Essa coisa estranha da poupança das famílias

A confiar nos dados do INE, citados pela Lusa, a poupança das famílias continua a cair e atingiu no final de 2015 um mínimo histórico. Mas este não é o único recorde a ser batido na economia portuguesa. Segundo dados do Banco de Portugal, as mesmas famílias estão a desalavancar ao ritmo mais rápido de sempre.

Conseguiu seguir o raciocínio? Se calhar não, e até achou incongruente. Mas não se preocupe: esta é uma confusão recorrente sempre que o INE divulga estes dados. E que me faz pensar que teríamos todos imenso a ganhar se deixássemos pura e simplesmente de falar de ‘poupança’. É que a ‘poupança’, neste contexto específico – o contexto das Contas Nacionais – tem pouco a ver com aquilo que habitualmente chamamos de… enfim, poupança.

Há uma série de diferenças, mas a maior importante é o facto de ‘nesta’ poupança não ser contabilizada a despesa com habitação, que é considerada uma despesa de investimento. Ou seja: se as famílias deixarem de comprar casa, guardando o dinheiro ‘poupado’ no banco ou no colchão, as suas capacidades financeiras aumentam – por exemplo, podem subscrever um depósito ou amortizar dívida; mas a poupança, medida pelo INE, não mexe um milímetro.

E sim, no caso de Portugal é precisamente isso que está a acontecer. A taxa de poupança está hoje no nível mais baixo de sempre, lançando os alertas a que a Lusa deu voz. A capacidade/necessidade de financiamento (aquilo que as pessoas comuns entendem por poupança), porém, está mais ou menos ao nível da média histórica.

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Vejamos as coisas de outra perspectiva. Em baixo mostro dados do Banco de Portugal com a totalidade das responsabilidades financeiras das famílias (dívida) e a sua situação patrimonial líquida (activos menos passivos). Os números vêm do Boletim Estatístico, actualizado mensalmente, mas por alguma razão nunca têm metade do destaque que a comunicação social dá às Contas Nacionais, publicadas uma vez por trimestre.

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Conseguem ver a diferença? A imagem não joga muito bem com a ideia de que as famílias portuguesas entraram num fervor consumista de há dois ou três trimestres para cá. E por uma boa razão: porque esse fervor consumista não existe.

Leituras recomendadas: O crédito cresce como nunca, A taxa de poupança mais baixa da história, Que retoma é esta, afinal?

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3 comments on “Essa coisa estranha da poupança das famílias

  1. «Há uma série de diferenças, mas a maior importante é o facto de ‘nesta’ poupança não ser contabilizada a despesa com habitação, que é considerada uma despesa de investimento. »

    Com “não ser contabilizada” o Pedro quer dizer que a despesa com habitação não é adicionada à poupança, ou que não é subtraída da poupança?

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    • A minha formulação pode não ser muito clara, mas é a sua segunda opção: a despesa com habitação não é uma despesa de consumo, pelo que não afecta a poupança. [Poupança=Rendimento Disponível – Consumo; a habitação não é considerada consumo; logo…]

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  2. Depois das projeções do aumento do crédito ao consumo (http://www.comparaja.pt/blog/o-que-deve-saber-sobre-o-aumento-do-credito-ao-consumo-em-2015) terem sido praticamente confirmadas ao longo o ano, isto é, um aumento a rondar os 15%, como é que a capacidade de financiamento das famílias diminuiu para 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2015 (http://economico.sapo.pt/noticias/ine-taxa-de-poupanca-das-familias-volta-a-bater-minimos_245655.html) e a taxa de poupança atingiu, simultaneamente, um mínimo histórico o ano passado?

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