EUA, terra dos oligopólios?

Só esta semana é que tive tempo de fazer o catching-up de leituras em espera e de pôr em dia algumas coisas que foram ficando para trás. Depois de ler o excelente Does Productivity Growth threaten employment, de David Autor e Anna Salomons, agora arranjei um tempinho para passar os olhos pelo não menos interessante Is there an investment gap in advanced economies? If so, why? (de Thomas Phillippon, Robin Dottling e German Gutierrez), que também foi apresentado no Fórum de Sintra.

O ponto de partida do estudo é a debilidade do Investimento nas economias desenvolvidas ao longo dos últimos anos. Apesar destas economias estarem em processo de recuperação (e nalguns casos praticamente concluído, como parece ser a situação americana), não há maneira de a Formação Bruta de Capital Fixo arrancar. O PIB cresce, mas as empresas não investem. Porquê?

Phillippon e co-autores abordam a questão do ponto de vista do Q de Tobin e chegam a conclusões muito interessantes (e têm um trabalho tão colossal na compilação e tratamento dos dados que várias vezes dei por mim a perder o fio à meada na parte empírica). Mas o trecho que me chamou mais a atenção foi o que documenta a enorme – e crescente – divergência entre a Europa e os EUA na forma como têm evoluído a concorrência e competição dos respectivos mercados.

Isto vê-se no conhecido índice Herfindahl, na quota de mercado das empresas ‘de elite’ e nos indicadores de regulação do mercado de produtos, da OCDE. Se pensavam que a economia americana é o alfa e ómega da destruição criativa, provavelmente têm de se actualizar. Os EUA são cada vez mais um país dominado por grandes empresas, assemelhando-se muito ao retrato robô dos regimes de oligopólio descritos nos manuais de microeconomia.

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Os autores argumentam que a crescente falta de concorrência nos EUA – que também tem sido alvo de investigação por parte do Council of Economics Advisers – é uma boa parte da história por detrás da anemia do Investimento. Como não há concorrência suficiente, as empresas não têm incentivos para investir, e contentam-se em gerir a sua posição de mercado.

O mesmo fenómeno tem assim duas explicações radicalmente diferentes: se no caso dos EUA o problema é estrutural e tem que ver com a competição, no caso europeu há boas razões para acreditar que é cíclico e tenderá a desvanecer-se assim que os estrangulamentos identificados (fricções financeiras, escassa procura, etc., etc.) acabarem por se desvanecer.

Achei isto interessante porque há entre os europeus – nem todos, mas certamente entre boa parte dos seus líderes – algum lamento mal disfarçado pelo facto de o Velho Continente ter instituições decrépitas e regras esclerosadas, incapazes de garantir uma competição vibrante entre empresas e sectores. Esta avaliação miserabilista contrasta com a admiração pelo dinamismo da economia americana, onde os processos de destruição criativa têm muito mais relevo. Os dados de Philippon sugerem que, neste particular, pelo menos, este diagnóstico está fora do prazo desde o início do século. Talvez seja altura de actualizarmos o discurso.

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10 comments on “EUA, terra dos oligopólios?

  1. “Se pensavam que a economia americana é o alfa e ómega da destruição criativa, provavelmente têm de se actualizar.”

    Não necessariamente – p.ex., segundo a teoria do Schumpeter, de que a inovação é sobretudo obra das grandes empresas e/ou dos monopólios, as duas coisas seriam compatíveis: grande dinamismo tecnológico e concentração do mercado em poucas empresas.

    Ou então pondo de outra maneira – imaginemos uma “função produção” com três componentes: trabalho, capital e tecnologia (usando aqui um sentido amplo para tecnologia). Os oligopólios levarão a que as empresas contratem menos trabalho e capital do que contratariam num mercado mais concorrencial (isto é capaz de ser micro-economia do 2º semestre do 1º ano – quanto menor a concorrência, menor a “receita do produto marginal” em comparação com o preço, logo mais baixo o ponto em que se atinge “salário (ou custo do capital) = receita do produto marginal”), logo menos investimento; mas talvez não seja contraditório com “contratarem” mais tecnologia (que é o que normalmente se pensa quando se fala em dinamismo) – é verdade que nas estatísticas, provavelmente a despesa com tecnologia aparece mascarada ou como “trabalho” ou “capital”, o que complica um pouco a coisa, mas penso não afetar a ideia geral.

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    • Parece-me que mesmo se definirmos tecnologia como o resíduo que não é explicado pelo capital ou trabalho a influência da estrutura de mercado devia ser nula, ou não? Por que é que menos concorrência implicaria maior TFP?

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      • Se o custo com tecnologia for um custo fixo (afinal, desenvolver um lápis que se auto-regenera se for posto ao sol provavelmente custa o mesmo quer se vá vender 10 ou 100.000 unidades), quando maior o custo com tencologia maior tenderá a ser a dimensão das empresas e/ou a concentração (sinceramente não estou certo se altos custos fixos conduzem a maior concentração – por precisarem de ter um markup sobre os custos variáveis maior – ou sobretudo a maior dimensão – por as empresas terem que ser grandes para cobrirem esses custos fixos – mas na prática quase não faz diferença).

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  2. Já agora, isso (ainda que seja um assunto diferente) faz-me lembrar as estatísticas que indicam que o trabalho por conta própria é mais comum na Europa que nos EUA, em aparente contradição com o estereotipo do “americano empreendedor”/”lone ranger”/etc. (curiosamente, acho que nalguns livros escritos antes ou pouco depois de eu ter nascido até era frequente apresentar-se os EUA como a terra das grandes organizações e do conformismo, por contraste com a Europa Ocidental, que seria a região onde ainda sobrevivia algum espírito de individualidade – se calhar os estereótipos dos anos 50/70 eram mais verdadeiros que os dos anos 80/10)

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    • Isso é muito interessante. Sabe onde encontro um desses livros? Dava um belo post.

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      • Sobre a parte das empresas em si, não, mas tenho a ideia que o Fukuyama, no “Trust” (que folheie há uns 20 anos numa livraria) diz qualquer coisa nesse sentido, exatamente na tal linha “hoje em diz diz-se que os americanos são muito individualistas, mas há uns anos o que se dizia era que a América era a terra das grandes organizações “.

        Na parte especifica do conformismo, David Riesman, em “The Lonely Crowd” (1950) refere isso, que haveria essa perceção de que os americanos seriam dos povos mais “outer-directed” (em português, “Maria-vai-com-as-outras”) que haviam (note-se que ele até relativiza um pouco essa perceção) – ver páginas 19 e 20: http://nationalhumanitiescenter.org/ows/seminars/tcentury/CharacterSociety.pdf#page=19

        Outro exemplo (este uma obra de ficção, mas em muitos aspetos as obras de fição são boas fontes quando estamos a falar, não da realidade, mas da percepção da realidade) podemos encontrar em “A Ilha” (1962) de Aldous Huxley, numa passagem em que os protagonistas falam do sistema educativo:

        “Por exemplo, a que se destinam na América os rapazes e raparigas?. Resposta – ao consumo em massa. E os corolários do consumo em massa são as comunicações em massa, os anúncios em massa, os estupefacientes em massa, sob a forma de televisão, de meprobamatos, de pensamentos positivos e de tabaco. E agora, também na Europa onde se começa já igualmente a enveredar pelo caminho da produção em massa” (o que dá a entender que a atitude mental do autor do livro era considerar a “sociedade de massa” como algo originalmente americano que se estaria a expandir para a Europa).

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      • Ainda a respeito do alegado conformismo da sociedade norte-americana, temos também as páginas 40-41 e 74-75 de Humane Economy (1960), de Wilhelm Ropke:

        https://mises.org/system/tdf/A%20Humane%20Economy.pdf?file=1&type=document

        Também no tom “o modo de vida americano está a conquistar a Europa”

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      • Entretanto, achei o que pensava ter lido do Fukuyama:

        https://books.google.pt/books?id=j0LC6XZtH84C&pg=PT292

        Ao contrário do que eu julgava me lembrar, ele não diz (pelo menos explicitamente) “há umas décadas dizia-se que a América era a terra das grandes organizações”, é simplesmente a mesma conversa dos que eu já citei (e até literalmente os mesmos, no caso do David Riesman) “há umas décadas dizia-se que a América era a terra do conformismo” (ainda que com uma enfâse especial no mundo empresarial), mas como a tese dele anda toda à volta da suposta maior capacidade dos norte-americanos para criar grandes organizações (e as páginas ao pé desta – na minha visualização do Google Books consegue-se ler a anterior – são exatamente sobre isso), eu mentalmente imaginei-o a escrever que antigamente dizia-se que a América seria a terra das grandes empresas (é o resultado de se ler livros na diagonal em livrarias, ainda mais com 20 anos de distancia).

        Mas, seja como for, em todos esses textos a falar do alegado conformismo norte-americano, parece-me que a associação com as grandes empresas está lá numa implicitude quase explicita (é só avançar ou recuar umas páginas – por exemplo, ir à pagina 21 do Reisman – ou parágrafos que se encontram passagens a falar da substituição do pequeno empresário pelo empregado da grande empresa como tipo social dominante).

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  3. Muito obrigado pelas referências, Miguel. Estão no ‘to read’ do meu feedly :- )

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