Portugal: a taxa de poupança mais alta de sempre

Os leitores mais atentos à imprensa económica já devem saber que as famílias portuguesas estão a poupar cada vez menos. Aliás, estão a poupar tão pouco que até já gastam mais em consumo do que o que ganham em rendimento. Como se lia no Expresso de há umas semanas:

Não é novidade que a reduzida poupança das famílias é um motivo de preocupação para a economia portuguesa, aflita em financiar o investimento e em garantir a sustentabilidade da dívida. De facto, a taxa de poupança das famílias portuguesas, que superava a casa dos 20% do rendimento disponível nos anos 80, caiu para metade com o processo de convergência para adesão ao euro nos anos 90 (…) Mas neste primeiro trimestre de 2016, o problema ganhou uma nova dimensão. De acordo com as estatísticas do INE, a questão já não está no facto dos portugueses pouparem cada vez menos, muito pouco quando comparados com os parceiros do euro. A questão agora é que a poupança não só desapareceu como é negativa.

Há dois problemas com este raciocínio. E não é que sejam novos – mas como o blogue anda parado…

O primeiro – e aqui voltamos a um problema antigo, antigo – é que a ‘poupança’ a que o artigo se refere não é bem a ‘poupança’ relevante para “garantir a sustentabilidade da dívida”. As contas nacionais, a fonte primária do artigo, dizem-nos apenas qual é a percentagem do rendimento disponível das famílias que elas não gastam em consumo, deixando de fora alguns itens que, sendo despesa, não são considerados consumo (a habitação é o exemplo mais óbvio).

Ora, para a sustentabilidade da dívida o que conta é a relação entre o rendimento e todas as despesas, porque é da diferença entre as duas que se determina a necessidade de recorrer a empréstimos ou a capacidade de pagar os que já existem. E quando se olha para este indicador, em vez da malfada ‘taxa de poupança’, o comportamento das famílias parece bem menos anómalo.

O segundo problema é que, apesar de a poupança ser de facto uma condição necessária “para financiar o investimento”, a proveniência concreta desta poupança não é muito importante. A poupança serve para financiar o investimento: coisas como máquinas, edifícios e infra-estruturas. De um ponto de vista macroeconómico, é irrelevante a poupança de cada agente económico, ou sequer de cada sector institucional. A redução da poupança das famílias só é um problema se não for compensada por um movimento de sentido contrário noutro sector qualquer.

E como é que se tem comportado a poupança global? Mais ou menos assim:

as

O gráfico não nos diz necessariamente se a taxa de poupança é alta, baixa ou insuficiente. Mas diz-nos seguramente que nos últimos trimestres não se passou nada de especial com este indicador. Ele está mais ou menos estável nos 15% do PIB pelo menos desde 2013.

E a explicação é simples. A redução da poupança das famílias foi compensada pelo aumento da poupança de outros sectores – em parte por causa do Estado (reduzir o défice é mais ou menos isso…), mas sobretudo por causa das empresas não financeiras, cuja taxa de poupança está num nível antes visto. E que justifica, por si só, título deste post.

aaa

 

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One comment on “Portugal: a taxa de poupança mais alta de sempre

  1. António Ferreira diz:

    Esclarecedor. .. eis porque gosto deste blog. O ultimo gráfico parece sugerir que o crescimento economico dos ultimos 2 anos se deveu ao consumo dos particulares…enquanto empresas, talvez pelo endividamento latente ou fracas expectativas, aumentaram a sua taxa de poupança (não gastam…). Não admira que o crescimento seja fraco…

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