Défice externo duplica? Bom, é complicado…

O Banco de Portugal divulgou os números da Balança de Pagamentos (BoP) para Junho. A BOP agrega o conjunto das estatísticas que analisam as relações económicas de Portugal com o exterior (o “resto do mundo”), e servem, por exemplo, para calcular o valor do défice externo ou o ritmo de acumulação de dívida da economia. Alguns dos títulos publicados foram, por exemplo:

Défice externo quase duplica

Défice das Balanças Corrente e de capitais aumenta no 1º semestre

Défice Externo agravou-se no primeiro semestre

O primeiro sinal amarelo na economia

As notícias sugerem que há um problema nas contas externas, e fazem duas afirmações diferentes ao mesmo. Primeiro, está implícito que no passado (no semestre passado? No ano passado?) havia défice externo. Segundo, este défice externo terá aumentado nos primeiros seis meses do ano. Mas como pode ser isto verdade, se a economia teve um saldo externo positivo de 1,5% do PIB em 2016?

Se consultarmos os dados do Banco de Portugal veremos que os números estão correctos. Como se diz no destaque, «Nos primeiros seis meses do ano, as balanças corrente e de capital apresentaram um défice de 685 milhões de euros, o que compara com um défice de 356 milhões de euros observado no primeiro semestre de 2016. Esta evolução foi determinada pelas balanças de bens e de rendimento primário». Mas se experimentarmos olhar para toda a série estatística divulgada no Boletim Estatístico, e não apenas para os valores que aparecem no pdf associado, descobrimos o rabo do gato escondido.

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A imagem de cima mostra a Balança Corrente e de Capital (o “défice externo”, na terminologia da BoP) por semestre, de 2011 a 2017. As barras cinzentas assinalam os primeiros semestres de cada ano.

Reparem como nesses primeiros semestres a BoP costuma ir, por norma, a terreno negativo. É assim em todos os anos, devido a efeitos sazonais. Neste contexto, o facto de a economia ter gerado um défice externo “no primeiro semestre” não é, em si, muito relevante. É tão informativo como dizer que eu tive mais receitas do que despesas durante o período de férias. Daí não se extrai grande coisa.

Felizmente, o Banco de Portugal também publica dados ajustados de sazonalidade. Mudando a métrica, a notícia desaparece. Há uma ligeira descida, mas nada de mais. Tudo muito estável, muito banal e muito pouco digno de notícia.

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Na verdade, até podemos ir mais longe e dividir os saldos semestrais pelo PIB respectivo. Neste caso – ao contrário de outros casos – a diferença não é muita. Mas é preciso fazer a conta para concluir que o impacto é pequeno, e como já tinhas as mãos na massa deixo aqui o resultado final.

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Já agora, a minha opinião sobre o ‘problema’ do défice externo não mudou muito desde 2014, quando a questão veio à baila. A minha opinião na altura era que, dadas as circunstâncias concretas da economia portuguesa (o nível do saldo externo), e dada a relação habitual entre as contas externas e o crescimento económico (a elasticidade das importações à procura interna), seria preciso um crescimento económico muito acima de quaisquer previsões minimamente razoáveis para pôr em causa o equilíbrio externo. E mesmo no cenário (improvável) de Portugal atingir esse crescimento (uma boa notícia, obviamente!), haveria uma margem de manobra considerável para acomodar esse desvio.

Para quem quiser perder tempo com isto, deixo alguns links em baixo. Para os restantes, boas férias.

P.S.- E aqui vão os links: Quão estrutural é a redução do défice externo? (01/2014), Défice externo, factores estruturais e o PIB Potencial (01/2014), A Comissão Europeia, o FMI e o défice externo (02/2014), Défice externo e output gap: as contas do FMI (07/2014), Desemprego estrutural e o défice externo (07/2014), Os problemas fantasma das contas com o exterior (03/2015), Discutir migalhas: a procura interna (04/2015), Que retoma é esta, afinal? (09/2015)
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