Acima da produtividade

De vez em quando lê-se por aí que os salários cresceram, ou vão crescer, acima da produtividade. E na maior parte das vezes não há problema em escrever isto, porque o contexto é suficientemente específico para que possamos ter a certeza de que os potenciais leitores sabem exactamente o que é que está – ou não está – em causa. O problema é quando a coisa sai dos relatórios sem o devido contexto e acaba a contaminar a discussão pública de uma forma pouco rigorosa. E é por isso que a UTAO, que bem percebe destas coisas, devia evitar frases como esta:

Neste cenário [PEC 2016-2020], a produtividade do trabalho deverá também aumentar, ainda que a um ritmo inferior ao das remunerações do total da economia.

Este é um tema antigo, e já escrevi tantas vezes sobre ele que por esta altura talvez fosse mais simples e eficaz linkar alguma coisa antiga do que voltar à carga. Acontece que entretanto encontrei uma forma mais interessante e didáctica de explicar a ideia, e por isso talvez não seja perda de tempo acrescentar mais alguns caracteres.

Continuar a ler

Anúncios

Se a Grécia fosse Portugal

Uma das coisas mais lamentáveis na discussão da crise grega é a (aparente) dificuldade de muita gente em apreender os factos mais básicos da questão. Não estou a falar de argumentos débeis, como a ideia de que flexibilizar metas significa deixar a Grécia viver novamente acima das suas possibilidades. Refiro-me a erros factuais – por exemplo, a ignorância de que a Grécia foi, ao contrário do que se pensa, o país europeu que mais reformas estruturais fez e que mais apertou o seu orçamento.

Na verdade, o colapso da Grécia é simples de explicar. Perante a situação calamitosa das contas públicas em 2009, só havia duas possibilidades: saída do euro para financiar o défice com emissão monetária – algo que ninguém queria -, ou um ambicioso programa de consolidação orçamental, associado a financiamento por parte dos credores oficiais. Como a consolidação afecta negativamente o crescimento, a recessão era inevitável.

Continuar a ler

Os salários e a produtividade pela centésima vez

Quando inaugurei este blogue, há pouco mais de dois anos, escrevi uma série de posts acerca de competitividade (1, 2, 3 e 4). A ideia principal era que grande parte do debate em torno da questão estava enviesado por uma compreensão deficiente dos Custos Unitários do Trabalho. A maior parte dos comentadores via os CUT a subir e tinha a reacção típica: lá estão os salários a subir acima da produtividade. Um cronista do Expresso chegou a afirmar, sem se dar conta do absurdo, que em Portugal os salários tinham crescido 12 vezes acima da produtividade.

Claro que nem os salários subiram acima da produtividade nem os CUT podiam dizer muito acerca disso. Pela simples razão de que este indicador compara duas realidades diferentes: a produtividade real com a remuneração nominal. Felizmente, alguém na Comissão Europeia se deu ao trabalho de comparar o que pode ser comparado antes de falar de produtividade e salários. O resultado vem no último relatório do Procedimento por Desequilíbrios Macroeconómicos.

A economia sofreu um importante ajustamento dos salários reais nos últimos anos. Os salários reais já estavam a crescer abaixo da taxa de crescimento da produtividade antes da crise económica (gráfico 2.3.4). Esta tendência tornou-se mais pronunciada após 2010, devido à moderação do crescimento dos salários nominais e a um crescimento sustentado da produtividade do trabalho.

Sem Título

Para lá dos preços

Uma entrada no Vox que mistura um título sonante com um dos temas mais áridos da macroeconomia: a aparente irrelevância da taxa de câmbio real na determinação da performance das exportações. The cost-competitiveness obsession, por Konstantins Benkovskis e Julia Woerz. Sobre o mesmo tema, ler: Paradoxos do equilíbrio externo e It seems rather disturbing)

Relying solely on price factors (REERs) in the assessment of a country’s competitiveness may lead to wrong policy conclusions as this reduces the policy focus to pure price competitiveness and rules out any change in a country’s competitive position due to other factors such as enhanced quality or better labelling of its export products. Putting the focus on such factors, our analysis suggests that the role of the exchange rate in explaining China’s competitive position may have been overstated and the dominant role in boosting China’s presence in the global market belongs among others to improvements in non-price factors.

Our results may also indirectly indicate the importance of the globalisation and outsourcing process. The nice clustering – developed countries losing and emerging countries gaining non-price competitiveness – can be partially attributed to the outsourcing of higher-quality goods production from developed to emerging countries. The Czech Republic is a well-known ‘final-assembly’ destination for the German car industry that may partially explain the positive contribution of non-price factors in its exports whereby the increase in relative quality is likely to have been imported via intermediates to some extent. This would support the finding of Koopman et al. (2014) who report that a significant share of domestic value added returns home to advanced countries via imports from emerging countries for Western EU, the US, and Japan. This requires shifting the focus of the analysis to from trade flows to value added when assessing the external performance of countries.

Ganância ou ignorância

Getting the german argument right, por Simon Wren-Lews. O autor toca num ponto importante, que tentei explicar aqui: estímulos monetários e/ou orçamentais a nível europeu não são um ‘mal menor’ ao qual a Alemanha deva fechar os olhos – são algo em que os  próprios germânicos têm interesse. A partir do momento em que se percebe que o realinhamento de competitividade é uma realidade, a única opção que temos é decidir se o ajustamento se faz através de inflação acima da meta na Alemanha ou via recessão e deflação na periferia. Desse ponto de vista, a posição da Alemanha é muito mais o resultado da ignorância do que da ganância.

The problem with the second argument is twofold. First, it tunes in with the popular sentiment in Germany that the country is yet again being asked to ‘bail out’ its Eurozone neighbours. Second, it implicitly suggests that the current German macroeconomic position is appropriate, but that Germany must move away from this position for the sake of the Eurozone as a whole. The obvious German response is to list all the reasons why their economy is currently on track (see, for example, Otmar Issing in the FT recently), and suggest therefore that other countries should look at their own policies for salvation. This is how we end up needlessly discussing structural reforms in France, Italy and so on.

The uncomfortable truth for Germany, which both the previous arguments can miss, is that the appropriate macroeconomic position for Germany at the moment is a boom, with inflation running well above 2%. The current competitiveness misalignment is a result of low nominal wage growth in Germany over the 2000 to 2007 period, which was in effect (and perhaps unintentionally) a beggar my neighbour policy with respect to the rest of the Eurozone. Germany’s current position is unsustainable, as its huge current account surplus and relative cyclical position shows. It will be corrected by undoing what happened from 2000 to 2007. Over the next five or ten years, German inflation will exceed the Eurozone average until its long term relative competitive position is restored.

The only choice is how this happens. From the perspective of the Eurozone as a whole, the efficient solution would be above 2% inflation in Germany, and below 2% inflation elsewhere. That is what would happen if the ECB was able to do its job, and Germany would get no choice in the matter. Normally above 2% inflation in Germany would require a boom (a positive output gap), but if it can be achieved without that fine, although I would note that current German inflation is only 0.8%. Arguments that point to currently low unemployment and a zero output gap in Germany are therefore irrelevant while German inflation is so low. The inefficient alternative solution is for 2% or less inflation in Germany, and actual or near deflation outside. Why is this solution inefficient? Because to get inflation that low outside Germany requires the Eurozone recession we are now experiencing

This is where structural reforms enter. Many German commentators say ‘why cannot other countries do what we did from 2000 to 2007’? But low nominal wage growth in Germany from 2000 to 2007 was accompanied by a recession in Germany! Furthermore, that recession was not so bad as the current Eurozone position, because the ECB was able to do its job and cut interest rates, so inflation outside Germany was above 2%. So from 2000 to 2007 many countries had to experience above target inflation because of low nominal wage growth in Germany, [2] yet many in Germany want to avoid above target inflation while imbalances are corrected.

If your starting point is what happened in Germany from 2000 to 2007, then current German arguments can look incredibly self-centred. They seem to say: we suffered a recession from 2000 to 2007 which led to a beggar my neighbour outcome, now you have to suffer a worse recession to put right the problem we created. But as I have argued before, and which comments on my recent posts and readings confirm, I think the German position is more about ignorance than greed. I also suspect there is a great deal of macroeconomic ignorance outside Germany as well, which is why Germany has been able to impose a recession on the rest of the Eurozone. Take for example this paper by Michael Miebach, who speaks from the left of centre in Germany.

Miebach presents a wide range of macroeconomic fallacies or irrelevant arguments. Germany’s fiscal position is not good (irrelevant in a liquidity trap), its macroeconomic position is not too bad (when it should have above 2% inflation, which probably requires a boom), fiscal expansion in Germany would have only a small impact on the periphery (but what we should be talking about is fiscal expansion in all the main Eurozone economies, which this paper confirms would help the periphery as well as France, Italy etc, and expansion in Germany would benefit countries like the Netherlands), and the old canard about how focusing on demand distracts attention from dealing with structural weaknesses in the Eurozone. But most revealingly we have this.

Competitividade em gráficos

A relação entre equilíbrio interno (emprego), equilíbrio externo (balança comercial) e competitividade não é fácil de perceber, mas acho que encontrei uma forma bastante simples de expor melhor a questão. E, tendo em conta o potencial pedagógico das ilustrações, acho que se justifica algum sacrifício do rigor.

A imagem de baixo mostra a relação entre a taxa de desemprego e o saldo da balança comercial em Portugal desde 1960 a 1997. Surpresa: não há relação nenhuma entre ambos – não é pelo facto de o desemprego ser mais alto que o défice comercial é mais baixo.

aa

Mas isto é menos surpreendente do que parece. Num regime de câmbios flexíveis – ou fixos mas ajustáveis – não é  necessário comprimir a procura interna para atingir um saldo comercial mais favorável. A manipulação da taxa de câmbio permite atingir simultaneamente os dois objectivos, tornando a produção interna mais barata e aumentando o emprego nos sectores que mais beneficiam dessa alteração dos termos de troca.

Assim, e pelo menos no longo prazo, qualquer relação entre o desemprego e o saldo comercial esfuma-se. Mas quando o mecanismo cambial desaparece, a situação muda de figura.

bb

Sem moeda para desvalorizar, o nível de desemprego torna-se um forte determinante do saldo comercial. Para uma dada taxa de câmbio, a economia só pode estar num dos pontos ao longo da linha traçada (escolhi 1998 porque esse foi o ano da fixação das taxas de cãmbio irrevogáveis). Se os constrangimentos financeiros impedirem Portugal de ter crédito, o preço a pagar será um desemprego permanentemente elevado, à volta dos 16%.

A alternativa à desvalorização cambial, que não é possível, é a desvalorização interna, baixando preços e salários. Em termos gráficos, isso corresponde a ‘sair’ da linha desenhada no gráfico e ‘caminhar para cima’, de forma a que um determinado saldo comercial possa corresponder uma taxa de desemprego mais baixa. A questão levantada pelo FMI é se os excedentes comercais de 2013 foram conseguidos à custa de melhorias de competitividades ou se às custas do desemprego – ou seja, se Portugal conseguiu ‘sair da recta’ ou se apenas caminhou ao longo da recta*.

*Infelizmente, isso não se pode inferir olhando apenas para a imagem. A recta representa uma condição ceteris paribus, que obriga a manter constantes uma série de factores como output gaps relativos, procura externa, etc. Esta condição violada de forma particularmente severa nos últimos anos.

 

 

This seems rather disturbing

Relação entre a variação da taxa de câmbio real e a variação da quota de mercado. Fonte: Comissão Europeia.

xxx

 

“Although gains in cost competitiveness  have been associated with large gains in market  shares in countries such as Spain and Portugal, this has not been the case in other vulnerable Member. States such as Greece, Cyprus and Ireland. In  addition, losses in cost competitiveness in Member  States in a stronger growth position have, in most cases, not been associated with significant losses in market shares. Clearly, price competitiveness is not  the only determinant of differences in export  performance across the euro area and non-price  competitiveness factors have so far tended to blunt  the operation of the competitiveness channel.

Ler também Paradoxos do equilíbrio externo