O país com a maior dívida externa do mundo

Bom, na verdade não tenho a certeza de que seja mesmo o campeão da dívida externa. Há por aí umas largas dezenas de países sem dados actualizados relativos à Balança de Pagamentos, e outros tantos que não os reportaram ao FMI/Banco Mundial. Mas, se não ocupar a primeira posição, então de certeza que anda lá perto. Três pistas para quem gosta de adivinhas: é pequeno, é europeu e é um dos maiores exportadores da Zona Euro.

Ah, e entre activos menos passivos tem uma posição líquida negativa de 175% do respectivo PIB.

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Como não analisar os números do PIB

Todos os trimestres o INE divulga um destaque simpático com o comportamento do PIB nos três meses anteriores. E todos os trimestres ouvimos analistas a explicar este comportamento com base na evolução das suas componentes: o PIB cresceu ‘à boleia do Consumo Privado’, ‘acelerou por causa do Investimento’ ou ‘caiu por causa de um contributo negativo das exportações’.

Não há nada de errado nisto. O problema é quando se confunde contabilidade com causalidade, atribuindo o crescimento do PIB ao contributo contabilístico de cada variável.

Infelizmente, não é assim tão simples. Na verdade, é perfeitamente possível que o PIB cresça muito, que todo esse crescimento seja imputado a uma única variável e, ainda assim, que essa variável não tenha nada a ver com o assunto.

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Robôs, produtividade e pontas soltas

Num post anterior acerca dos robôs-que-nos-roubam-empregos notei os sinais contraditórios que recebemos de fontes diferentes. Por um lado, os media (e a experiência pessoal, convenhamos) sugerem que vivemos numa época de inovação tecnológica extraordinária. Por outro lado, as estatísticas agregadas mostram que a produtividade está pelas ruas da amargura.

Será que uma impressão está correcta e a outra está errada? Ou há alguma coisa a escapar-nos, e a contradição é mais aparente do que real? Eu diria que há pelo menos três explicações possíveis.

A explicação mais trivial é que há um delay considerável entre o momento em que as inovações são descobertas e o momento em que são incorporadas nos processos produtivos. Há inúmeros exemplos retirados da Revolução Industrial, mas o meu favorito é a afirmação de Robert Solow, de que “podemos encontrar computadores em todo o lado, excepto nas estatísticas da produtividade”. Poucos anos após pôr meio mundo a discutir o verdadeiro impacto das tecnologias de informação (1987), o alerta revelou-se extemporâneo. A produtividade disparou nos anos 90 e os estudos subsequentes mostraram que isto se devia em parte… às tecnologias de informação.

Se o passado serve para iluminar o futuro, então talvez os robôs sejam mesmo para levar a sério. Talvez seja só uma questão de tempo até que os protótipos passem das capas da Wired, onde fazem manchetes mas (ainda) não produzem, para os lares das famílias e linhas de montagem das empresas. Se for este o caso, então talvez o desemprego tecnológico – transitório, mas real – seja uma possibilidade séria nos próximos 10 ou 20 anos.

Uma segunda explicação é que podemos estar apenas a medir mal o crescimento do PIB – e, consequentemente, temos uma ideia incorrecta da produtividade.

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Ir além do PIB

Uma das críticas mais comuns à economia convencional – e que se torna ainda mais recorrente em grupos de sociólogos ou cientistas políticos – é a importância que os economistas atribuem ao conceito de Produto Interno Bruto.

Os FMI’s e Bancos Mundiais desta vida passam uma boa parte do seu tempo a dar lições aos países em crise sobre como pôr o Produto a crescer mais. A Comissão Europeia usa os números do PIB para fixar metas – e, assim, influenciar indirectamente a política orçamental  dos estados-membro. Quanto estudam a pobreza ou as diferenças de qualidade de vida entre países, os economistas da academia recorrem invariavelmente ao PIB ou aos seus primos mais próximos, o RNB e o RDB.

Seja qual for o tema em questão, o PIB está quase sempre lá. E aparece sempre, de forma mais ou menos implícita, como uma métrica de sucesso.

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Riqueza das famílias portuguesas: de 2010 a 2013

O INE acabou de publicar o Inquérito à Situação Financeira das Famílias, um relatório rico e detalhado acerca da situação patrimonial e financeira dos portugueses.

É o tipo de coisa que pode dar jeito a jornalistas que estejam interessados – por exemplo – em saber quanto é que a ‘classe média’ tem guardado no banco. Ou qual o valor do seu património imobiliário. Ou quantas pessoas têm acções e outras aplicações financeiras, e onde estão essas pessoas na escala de rendimentos. Nesta altura – e talvez durante os próximos dois anos – pode ser um recurso valioso.

Eu dei uma vista de olhos nos principais números, que actualizam para 2013 as informações que tinham sido divulgadas pela última vez em 2010. O que mais me chamou a atenção foi a variação da riqueza financeira líquida (activos menos passivos) ao longo da escala de rendimentos.

Os números são mais ou menos estes. De 2010 para cá, as duas ‘abas’ da distribuição de rendimentos (‘ricos’ e ‘pobres’, para simplificar) não tiveram sortes iguais. quem estava no grupo dos 20% mais pobres perdeu quase metade do seu património (primeira coluna à esquerda); quem estava do outro lado acabou por ganhar. Ligeiramente, mas ganhou.

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Concluiu-se mais ou mesmo ou mesmo quando dividimos a amostra não por percentis de rendimento, mas por percentis de riqueza. Neste caso, as diferenças entre os extremos são, por razões óbvias, bastante maiores. Mas o ponto do parágrafo anterior mantém-se: quem estava no fundo perdeu, e quem estava lá à frente ganhou (Nota: nem todos estes números estão disponíveis no destaque do INE. Alguns valores tiveram de ser retirados do boletim de 2010)

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Mas confesso que não sei até que ponto é que estes dados não ser um subproduto da forma como os dados recolhidos. A nota metodológica do INE sugere que estes são dados seccionais – isto é, o INE pega nos resultados de cada ano e ‘divide-os’ por escalões de rendimento (ou riqueza) e calcular estes valores. O que não significa que os mais ricos de 2010 tenham ganho em 2013, e que os mais pobres tenham perdido. É perfeitamente possível que de um inquérito para o outro tenha havido uma recomposição das famílias que compõem o lote de ‘ricos’ e de ‘pobres’. Na prática, portanto, estaríamos apenas a ver medianas de riqueza de grupos diferentes.

Em todo o caso, o boletim é uma óptima fonte de informação para conhecermos melhor a sociedade portuguesa – mesmo que nem sempre permita responder às perguntas que achamos mais interessantes.

O que os empresários dizem

O Global Competitiveness Report 2016/2017 já saiu, e como é habitual gerou-se algum zum-zum acerca do que o documento diz ou não diz (nota para iniciantes: a posição relativa de Portugal piorou em 2016. Por isso conseguem imaginar a natureza do zum-zum).

Eu não queria discutir as principais conclusões do relatório. Mas quero deixar uma nota acerca deste tipo de documentos e lançar um pequeno alerta relativamente ao que se pode extrair dali. Vou pegar num exemplo catchy para ser polémico, chamar leitores e inverter a inexorável tendência de diminuição do meu número de leitores; mas acreditem quando vos digo que o que escrevo vale para uma boa parte daquilo que se lê naquelas páginas.

Adiante, então. Uma das partes mais citadas do relatório é a que mostra os principais entraves a negócios. Em Portugal, são os seguintes:

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Acima da produtividade

De vez em quando lê-se por aí que os salários cresceram, ou vão crescer, acima da produtividade. E na maior parte das vezes não há problema em escrever isto, porque o contexto é suficientemente específico para que possamos ter a certeza de que os potenciais leitores sabem exactamente o que é que está – ou não está – em causa. O problema é quando a coisa sai dos relatórios sem o devido contexto e acaba a contaminar a discussão pública de uma forma pouco rigorosa. E é por isso que a UTAO, que bem percebe destas coisas, devia evitar frases como esta:

Neste cenário [PEC 2016-2020], a produtividade do trabalho deverá também aumentar, ainda que a um ritmo inferior ao das remunerações do total da economia.

Este é um tema antigo, e já escrevi tantas vezes sobre ele que por esta altura talvez fosse mais simples e eficaz linkar alguma coisa antiga do que voltar à carga. Acontece que entretanto encontrei uma forma mais interessante e didáctica de explicar a ideia, e por isso talvez não seja perda de tempo acrescentar mais alguns caracteres.

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