Défice externo duplica? Bom, é complicado…

O Banco de Portugal divulgou os números da Balança de Pagamentos (BoP) para Junho. A BOP agrega o conjunto das estatísticas que analisam as relações económicas de Portugal com o exterior (o “resto do mundo”), e servem, por exemplo, para calcular o valor do défice externo ou o ritmo de acumulação de dívida da economia. Alguns dos títulos publicados foram, por exemplo:

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Desemprego a descer. Até onde não se sabe muito bem

O que é que sabemos ao certo acerca da Taxa Natural de Desemprego? Quando Olivier Blanchard escreveu um paper com este título, em 1996, a resposta parecia ser: não muito. Dissertando sobre um tema antigo – com a vantagem de o fazer embalado por duas décadas de investigação – Blanchard notou que os progressos ao nível do raciocínio teórico não tinham sido acompanhados por desenvolvimentos semelhantes no campo empíricos:

While substancial conceptual progress has been made in thinking about the natural rate of unemployment, empirical knowledge lags behind. Economists are a long way from having a good quantitative understanding of the natural rate, either across times or across countries.

Claro que estas limitações não impediram ninguém de fazer estimativas para a taxa natural de desemprego («NAIRU», usando a abreviatura inglesa). Tanto a Comissão Europeia como o FMI produzem NAIRU’s para períodos passados e projecções para o futuro, de modo a ajudar a interpretar a história económica recente e ajudar a guiar a política económica daqui para a frente.

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Um PIB aos pulinhos

A convergência para a média é um conceito simples e poderoso. Permite explicar muitos fenómenos interessantes e que à primeira vista não partilham quase nada em comum – desde a melhoria da situação clínica de pacientes que experimentam terapias alternativas, até ao aparente sucesso das chicotadas psicológicas no futebol. O processo é sempre o mesmo: uma ilusão de óptica causada pela aleatoriedade presente em quase todos os fenómenos da existência humana.

E, contudo, a maior parte das pessoas tem imensa dificuldade em aceitar explicações desta natureza. A ideia de que ‘tudo o que sobe tem de descer’, e que portanto resultados extraordinariamente bons tendem a ser seguidos por resultados menos bons (da mesma forma que os ciclos negativos acabam por chegar ao fim), não é intelectualmente satisfatória. Não sacia aquele desejo muito humano de procurar causas identificáveis a gerar efeitos observáveis. Por essa razão, estamos condenados a viver num corrupio incessante de ‘surpresas’ e ‘desilusões’ que se seguem umas após as outras, identificando surtos de optimismo e ciclos de más notícias onde provavelmente não há nada mais do que simples ruído.

A evolução do PIB no segundo trimestre é, suspeito, um bom exemplo disso mesmo. À primeira vista, parece uma enorme travagem. O PIB cresceu 0,2% em cadeia, depois de três trimestres a crescer entre os 0,7 e 1%. Mas será que o PIB está hoje muito acima – ou muito abaixo – do que se esperava que estivesse? Não. O PIB está mais ou menos onde devia estar segundo as previsões feitas pela Comissão Europeia em meados de 2015: com um valor trimestral (a preços constantes) na casa dos 44,3 mil milhões de euros.

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Nas entranhas do PIB

Nos últimos tempos perdi algumas horas a analisar a recuperação económica de Portugal, que começou em 2013 e acelerou na recta final de 2016. Como não sabia muito bem o que procurar, andei a vaguear aleatoriamente pelos quadros das contas nacionais do INE, à espera de alguma coisa que me chamasse a atenção. Depois de algum tempo, lá encontrei uma.

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Contas para o défice de 2017

O INE publicou as contas do primeiro trimestre, que apontam para um défice de -2,1% do PIB. O que significa isto? Tenho uma coluna no Radar Económico a acrescentar dois cêntimos. Mas, para quem não tem paciência para seguir o link, aqui fica um breve resumo:

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P.S.– Isto parece simples, mas tem dado bons resultados.

Pistas para perceber a Década Perdida portuguesa

Um dos posts perdidos mais ali para baixo, acerca de produtividade e emprego, gerou algumas reacções interessantes. O que me fez pensar que talvez valesse a pena alargar a perspectiva do exercício e explicar por que é aquele tipo de análise – que, em traços largos, corresponde a uma simples ‘contabilidade do crescimento’, desagregando unidades largas em ingredientes mais pequenos – pode lançar luz sobre uma das grandes dores de cabeça da economia nacional: afinal por que é que Portugal cresce tão pouco desde o início do século XXI?

Podemos começar pela própria questão. Isto provavelmente vai parecer pateta, mas como por vezes vale a pena inspeccionar a pergunta antes de saltar para a resposta, aqui vai: por que é que achamos que Portugal passou por uma Década Perdida de 2000 em diante?

Claro que eu sei a resposta. Portugal teve um óptimo crescimento durante a década de 90, e é um país menos desenvolvido do que a média europeia. O embalo dos anos 90 gerou determinadas expectativas, e o atraso relativo é em si mesmo uma poderosa força de convergência. O que, tudo somado, nos levaria a esperar um crescimento sólido daí em diante.

Ao contrário do que se esperava, o crescimento parou abruptamente em 2001. A travagem foi tão abrupta e acentuada que é óbvio, aos olhos de qualquer pessoa, que algo de muito estranho se passou no virar do século.

Mas até que ponto é que é que os valores da década anterior constituem um benchmark aceitável para os anos seguintes? Considerem isto: na década de 90, a população portuguesa cresceu a uma média de 0,5% ao ano, ao passo que no século seguinte a dinâmica demográfica caminhou paulatinamente para zero, primeiro, e para valores negativos, mais tarde. Será que uma diferença tão grande ao nível da evolução demográfica não devia ser levada em conta quando comparamos taxas de crescimento?

E até que ponto é que o abrandamento do crescimento no resto das economias desenvolvidas não devia também ser um factor a ponderar quando avaliamos a Década Perdida? Afinal de contas, não foi só Portugal que perdeu gás no virar do século, e se esse abrandamento foi transversal à maioria dos países, então devíamos levar em conta essa informação quando analisamos o nosso passado.

Na verdade, podemos fazer melhor. Podemos analisar de forma minuciosa todas as fontes de crescimento do PIB, dividindo-o nos seus vários constituintes – produtividade, emprego, população activa, etc., etc – e identificando de forma com precisão onde residem os problemas.

O meu problema com muitas das teorias que tentam explicar a Década Perdida é que se concentram numa visão panorâmica da economia, olhando para o crescimento do PIB e desconsiderando toda a informação que podia ser obtida através da mineração dos dados brutos. Por exemplo, uma das hipóteses muito em voga aqui há uns anos era a da redução da eficiência da economia, em virtude da expansão do sector público. Isso pode fazer sentido olhando para os dados gerais, mas se estamos a falar de eficiência não deveríamos testar esta teoria contra os números da produtividade? Imensas teorias poderiam ser facilmente descartadas através de um simples exercício de contabilidade do crescimento.

Esse post tentou fazer um ensaio dessa abordagem. Ao desagregarmos os dados do crescimento económico estamos a alargar imenso o espectro de informação contra a qual podemos testar diferentes explicações. Será que o abrandamento do crescimento decorre de menor crescimento da produtividade, e pode ser imputado a distorções microeconómicas? Ou será que resulta de menor criação de emprego, remetendo para questões de nível mais macro? Qual o impacto das dinâmicas demográficas? Todos conseguimos pensar em dezenas de explicações diferentes, e é óbvio que muitas delas podem ser testadas com maior precisão contra os dados da produtividade ou do emprego – que ‘isolam’ melhor alguns dos efeitos presumidos – do que contra os dados do PIB.

Os posts seguintes tentam usar o mesmo princípio para elaborar uma análise mais abrangente. O resultado final é uma espécie de micro-contributo para desfiar a Década Perdida portuguesa (ou a Grande Estagnação – uso os dois termos com o mesmo sentido), explicando-a como o produto infeliz de quatro choques, largamente independentes uns dos outros, que – provavelmente por mero acaso – se sobrepuseram num único período de tempo. Podem seguir o raciocínio ao longo da série ou, se tiverem pressa, passar directamente para os últimos três.

  1. As duas faces da Década Perdida
  2. Produtividade: a travagem brusca… de 1993
  3. Um problema de empregos. A demografia é uma (pequena) parte da história
  4. Um problema de empregos: oferta ou procura?
  5. Um problema de empregos: pontas soltas da hipótese cíclica
  6. Juntando as peças do puzzle
  7. Sim, mas
  8. Quatro choques na prática: contas e exemplos