Como não analisar os números do PIB

Todos os trimestres o INE divulga um destaque simpático com o comportamento do PIB nos três meses anteriores. E todos os trimestres ouvimos analistas a explicar este comportamento com base na evolução das suas componentes: o PIB cresceu ‘à boleia do Consumo Privado’, ‘acelerou por causa do Investimento’ ou ‘caiu por causa de um contributo negativo das exportações’.

Não há nada de errado nisto. O problema é quando se confunde contabilidade com causalidade, atribuindo o crescimento do PIB ao contributo contabilístico de cada variável.

Infelizmente, não é assim tão simples. Na verdade, é perfeitamente possível que o PIB cresça muito, que todo esse crescimento seja imputado a uma única variável e, ainda assim, que essa variável não tenha nada a ver com o assunto.

Confusos? Calma, esta questão é complicada, por isso talvez valha a pena começar por um exemplo e depois voltar atrás para discutir o problema. Imagine o leitor que há uma dada economia, Economa, com um PIB de 100, dividido entre Consumo Privado, Consumo Público e Investimento. Para simplificar, vamos ignorar as exportações e importações:

PIB (100)= Consumo Privado(70) + Consumo Público(20) + Investimento(10)

O que vemos aqui é uma identidade contabilística. O PIB é o somatório dos bens e serviços produzidos numa economia. Estes bens ou serviços podem ser bens privados (carros, maçãs), serviços públicos (hospitais, escolas) ou equipamentos de investimento (fábricas). A equação não nos diz muito mais que isto – limita-se a elencar as subcategorias em que se divide o PIB.

Imagine-se agora que o Governo propõe um plano de gastos em Consumo Público, no valor 2 unidades (ou 2€, se preferirem, e não se importarem de imaginar uma economia de 100€). Qual será o efeito deste plano? Bom, isso agora depende dos cenários.

No cenário A,

a economia está com um enorme potencial desaproveitado (isto é, desemprego). Neste caso, o Governo pode contratar funcionários públicos até perfazer o valor que definiu como objectivo (2 unidades). Isto faz o PIB aumentar de 100 para 102, obviamente por causa do consumo público.

Mas a história não termina aqui. Os trabalhadores que antes estavam desempregados vão gastar parte das 2 unidades que ganharam. Esse rendimento, por sua vez, vai entrar no circuito de rendimento. Se os funcionários públicos gastarem 70% das 2 unidades em bens de consumo privado, então o Consumo Privado aumenta em 2*0,7 = 1,4 unidades. Para satisfazer esta procura adicional, o sector privado terá de contratar pessoas suficientes para produzir estes novos bens, avaliados em 1,4 unidades.

Os novos empregados, por sua vez, vão gastar 70% das novas 1,4 unidades, gerando mais 0.98 (0,7 * 1,4) unidades adicionais de procura, que estimulam um novo aumento da produção e do emprego remunerado. O emprego remunerado, por sua vez… Enfim, estão a ver como é que a coisa se processa.

Onde é que isto pára? O processo termina no momento em que a economia estiver em pleno emprego, e o sector privado já não conseguir corresponder à procura adicional com mais bens e serviços. Nessa altura, a procura apenas afecta a inflação. Mas, se a capacidade disponível for suficientemente grande (e se não me tiver enganado nas contas), então o estímulo inicial de 2 unidades de Consumo Público gera um montante adicional de 4,7 Consumo Privado.

No cenário B, por outro lado,

a economia está em pleno emprego. Todas as pessoas disponíveis para trabalhar estão já empregadas.

Neste caso, como pode o Consumo Público aumentar? No cenário A, o Governo foi ao centro de emprego, anunciou que tinha 2 unidades de rendimento e usou-as para contratar funcionários públicos (é isso que significa aumentar o Consumo Público). Mas neste caso isso não é possível: não há pessoas no centro de emprego!

Só há uma solução. O Governo tem de ir recrutar essas pessoas a outras indústrias. Nesse processo, o Consumo Público aumenta… mas as indústrias que perderam esses trabalhadores mingam. Se estamos em pleno emprego, para que o Consumo Público possa aumentar ou o Consumo Privado ou o Investimento têm forçosamente de diminuir. E se isto vos parece familiar, provavelmente é porque é: estou apenas a descrever um processo de crowding out puro.

Agora é a parte engraçada. Imagine que um observador desinteressado olhava para as contas do Cenário A. Esse observador não sabe nada da estrutura interna da economia – não sabe, por exemplo, que havia desemprego intenso, nem que as pessoas gastam 70% do seu rendimento. Esse observador só sabe o que o Governo e o INE lá do sítio lhe dizem.

E o que o INE lhe diz é que o PIB aumentou em 6,7%, fruto de 2 unidades adicionais de Consumo Público, e de 4,7 unidades adicionais de Consumo Privado.

Se este observador tivesse de ‘avaliar’ a política do Governo, provavelmente diria que saiu furada. O Governo queria crescer pelo Consumo Público, mas o que cresceu mais foi o Consumo Privado.  Essa é a informação que o INE lhe transmite. Mas nós, que vimos como as coisas se passaram nos ‘bastidores’ da economia, sabemos que essa avaliação está errada. Pelo contrário, foi a acção do Governo, que aumentou o Consumo Público, que permitiu aumentar o Consumo Privado.

Imagine-se agora que o mesmo observador avalia a mesma política do Governo olhando para o Cenário B. Neste caso, ele constaria que o PIB estagnou; mas constataria também que o Consumo Privado caiu 2 unidades, ao mesmo tempo que  o Consumo Público aumentou 2 unidades. Vendo as coisas deste prisma, a política de aumentar o Consumo Público parece ter sido boa ideia. Não, o PIB não cresceu – mas apenas porque o Consumo Privado caiu nesse trimestre; isto é, o plano de estímulo pelo menos permitiu evitar a recessão.

Claro que ‘nós’ sabemos que não foi isso que se passou. Pelo contrário, Consumo Público não evitou recessão nenhuma. Ele expulsou o Consumo Privado. Como a economia estava em pleno emprego, o plano de estímulo limitou-se a desviar recursos de um lado para o outro. Só aumentou o défice – porque o PIB ficou na mesma.

E aqui está um paradoxo. No primeiro caso, em que o plano foi sem dúvida um sucesso, a leitura dos números da Contabilidade Nacional sugerem que ele foi um tiro no pé, estimulando uma economia que por si já cresceria à boleia do Consumo Privado; e no segundo, em que o plano foi uma má ideia, a leitura dos mesmos números sugere que ele permitiu evitar uma recessão. A Contabilidade Nacional está a contar-nos a história toda ao contrário!

Qual é o problema aqui? Um dos mais antigos em macroeconomia: confundir identidades contabilísticas com equações comportamentais. É fácil confundir as duas coisas (acontece-me várias vezes), mas convém fazer um esforço consciente para despistar o vício de raciocínio e olhar para lá dos números da Contabilidade Nacional, perguntando o que é que estará, nos bastidores, a gerar aquele resultado final.

Coisas como: o PIB cresceu por causa do Consumo Público, ou apesar do Consumo Público? O facto de o Consumo Privado ter crescido mais do que o Consumo Público mostra que este é desprezável? Ou o comportamento do primeiro reagiu ao segundo? Em que medida é que um crescimento da Procura Interna se traduziu em produção interna, e não num aumento das importações?

Nenhuma destas coisas aparecem nos boletins do INE. Mas se olharmos para os boletins sem estas questões como pano de fundo vamos chegar a conclusões erradas. Vamos limitar-nos a dizer que X caiu e Y cresceu, presumindo erradamente que estas variações são a causa do comportamento do PIB.

E não, as conclusões a que chegámos da análise dos cenários A e B não resultam do facto de serem cenários obviamente extremos. Claro que a radicalização das condições de cada um me ajuda a clarificar o ponto que queria ilustrar, mas se introduzirmos complexidade noutras direcções – por exemplo, incluindo um sector externo – algumas das conclusões mais aberrantes seriam reforçadas, e não atenuadas. Um bom exemplo disso está no Misterioso contributo da procura externa líquida.

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