Desemprego estrutural e o défice externo

FMI, Comissão Europeia e BCE convergem na ideia de que o excedente das contas externas portuguesas é sobretudo estrutural. Estes cálculos, recorde-se, assentam numa certa estimativa para o PIB Potencial e para o nível natural de emprego – que determinam, por sua vez, a procura interna potencial e o desequilíbrio máximo que a balança comercial pode atingir.

Segundo a Comissão, a taxa natural de desemprego deve rondar os 13 ou 14% nos próximos anos. Tendo isto em conta, não é de estranhar que se considere que o excedente comercial é estrutural. É estrutural porque uma boa parte do desemprego que o sustenta se enraizou no tecido económico e deverá, também ele, ser considerado estrutural.

A questão de um milhão de dólares é simples: estes valores são minimamente realistas?

A imagem de baixo mostra a taxa de desemprego efectiva e a taxa de desemprego estrutural – NAIRU, de agora em diante* – para Portugal (e para Espanha, já agora) de 1960 a 2013. A NAIRU subiu imenso desde 2007, e fechou 2013 nos 13,3%. Em Espanha, a NAIRU segue o mesmo perfil, embora ‘estacione’ num ponto consideravelmente mais alto.

Espanha Pt

É difícil entender esta trajectória. A NAIRU depende, à partida, de factores institucionais como o sistema de benefícios sociais, as alternativas ao mercado laboral formal, pressões demográficas, skill mismatch e afins – tudo factores que, em princípio, mudam de forma lenta. Além do mais, os desenvolvimentos mais recentes nestes dos países – como a alteração do sistema de subsídios de desemprego e flexibilização das relações laborais – deveriam conduzir a uma redução, e não a um aumento, da taxa natural de desemprego.

É preciso ser muito criativo para imaginar alguma coisa capaz de atirar a NAIRU para estes níveis. A explicação para este fenómeno reside, provavelmente, nas particularidades de cálculo da NAIRU: como é virtualmente impossível observar os seus determinantes, a Comissão utiliza um filtro estatístico para tentar separar aquilo que é cíclico daquilo que é estrutural, arriscando misturar os dois e chegar a valores pouco realistas. De facto, a própria Comissão assume isso mesmo:

The approach used by ECFIN, relies on a so-called unobserved component model. Intuitively, the method seeks to identify structural unemployment by removing short term fluctuations. In particular, the filtering assumes that short term unemployment fluctuations (i.e. cyclical unemployment) affect wage inflation while trend unemployment (i.e. structural unemployment) does not – i.e. the trend component is the non-accelerating wage rate of unemployment (NAWRU). Importantly, this method provides only a proxy for structural unemployment that might not remove fully the impact of all temporary shocks. In particular, persistent shocks are likely to contaminate the trend.

Ou seja, a NAIRU computada pode estar altamente influenciada pelo facto de Espanha ter sido atingida por um choque de proporções bíblicas, que é difícil de ‘limpar’ dos dados utilizando os procedimentos estatísticos habituais.

Deixo mais dois exemplos. O primeiro é a Finlândia da década de 90, que sofreu o embate de duas catástrofes quase simultâneas – o colapso de um dos principais parceiros comerciais (União Soviética) e a falência do sistema bancário nórdico. A imagem mostra a taxa de desemprego (barras verdes) e a NAIRU (linha azul).

Finlândia

A métrica da Comissão mostra uma subida pronunciada da NAIRU desde meados da década de 80, que germinava ao mesmo tempo que o desemprego efectivo descia para pouco menos de 4% (!). Novamente, é difícil encontrar razões para este comportamento. Parece-me muito mais plausível que tenha sido o choque económico a fazer disparar a taxa de desemprego, que por sua vez – através de efeitos de hysteresis – se foi progressivamente ‘estruturalizando’.

Olhemos agora para o PIB Potencial irlandês no período 2003/2007. Ou melhor, para aquilo que a Comissão acreditava ser o PIB Potencial irlandês em 2007 e aquilo que a mesma Comissão acredita ter sido, na altura, o potencial máximo produtivo da economia.

PIB Irlanda

Em 2007, estimava-se que o PIB desse ano estivesse ligeiramente abaixo do seu potencial. Hoje, acredita-se que a economia funcionava 4,5% acima do nível ideal. Provavelmente, porque a recessão de 2008-2009, que fez cair a actividade em quase 9%, obrigou a reavaliar a sustentabilidade do PIB atingido anteriormente. Mas isto é um pouco como baixar ratings depois do default ou fazer prognósticos após o final do jogo.

O ponto aqui é que as estimativas para a NAIRU (ou para o PIB Potencial) feitas em tempo real são altamente dúbias e devem ser encaradas com algum cepticismo. Sabemos que a taxa de desemprego será reduzida à medida que a economia sair do ponto cíclico em que se encontra, mas é virtualmente impossível saber se ela convergiriá para 13%, ou para um valor consideravelmente mais baixo.

E é provavelmente por esta razão que o policy paper do FMI, apesar de considerar que as melhorias do saldo comercial da periferia são em boa parte estruturais, pede mais reformas para facilitar a passagem de recursos do sector não transaccionável para o sector transaccionável. Tendo em conta as incertezas em torno do PIB Potencial, não é de descartar que as economias da periferia possam crescer mais do que se espera – o que, a concretizar-se, implicaria também um crescimento da procura interna (e do défice externo) – superiores ao previsto.

* NAIRU – Non-accelerating inflation rate of unemployment. A taxa natural é aquela que permite estabilizar o Produto em torno do seu valor potencial, sem gerar pressões inflacionistas ou deflacionárias.

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2 comments on “Desemprego estrutural e o défice externo

  1. Obrigado, Miguel. Outra coisa curiosa é que a Grande Depressão foi uma das poucas grandes crises em que a taxa de desemprego rapidamente convergiu para o seu valor de partida. Terá isso a ver com o facto de a política orçamental ter sido forçosamente expansionista por causa da II Guerra Mundial?

    Ou seja: será que os decisores de política não são sistematicamente conservadores na avaliação que fazem do PIB Potencial?

    Eu não gosto de explicações que exigem pressupor uma boa dose de estupidez perene numa franja da população, mas a ‘estruturalização’ do desemprego é uma coisa que me faz muita confusão. E causa-me ainda mais confusão notar que ela tende a ocorrer em países de políticas económicas mais ortodoxas. Mas talvez a minha amostra seja enviesada.

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