Robôs, produtividade e pontas soltas

Num post anterior acerca dos robôs-que-nos-roubam-empregos notei os sinais contraditórios que recebemos de fontes diferentes. Por um lado, os media (e a experiência pessoal, convenhamos) sugerem que vivemos numa época de inovação tecnológica extraordinária. Por outro lado, as estatísticas agregadas mostram que a produtividade está pelas ruas da amargura.

Será que uma impressão está correcta e a outra está errada? Ou há alguma coisa a escapar-nos, e a contradição é mais aparente do que real? Eu diria que há pelo menos três explicações possíveis.

A explicação mais trivial é que há um delay considerável entre o momento em que as inovações são descobertas e o momento em que são incorporadas nos processos produtivos. Há inúmeros exemplos retirados da Revolução Industrial, mas o meu favorito é a afirmação de Robert Solow, de que “podemos encontrar computadores em todo o lado, excepto nas estatísticas da produtividade”. Poucos anos após pôr meio mundo a discutir o verdadeiro impacto das tecnologias de informação (1987), o alerta revelou-se extemporâneo. A produtividade disparou nos anos 90 e os estudos subsequentes mostraram que isto se devia em parte… às tecnologias de informação.

Se o passado serve para iluminar o futuro, então talvez os robôs sejam mesmo para levar a sério. Talvez seja só uma questão de tempo até que os protótipos passem das capas da Wired, onde fazem manchetes mas (ainda) não produzem, para os lares das famílias e linhas de montagem das empresas. Se for este o caso, então talvez o desemprego tecnológico – transitório, mas real – seja uma possibilidade séria nos próximos 10 ou 20 anos.

Uma segunda explicação é que podemos estar apenas a medir mal o crescimento do PIB – e, consequentemente, temos uma ideia incorrecta da produtividade.

Calma, não é uma teoria da conspiração. Na verdade, a hipótese da ‘má medição’ é pouco controversa. Apesar de a maior parte dos economistas não perder o sono com isto (nunca deixem que maus dados estraguem um bom modelo), a verdade é que quem produz os dados do PIB sabe bem como eles são limitados – sobretudo se o valor ainda for dividido pelo número-de-horas-efectivamente-trabalhadas-na-economia, como terá de ser caso o objectivo seja medir a produtividade por hora. Citando David Romer, “In the good old days, productivity data were like most other standard economic time series: they were quite useful as long as you did not make the mistake of thinking hard about where they came from”.

O problema é que o enquadramento conceptual para medir o PIB funciona bem com produtos físicos estandardizados, mas levanta questões complicadas sempre que a produção se afasta desse ideal estilizado. É fácil perceber quantas toneladas de aço uma economia produz. E mesmo quando os bens não são homogéneos, ou têm uma qualidade variável (computadores) há maneiras de converter alterações de qualidade em variações de quantidade. Mas à medida que passamos da indústria para os serviços, e dos serviços para a economia digital, torna-se cada vez mais difícil definir exactamente o que é que está a ser produzido na economia.

E sempre que os economistas e estaticistas se dedicaram a estudar a fundo o problema, mergulhando nos processos de compilação de dados, encontraram sistematicamente enviesamentos substanciais. Nos anos 90, uma comissão americana descobriu que o índice de preços do consumidor tendia a sobreestimar a inflação real ‘apenas’ em mais 1,1 ponto percentual, mas os estudos mais recentes, que se debruçam sobre questões mais ‘finas’ (economia digital, deflatores de material informático, etc.)  tendem a detectar diferenças muito maiores entre o crescimento ‘medido’ e o crescimento ‘real’.

Por que é que não se alteram as regras de contabilidade? Em parte porque é mais fácil dizer o que está errado do que consensualizar um procedimento alternativo ‘certo’. Há muita discussão acerca da questão (ver o Relatório Charles Bean e os contributos de Paul Schreyer e Summers), mas as técnicas deficientes actualmente empregues parecem gerar menos controvérsia do que as dezenas de alternativas que vão sendo avançadas.

Mas calma, não fiquem demasiado entusiasmados. Byrne, Fernald e Reinsdorf passaram muito tempo a analisar os argumentos e concluíram que a hipótese da má medição está longe de explicar a travagem abrupta da produtividade. Entre outras coisas interessantes, estes economistas concluíram que: a) não há grande correlação entre abrandamento de produtividade e percentagem de sectores ‘difíceis de medir’ numa pool de países; b) o abrandamento dá-se em quase todos os sectores, e não apenas nos sectores ‘complicados’; c) o peso relativo destes últimos é relativamente modesto no conjunto do PIB, pelo que mesmo grandes erros de medição têm necessariamente implicações moderadas.

Ou seja… Sim, estamos mesmo a medir mal a produtividade. Mas o problema não é pior hoje do que era há 10 ou 20 anos. Há mesmo qualquer coisa concreta a passar-se na economia, que não joga certo com a ideia de um crescimento acelerado da inovação. A travagem da produtividade é real – mesmo o seu nível seja uma ficção.

Finalmente, resta uma terceira hipótese: talvez a inovação do século XXI se destine menos a criar coisas novas, e assim a aumentar o PIB e a produtividade, e mais a desviar a atenção dos consumidores entre os vários bens e serviços que já existem.

Vemos um pouquinho disto no crescimento de trabalhos como analista de dados, profissionais do marketing digital ou profissionais do storytelling. Estes trabalhadores não estão a criar coisas novas. Estão a lutar desenfreadamente com outros trabalhadores para capturarem a atenção dos consumidores para produtos que já existem. Quantos recursos é que a Adidas dedica a melhorar efectivamente o seu calçado desportivo? Não sei, mas estou disposto a apostar que é uma quantidade infinitamente menor do que aquela que despende a promovê-las e a publicitá-las.

É possível que a nova economia digital, as inovações recentes e os trabalhos feitos por robôs se traduzam fomentem mais a canibalização da concorrência do que a produção de novos bens e serviços. Ou talvez não – não faço a mais pequena ideia.  Mas não podemos discutir o futuro do emprego numa sociedade com robôs ignorando que os números oficiais mostram exactamente o contrário daquilo que seria de esperar se os receios fossem razoáveis. As coisas têm de bater certo.

Anúncios

2 comments on “Robôs, produtividade e pontas soltas

  1. Uma coisa que me ocorre (e que no fundo tem a ver com o segundo ponto) é que as inovações de produto se calhar são quase impossíveis de contabilizar objetivamente na produtividade (penso aliás que já fiz em tempos um comentário aqui sobre isso) – passar-se a produzir um carro com metade do trabalho é uma duplicação de produtividade visível; já passar-se a produzir um carro duas vezes melhor com o mesmo trabalho não é assim tão fácil de medir (avaliar e sobretudo quantificar a melhoria do produto não me parece muito fácil).

    Mas, por outro lado, também não me parece que inovações de produto causem desemprego (a menos que sejam inovações de produto que vão causar inovações de processo algures – estilo um carro sem condutor ser usado por uma empresa de táxis), logo não será por aí que a tecnologia vai acabar com os empregos.

    Gostar

    • Por acaso essa parece-me uma das situações que levanta menos dúvidas. Podemos pegar em 5 ou 6 constituintes do carro (velocidade, potência do motor, espaço, marcas dos principais constituintes), fazer uma regressão e aplicar o modelo para avaliar a qualidade do carro. E assim olhamos não apenas para o nº de carros produzidos mas para a ‘quantidade’ (nº x qualidade) produzida. Aliás, penso que os primeiros índices de preços montados desta maneira (‘hedónicos’) começaram por ser aplicados precisamente aos carros, nos EUA.

      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s