Emprego: comparações alternativas

O Inquérito ao Emprego do segundo trimestre, divulgado ontem pelo INE, confirmou os resultados globais dos números mensais – ou, pelo menos, dos números mensais revistos, (já que os valores preliminares não pareciam grande coisa). O número de desempregados caiu, o número de empregos aumentou, e a taxa de desemprego recuou. Tudo normal, tudo esperado e tudo boas notícias.

O passo seguinte é perceber quão boas são as notícias, porque convém ter uma ideia da magnitude da criação de emprego. E porque, enfim, bem lá no fundo todos gostamos de ler aquelas notícias a comparar o número de empregos que cada Governo criou num certo período de tempo. Por exemplo, o Carlos Guimarães Pinto faz aqui uma comparação do volume de criação de emprego, concluindo que “se os números do emprego do 2º trimestre são indicadores de alguma coisa é de que a economia está a desacelerar e de que está a ser perdida capacidade de criar emprego”.

O tipo de comparação faz sentido, mas acho que é mesmo preciso levar em linha de conta o factor ‘programas ocupacionais’. As oscilações do número de pessoas ocupadas foram tão grande ao longo dos últimos anos que afectam decisivamente os números do emprego, independentemente dos períodos e termos de comparação. É por isso que nos últimos tentei, sempre que possível, limpar este factor da análise do emprego. Este não é um factor menor.

Em baixo refiz os cálculos do post do Carlos:  variação trimestral e homóloga do número de empregos criado no segundo trimestre. Os números headline são os oficiais, que coincidem com os dele – mas acrescentei uma segunda barra, com os números ajustados ao número de programas ocupacionais.

a1

a2

Os valores ajustados mostram que o perfil da recuperação do emprego é sensivelmente diferente daquilo que se retira dos números headline. O abrandamento parece resultar muito mais do desaparecimento ‘estatístico’ dos programas ocupacionais do que de tendências de fundo do mercado laboral.

Agora, isto levanta uma questão: como pode o emprego (ajustado, claro) estar a crescer tanto – 2% em cadeia, o mesmo que em 2015 e três vezes mais do que 2014 – se o PIB está a perder gás?

Uma sugestão, a única em que consigo pensar: a Lei de Okun, que relaciona a actividade económica com a criação de emprego, não é propriamente das coisas mais estáveis do planeta. De ano para ano – e sobretudo de trimestre para trimestre é normal que a haja momentos em que pouco PIB cria muito emprego e em que muito PIB cria pouco emprego. A longo prazo as duas variáveis devem caminhar lado a lado, mas em horizontes mais curtos há tempo e espaço para se afastarem.

Ou seja: a prazo, ou a economia descola – e descola, aqui, é crescer bem acima dos >1% que se espera para o ano em curso – ou a melhoria recente do emprego (ajustado ou não) acabará por se revelar insustentável. Mas claro, para concluir isso não era preciso escrever este post.

 

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4 comments on “Emprego: comparações alternativas

  1. Carlos Guimarães Pinto diz:

    Isto é interessante, embora eu tenha algumas reservas à exclusão de todos os ocupados. Esquecendo essas reservas, ainda assim pode haver 3 explicações:

    – Como o pico de despedimentos aconteceu ali por volta de 2012-13, muitas pessoas atingiram o limite do subsídio de desemprego em 2015 e ganharam incentivos a procurar emprego, mesmo que com salários mais baixos ou fora da sua área de especialização, algo que não acontecia em 2014. No fundo não é o dinamismo da economia a criar emprego, mas o search and matching a fluir melhor.

    – Os “ocupados” foram trocados por uma outra categoria qualquer de emprego subsidiado, que é mais difícil de isolar para efeitos estatísticos

    – O emprego aumentou o mesmo, mas o número de horas trabalhadas aumentou menos (por via de menos horas-extra ou empregos com horário semanal de trabalho mais reduzido.

    (Enquanto escrevia esta terceira explicação, fui ver os números e acabei por escrever um post lá no meu estaminé sobre isto. Parece que esta última explicação é a mais provável)

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  2. Joao diz:

    Pedro, nao me parece que excluir totalmente os programas ocupacionais seja correcto. E isso que e assumido nos valores ajustados? Ha que levar em conta que parte desses ocupados estariam empregados, como penso que fez num dos posts aqui linkados. Seria interessante ver cenarios que assumissem diferentes proporcoes de empregados adicionais na ausencia dos programas.

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    • Sim, na verdade isto é um limite superior, mas o ponto não era sugerir que o emprego está a crescer cada vez mais. É apenas mostrar que o factor “PO” é largamente responsável pela conclusão inversa que se extrai quando se olha para os números não ajustados – e isto acontece mesmo que se considerem como “empregos fictícios” apenas um terço dos PO’s. (Embora, na prática, eu julgue que estes PO’s sejam mesmo largamente postos de trabalho que não existiriam caso as pessoas em causa tivessem oportunidades no mercado de trabalho – duvido que quem está a limpar matas recuse uma oferta de emprego, por exemplo).

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