Ir além do PIB

Uma das críticas mais comuns à economia convencional – e que se torna ainda mais recorrente em grupos de sociólogos ou cientistas políticos – é a importância que os economistas atribuem ao conceito de Produto Interno Bruto.

Os FMI’s e Bancos Mundiais desta vida passam uma boa parte do seu tempo a dar lições aos países em crise sobre como pôr o Produto a crescer mais. A Comissão Europeia usa os números do PIB para fixar metas – e, assim, influenciar indirectamente a política orçamental  dos estados-membro. Quanto estudam a pobreza ou as diferenças de qualidade de vida entre países, os economistas da academia recorrem invariavelmente ao PIB ou aos seus primos mais próximos, o RNB e o RDB.

Seja qual for o tema em questão, o PIB está quase sempre lá. E aparece sempre, de forma mais ou menos implícita, como uma métrica de sucesso.

Há uma série de argumentos contra esta utilização exaustiva. Uma primeira ‘corrente’ tenta mostrar que o PIB é uma medida limitada da própria actividade económica, definida como ‘a quantidade de bens e serviços produzidos por uma economia’. Os exemplos mais óbvios são as acusações de que o PIB confunde ter mais coisas com ter melhores coisas; que não leva em conta a economia ‘subterrânea’ e ‘ilegal’; ou que só contabiliza o que é transaccionável em mercado, deixando de fora bens públicos produzidos pelo Estado ou cedidos ‘de borla’ por organizações de cariz social.

Apesar de o PIB não medir de facto com exactidão aquilo que pretende medir, estas críticas, em concreto, resultam apenas de um entendimento limitado da forma como o Produto é medido. No geral, todos estes problemas estão bem identificados há umas décadas valentes, e podem ser contornados por procedimentos comuns à maioria dos organismos estatísticos1.

Mas há outra linha argumentativa, que critica menos a capacidade técnica dos gabinetes de estatística de encapsular toda a actividade económica do país num único número, e que se foca mais na relevância desproporcionada atribuída pelos economistas (e políticos, já agora) a um conceito que mede apenas uma dimensão reduzida da nossa vida colectiva.

Afinal de contas, o PIB quantifica a riqueza produzida. E apesar de a maioria das pessoas concordar que ser rico é melhor do que ser pobre – mesmo que apenas por razões financeiras, como dizia Woody Allen -, também é igualmente consensual que a riqueza não é tudo na vida. Por que deveria o PIB ser um objectivo comum mais importante do que o ambiente, a segurança, as relações interpessoais, a igualdade ou a Cultura? Razão tinha o Butão, que em 1972 substituiu o PIB pelo GNH (Gross national hapiness) como objectivo de política.

De forma abstracta, claro que a riqueza não é tudo. Mas criticar o PIB por não servir para tudo parece tão apropriado como criticar um carro por não voar ou computador por não tirar cafés. A esperança média de vida também é um indicador sobejamente utilizado, e a maior parte das pessoas parece ser capaz de lhe atribuir importância pelo que revela, sem lhe exigir que responda por tudo aquilo que, enfim, não pode mesmo responder.

Ou seja, da ideia banal de que ‘a riqueza não é tudo’ não se extrai que o PIB seja um conceito inútil. Da mesma forma, já agora, que não se conclui que a taxa de pobreza seja irrelevante. Se o PIB assume uma importância desmesurada em termos de destaque mediático, isso devia inspirar mais uma crítica aos decisores de política, que fixam a agenda e determinam prioridades, do que aos gabinetes de estatística, que fazem o que podem para quantificar a macroeconomia.

Penso que tudo isto é pacífico, pelo menos se for posto nestes termos. A parte mais disputável é a que vem seguir. Eu argumentaria que muitas das vezes – na verdade, na maioria das vezes – o Produto Interno Bruto é um melhor indicador da qualidade de vida e satisfação global da população do que todos os outros indicadores mais ‘moles’ a que os críticos do PIB gostariam de atribuir mais atenção. E argumentaria ainda que os críticos seriam os primeiros a querer ‘voltar’ ao PIB se vivessem num país que desse mais atenção a este tipo de coisas do que ao good old GDP.

Permitam-me um exemplo concreto. Apesar de todo o sururu em torno da hegemonia do PIB, não vivemos propriamente às escuras no que diz respeito a indicadores de ‘qualidade de vida’. Na verdade, o INE compila desde há uns anos um Índice de Bem-Estar, que agrega duas sub-componentes: um indicador de ‘condições materiais de vida’, que segue o PIB de muito perto, e um indicador de ‘qualidade’ de vida, onde aparecem coisas como a segurança pessoal, o ambiente, os níveis educativos, opiniões subjectivas sobre bem-estar, acesso à cultura e por aí fora.

Imaginem agora que têm de avaliar a situação do país ao longo dos últimos dez ou onze anos. O que diriam? A minha suspeita é que os críticos do PIB diriam que foi uma década complicada, sobretudo de 2008 em diante. E suspeito até que alguns poriam em causa a recuperação iniciada em 2014, precisamente com o argumento de que o PIB diz pouco acerca das condições subjectivas de cada um, numa versão mais polida da ideia de que “pessoas não são números”.

Mas, se fossem perguntar ao INE, a resposta, divulgada hoje, seria a seguinte:

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Segundo o indicador ‘bruto’ das condições materiais de vida, a situação do país esteve praticamente estagnada de 2004 a 2008, tendo piorado de forma acentuada daí em diante. Mas segundo a componente da ‘qualidade de vida’, parece que as coisas até têm melhorado bastante. Tudo somado, o nosso ‘bem estar’ melhorou mais entre 2008 e 2015 do que entre 2004 e 2008. Quem diria?

Ok, claro que todos sabemos que isto não é  uma descrição apropriada do que aconteceu no país. É óbvio que a linha azul corresponde de forma mais fiel àquilo que são as condições de vida dos portugueses e à percepção subjectiva que os mesmos fazem da sua vida ao longo dos últimos anos.

E isto levanta uma questão. Porquê? Por que é que apesar de todos dizermos que o dinheiro não é tudo, o dinheiro parecer de facto tão mais importante do que o resto?

Uma possibilidade é o indicador ser limitado enquanto medida da ‘qualidade de vida’. Mas se forem à nota metodológica do INE vão perceber que o indicador é bastante abrangente, e engloba coisas tão variadas como a ida ao teatro, a saúde, a auto-avaliação de bem-estar e os índices de literacia. Claro que é sempre possível pedir mais e mais complexidade, mas se isto não chega para superar o PIB, então se calhar é melhor desistir já, porque deve ser uma tarefa impossível2 .

Outra possibilidade, a minha favorita, é que o dinheiro não traz felicidade… mas ajuda. Isto é: sendo o PIB uma medida da actividade económica do país, ele já captura de forma implícita quase tudo aquilo que valorizamos: saúde, educação, cultura, lazer, etc. Os indicadores directos de saúde, educação, cultura e lazer tornam-se assim supérfluos, quando confirmam o que o PIB já nos diz, ou erróneos, quando fornecem informação acerca de bens ou serviços que deixaram de aparecer no PIB porque… já não são valorizados pelos consumidores.

Sim, há coisas que, por construção, ficam necessariamente de fora do PIB – qualidade do ambiente e segurança, por exemplo. Mas no primeiro caso é provável que a diferença entre ter mais ou menos ‘bom ambiente’ seja bastante menor do que a diferença entre ter mais ou menos riqueza (preferem ter emprego ou respirar ar puro); e, no segundo caso, duvido que grandes oscilações nos índices de segurança não se reflictam na actividade económica, estando portanto as duas variáveis correlacionadas.

Portanto, façam favor de ir além do PIB. Mas tenham consciência do que provavelmente vão encontrar quando o ultrapassarem.

Um bom texto sobre as entranhas do PIB é este, escrito pelo antigo director de Contas Nacionais do INE. Pessoas com mais tempo e interesse podem consultar a bíblia da OCDE.
Bom, na verdade há um indicador que parece duvidoso: o que mede a ‘participação cívica e governação’, e que dispara de 2012 em diante. É provável que esta subida esteja apenas a capturar os intensos protestos que se verificaram desde então.
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5 comments on “Ir além do PIB

  1. Ao ler este post (mais exatamente, ao ler uma pequena passagem do post), lembrei-me de uma coisa: uma colega minha que esteve a fazer o Erasmus na Finlândia disse que aquilo era chato, porque a universidade lá funcionava tão bem que não havia motivos para fazer protestos (não me lembro se ela nem terá chegado a associar a alta taxa de suicídios a isso).

    A respeito, em termos gerais, da comparação do PIB com outros indicadores, o argumento implicto a favor de outros indicadores parece-me ser algo como “muitas vezes o crescimento do PIB vem associado a outras coisas, como maior poluição, mais tempo perdido em deslocações, casa trabalho, menos tempo livre, etc, pelo que o crescimento real do bem-estar é menor que o crescimento medido do PIB (ou até pode diminuir)”; não será dificil a partir daí elaborar um raciocínio “muitas vezes a a diminuição do PIB…”

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  2. Leo diz:

    Pegando num dos ultimos paragrafos – relativamente ao PIB nao contabilizar bem questoes ambientais, duas perguntas:

    – Um Carbon tax faria o PIB “crescer” ou “diminuir”? Um imposto “neutro”, isto e, cuja receita fiscal fosse utilizada para reduzir outros impostos.
    – Um esquema de creditos de carbono, faria o PIB “crescer” ou “diminuir”?

    Ha ideias para contabilizar de forma mais “dura” efeitos e custos ambientais no PIB?

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    • Depende da elasticidade VAB-imposto do sector afectado pela taxa de carbono e do sector afectado pela redução de impostos correspondente, bem como da produtividade média de cada um. Em princípio, uma mudança de impostos desse género seria neutra em termos de PIB (mas positiva em termos de bem-estar, uma vez que os custos sociais de cada actividade não são semelhantes).

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  3. Luís Alves diz:

    Não pensei muito no assunto mas para mim o indicador mais importante de todos é a esperança média de vida, e nisso estamos muito bem, estamos entre cerca dos 20 melhores, nas mulheres até estamos bem mais acima.
    Só com boas condições de saúde, de ambiente, e outras relacionadas, é que podemos ter uma esperança de vida grande.
    O PIB até pode não ser grande coisa mas em vez de fish and chips andamos a comer sardinhas assadas com pimentos e batatas cozidas, não temos universidades entre as 100 melhores mas pelos vistos os hospitais são bem bons e quase gratuitos, não temos agricultura intensiva e forte mas temos umas hortas com couves de primeira e umas galinhas a comer ervas nas capoeiras, a produtividade não é nada de especial mas não almoçamos umas sandes em meia-hora e vamos antes comer uma boa diária com sobremesa e sopa, as pausas para bom café também serão em maior quantidade e mais relaxantes, etc.
    Que se lixe o PIB, os americanos e os alemães matam-se a trabalhar e vivem menos do que nós!
    Isto é o jardim à beira mar mais bonito que há!

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