (que infelizmente parece ter secado em meados dos anos 90 – Ball, Blanchard) é que a histerese é produzida por uma combinação exótica de factores: fortes choques de procura, dificuldade em sair rapidamente desta ‘zona de perigo’ e leis laborais rígidas. São precisos os três ingredientes para gerar o cocktail explosivo – e os três estavam presentes no Portugal de 2005.

O ponto que estou a tentar fazer aqui, em conjunto com o do post anterior, é que há aparentemente ‘dois choques’ de natureza diferente a afectar a economia no que diz respeito à criação de emprego. O primeiro faz-se sentir em 2001-2005, e é facilmente interpretável à luz da macroeconomia básica; o segundo parece ter uma natureza diferente, e apesar de poder ser compreensível à luz de alguns mecanismos económicos mais ou menos conhecidos, não se presta a uma identificação tão imediata.

Esta natureza diferenciada ‘dois choques’ do emprego deve ser um ingrediente essencial de qualquer ‘teoria’ acerca da Década Perdida da economia. A explicação não pode ser um guarda-chuva abrangente debaixo do qual se abriga uma “dificuldade de criar empregos”. Tem de ser suficientemente matizada para dar conta destes dois problemas diferentes – que se traduzem num mesmo resultado final (menos emprego) mas que têm naturezas provavelmente muito distintas.

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