Números bíblicos

Uma das coisas que me habituei a fazer desde há uns anos para cá é olhar para a Grécia sempre que saem novas previsões económicas. Chega a ser monótono: os números são sempre revistos em baixa. E à medida que a projecção avança no tempo torna-se cada vez mais visível a verdadeira dimensão e persistência da tragédia grega.

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Saldos primários e lições da história

Já foi divulgado o texto do Memorando de Entendimento do terceiro resgate grego. Uma boa notícia: as metas para o saldo primário foram substancialmente revistas em baixa1. Mas só de 2015 a 2017. Daí em diante, mantém-se a exigência antiga: atingir um excedente primário de 3,5% do PIB, e conservá-lo durante a esse nível durante muito, muito tempo.

Isto é possível? Muita gente pensa que não, com base no – chamemos-lhe assim – argumento histórico. Segundo este argumento, são historicamente raríssimos os casos de países que conseguiram atingir saldos primários desta dimensão, e mais raros ainda os casos de países que o fizeram de forma duradoura. Se tantas economias sólidas falharam esse objectivo, prossegue o argumento, não será certamente a Grécia a fugir à regra.

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Era tudo tão, tão, tão previsível

Aparentemente, a Grécia vai mesmo ter um terceiro resgate. De acordo com uma das narrativas que agora circula, a história é simples de contar. Primeiro, os gregos elegeram um Governo mandatado para acabar com a austeridade. Depois, o resto da Zona Euro cortou o financiamento e deixou o Estado grego sem meios para pagar as contas. E posteriormente foi a vez do BCE colocar um limite à ajuda a conceder aos bancos da Grécia, obrigando à imposição de controlos de capitais. Perante a chantagem europeia, que impediu o Syriza de cumprir as suas promessas eleitorais, Tsipras não teve outra opção que não aceitar este humilhante acordo.

Descontando o framing enviesado (os votos gregos contra a austeridade são um “exercício da democracia”, os votos alemães contra um empréstimo adicional são uma perfídia), julgo que esta é uma descrição correcta dos acontecimentos. Sim, o Governo grego cedeu porque não houve, na Zona Euro ou no Banco Central Europeu, quem quisesse emprestar mais dinheiro.

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Os erros do programa grego (II)

post anterior discutiu os erros da Troika na abordagem à crise da dívida pública grega. Passados cinco anos desde o início do programa, alguns desses erros parecem hoje óbvios. Mas julgo que não é só a Troika que teria feito coisas diferentes se pudesse voltar atrás no tempo. Provavelmente, o Governo grego também deve ter chegado à conclusão de que cometeu um grande erro em 2010.

Falo, claro, da decisão de permanecer no euro.

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Igualdade na Grécia, em Portugal e na Islândia

A OCDE publicou há umas semanas o seu boletim anual acerca da evolução das desigualdades (o título deste ano é revelador: In it together: why less inequality benefits all). Uma das coisas mais interessantes do documento, que só agora tive a oportunidade de ler, é a comparação que fazem dos efeitos “distributivos” das medidas de austeridade na Europa.

O princípio parece-me semelhante ao que o FMI empregou há cerca de dois anos. Basicamente, pegam em informação detalhada acerca das medidas implementadas, criam uma espécie de “mapa” do tipo de famílias que populam cada país e cruzam as duas informações. Resultado: um quadro geral do impacto que os pacotes de austeridade tiveram em cada franja de rendimento.

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Os erros do programa grego (I)

Todos sabemos que o programa de resgate da Grécia não correu bem. Não correu bem para a Grécia, porque os custos económicos e sociais do programa foram muito superiores ao que se esperava; não correu bem para os credores, porque acabaram mesmo por ter de suportar perdas no âmbito da reestruturação de 2012; e não correu bem para a Europa e para o BCE, que tinham apostado tudo em circunscrever a crise da dívida à Grécia e acabaram com mais quatro países no colo à beira da bancarrota.

Mas até que ponto é que os erros da Troika resultaram de incompetência grosseira? É que, apesar de ser óbvio que o programa teve erros – alguns dos quais foram reconhecidos publicamente -, parece-me menos claro que estes erros fossem fáceis de detectar na altura em que o programa foi desenhado. Se for esse o caso, os erros da Troika só parecem hoje óbvios e grosseiros porque temos o benefício de olhar retrospectivamente para o caso.

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A virgindade de Varoufakis

A intervenção de Yanis Varoufakis no Eurogrupo de hoje de tarde foi publicada pelo próprio no seu blogue pessoal. Em baixo cito alguns excertos, mas se não leram o texto podem dar lá um pulo e depois voltar aqui. Vale a pena ler.

I understand that there are concerns that our government may slip into a primary deficit again and that this is the reason the institutions are pressing us to accept large VAT rises and large pension cuts. While it is our view that the announcement of a viable agreement will suffice to boost economic activity sufficiently to produce a healthy primary surplus, I understand perfectly well that our creditors and partners may have cause to be sceptical to want safeguards; an insurance policy against our government’s possible slide into profligacy. This is what lies behind Dr Blanchard’s call for the Greek government to offer “truly credible measures.” So here comes an idea. A “truly credible measure”.

Instead of arguing over half a percentage point of measures (or on whether these tax measures will have to all of the parametric type or not), how about a deeper, more comprehensive, permanent reform? An automated hard deficit brake that is legislated and monitored by the independent Fiscal Council we and the institutions have already agreed upon. The Fiscal Council would monitor the state budget’s execution on a weekly basis, issue warnings if a minimum primary surplus target looks like being violated and, at some point, trigger automated across the board, horizontal, reductions in all outlays in order to prevent the slide below the pre-agreed threshold. That way a failsafe system is in place that ensures the solvency of the Greek state while the Greek government retains the policy space it needs in order to remain sovereign and able to govern within a democratic context. Consider this to be a firm proposal that our government will implement immediately after an agreement.

Há algumas partes que à primeira vista parecem discutíveis, como o trecho acerca da importância das pensões, que é bastante diferente do retrato tirado aqui. Mas, no geral, é um discurso perfeitamente razoável.

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