O que significa “financiamento monetário dos défices”?

De há umas semanas para cá que tenho perdido algum tempo a espreitar o programa de compra de activos do BCE, sobretudo na parte que diz respeito ao sector público. E nas análises que fui lendo há um termo que aparece recorrentemente: “financiamento monetário dos défices”. O que me fez pensar um bocado acerca do que é que é suposto estar encapsulado neste conceito, porque me parece menos óbvio do que se julga.

A Wikipédia define o financiamento monetário dos défices como:

Debt monetization is the financing of government operations by the central bank (…) The central bank may purchase government bonds by conducting an open market purchase, i.e. by increasing the monetary base through the money creation process. If government bonds that have come due are held by the central bank, the central bank will return any funds paid to it back to the treasury. Thus, the treasury may “borrow” money without needing to repay it.

O meu problema com esta definição é: se consideramos que isto é “financiamento monetário dos défices”, então será que o “financiamento monetário dos défices” não é a coisa mais corriqueira e habitual da actividade de um banco central, uma actividade que acontece em todos os países, em todas as décadas e ao longo de todos os ciclos económicos? E será que isso não a torna, enfim, banal e trivial, sem grande relevância ou importância prática?

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Humilde previsão do défice de 2016

O INE acabou de publicar o valor do défice orçamental do terceiro trimestre em contabilidade nacional. Em termos acumulados, o défice fica nos 2,5% do PIB. O que é que isto nos diz?

À primeira vista, o défice parece estar no caminho certo – a meta para o conjunto do ano é de 2,4% do PIB, e o ‘limite’ da Comissão Europeia são os 2,5%. Mas as coisas não são tão lineares assim, porque o perfil de execução orçamental não é igual em todos os trimestres, e os últimos três meses podem deitar este resultado por terra. Ou, quem sabe, melhorá-lo substancialmente.

Uma maneira de levar tudo isto em conta é usar os padrões de execução dos anos anteriores para ‘prever’ o défice do quarto trimestre. Depois é só juntar aos dados já conhecidos dos primeiros três trimestres, misturar, agitar bem e voilá, ora aí temos o défice de 2016. Da última vez que fiz esse exercício, com os dados de Junho, o resultado foi este.

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Portanto, o défice tanto podia ficar nos 1,9% como nos 2,9%, dependendo do tipo de padrão de execução que se achasse mais apropriado para estimar os valores de 2016. Em média, porém, a coisa parecia alinhada com os objectivos: 2,6% do PIB.

Agora podemos fazer o mesmo exercício com os dados do terceiro trimestre. Se tudo correr bem, não só a previsão será mais acertada como a gama de resultados possíveis também será mais estreita.

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A previsão central continua a ser de um défice de 2,6% do PIB – embora, como esperado, a margem de erro tenha diminuído. No pior dos cenários o défice fica nos 3%; na melhor das hipóteses fica nos 2,2%.

Já agora, e para introduzir algum judgement num processo que nunca deve ser puramente mecânico, eu diria que o padrão de execução de 2016 será, em princípio, mais parecido com os padrões de 2013-2015 do que com os dos anos anteriores. Se fizermos a média das projecções elaboradas com base nesses anos, o resultado final é um défice de 2,4% do PIB. Parece-me que este é o melhor best guess neste momento.

Claro que estes valores não levam em conta o resultado do programa de regularização de dívidas fiscais (PERES), que supostamente arrecadou 400M€. Estes valores representam mais 0,2% do PIB, e têm de ser abatidos à estimativa anterior. Tudo somado, é bem possível que Portugal feche o ano com um défice na casa dos 2,2% do PIB (ou 2,4%, se quisermos ser conservadores e usarmos como padrão de projecção a média de 2008-2015, e não apenas a dos últimos três anos).

De resto, um Feliz Natal a todos.

Inflação a subir. Ou a descer?

A inflação está a subir na Zona Euro. O Eurostat divulgou dados esta semana e ficámos a saber que entre Setembro e Outubro a inflação relevante (HIPC) acelerou de 0,4 para 0,5%.

Poucas pessoas embandeiraram em arco, porque 0,5% ainda está longe, muito longe, da meta dos 2%. Mas, no geral, o tom foi de consolação: estamos longe, mas estamos a aproximar-nos. E o que conta é a tendência. O i, por exemplo, escreve que:

Os números revelados ontem são (sic) proporcionando um pequeno conforto para o Banco Central Europeu (BCE), que tem uma preocupação permanente com a inflação muito baixa no bloco dos países que partilham a moeda única.

Mas seria muito sinal se o BCE se sentisse reconfortado com estes números. Isso significaria que está mais preocupado com a avaliação que os observadores desatentos fazem do seu trabalho do que com o cumprimento escrupuloso e efectivo do seu mandato.

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Quatro anos de blogue

Não, não é este blogue. É o Confessions of a Supply Side Liberal, um dos melhores blogues sobre macroeconomia que por aí andam – e que todos deviam mesmo, mesmo, mesmo ler. Sobretudo se tiverem alguma fixação mórbida por política monetária e não se importarem de desviar alguns minutos do vosso tempo de vida a pensar sobre coisas tão fecundas como taxas de juro negativas ou as implicações da Regra de Taylor.

Mas hoje é diferente. No quarto aniversário do blogue, o autor escreveu um meta-post  acerca do ofício.

Sometimes blogging has been hard work. I have enmeshed myself in a motivational web that makes it easy to do that hard work despite the sacrifice that sometimes represents.  But blogging is also a lot of fun, and definitely rewarding on many levels. I even feel blogging has made me smarter than I otherwise would have been, because of all of the extra thinking it has led me to do. If you have had a fraction as much fun reading my blog as I have had writing it, I have been successful.

Por que razão estou a citar o post? Em primeiro lugar, porque li, gostei e revi-me no texto. De facto, esta tem sido a minha experiência com a blogosfera: alimentar o blogue pode ser muito trabalhoso, mas no final é, por norma, recompensador. Uma coisa engraçada: o simples facto de ter de escrever sobre um assunto obriga-me a tornar mais claro para mim próprio aquilo que estou a tentar comunicar ao leitor. E não raras vezes concluo que: a) o que tenho para dizer não é especialmente relevante; b) nem sequer consigo explicar muito bem aquilo que quero dizer. E nos casos b) isso normalmente significa pus o carro à frente dos bois e comecei a escrever sobre um tema que domino muito pior do que aquilo que julgava.

E esta é a regra mais importante da blogosfera: divirtam-se com a coisa. A sério, ninguém vos vai pagar por isto; e se estão à esperar de gerar cliques pagos a escrever sobre economia, esqueçam. Se a motivação for pecuniária, é mais provável acumularem frustração do que dinheiro*.

Em segundo lugar, porque notei – e isto foi mesmo uma coincidência – que este blogue também fez quatro anos por estes dias. Não sou muito de escrever sobre efemérides (muito menos sobre uma deste género), mas linkar um post de que gostei – e fazer a referência en passant – já é outra história. Fica feita a referência.

De resto, espero que continuem todos a passar por aqui. Por muito que as caixas de comentários se cinjam a um diálogo entre mim e o Miguel Madeira, o WordPress jura a pés juntos que o blogue tem mais do que um leitor.

* Qualificação importante: sei bem que há bloggers a viver disto, mas acreditem que não escrevem sobre o PIB ou taxas de juro.

 

Quatro anos de austeridade (mais um de virar a página) segundo o Euromod

Eu sei que a questão das consequências redistributivas do Orçamento do Estado para 2016 é chão que já deu uvas. O Orçamento foi discutido, votado e promulgado. De certeza que há coisas mais interessantes para discutir neste momento.

Por outro lado, de acordo o wordpress este continua a ser, dois meses depois da sua publicação, o post mais acedido do blogue. E como tenho andado a explorar uma base de dados especialmente vocacionada para esta questão, pensei que podia ser boa ideia partilhar alguns dos insights que ele fornece. Afinal de contas, é improvável que alguém se deixe convencer seja do que for por causa de contas feitas num blogue. Talvez alguns dos cépticos mudem de opinião se a conclusão vier de uma fonte, digamos assim, mais profissional.

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Descida do desemprego: inversão de ciclo?

Muita gente não se apercebeu, mas a taxa de desemprego não cai há praticamente oito meses. Em Fevereiro subiu mais umas décimas, para os 12,3%, e afastou-se ainda mais da tendência de descida que prevalece no conjunto da Zona Euro (ver Dinheiro Vivo e Lusa). Se pusermos estes números ao lado da revisão em baixa das previsões económicas e dos receios em torno da economia global, não é difícil perceber por que é que já há quem veja as coisas a ficar muito pretas no horizonte.

Até que ponto é que isto é verdade? Não é fácil perceber isso imediatamente, porque há uma boa dose de ruído nos dados do desemprego (sobretudo os que são reportados numa base mensal). Mas uma regra que segui ao longo dos últimos anos, e que se revelou uma óptima muleta para despistar esses erros, foi abordar a questão com a ‘lei de Okun’ como pano de fundo. É uma heurística simples: começamos por perguntar se o PIB está a crescer. Se está, provavelmente o emprego também está – e se os números apontam noutra direcção, então vale a pena investir algum tempo à procura de uma eventual perturbação de leitura.

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A regressividade do Orçamento (III) – contas alternativas

Continuando a série:

Uma das críticas feitas à ideia de que o OE 2016 é regressivo é que é possível encontrar outros números que chegam a conclusões opostas. Este parece ser o caso das simulações feitas pela PwC para o Jornal de Negócios, e destacadas por Ricardo Paes Mamede para dizer que “em geral, o impacto das medidas adoptadas pelo governo beneficia mais os rendimentos inferiores”.

Mas estaremos a dizer coisas assim tão afastadas? Não necessariamente. Na verdade, parece-me que estamos simplesmente a olhar para números diferentes.

Comecemos pelas simulações da PwC. Nesta compilação, o OE parece altamente progressivo. Quem está no fundo da tabela tem um ganho salarial de 25% (!). Segue-se uma melhoria menor, mas ainda expressiva, na casa dos 4,8%. A partir daí, as coisas vão oscilando entre os 0,5 e os 2,9%, sem uma tendência clara e definida.

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