Taxa de desemprego e os empregados fantasma do IEFP

Na caixa de comentários do post anterior, o leitor Miguel Madeira referiu uma explicação alternativa para a descida da taxa de desemprego. A teoria é da CGTP e está disponível aqui, de onde extraí o gráfico de baixo.

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O Instituto do Emprego e da Formação Profissional (IEFP) publica mensalmente estatísticas relativamente ao desempregados envolvidos em programas ocupacionais. Apesar de tecnicamente não terem emprego, estes ocupados não são considerados como fazendo parte da taxa de desemprego; e o que o gráfico sugere é que há uma relação forte entre o crescimento do número de programas ocupacionais e a descida do desemprego. Será que é o IEFP que está a baixar artificialmente o desemprego?

Uma ressalva importante é que os dados que constam deste quadro são retirados do Eurostat. O Eurostat, por sua vez, utiliza os números trimestrais reportados pelo INE para determinar os empregados, desempregados e taxa de desemprego em cada trimestre; e, posteriormente, recorre a valores reportados mensalmente pelos centros de emprego para estimar o comportamento dessas mesmas variáveis ao longo do trimestre.

Se parece um procedimento confuso, é porque é mesmo. Mas o importante a reter aqui é que os valores relativos a Outubro e Novembro são construídos pelo Eurostat – utilizando, para já, dados dos centros de emprego. Assim que o INE publicar a taxa de desemprego oficial do quarto trimestre, a 5 de Fevereiro, o Eurostat irá recalcular as taxas de desemprego de Outubro e Novembro de forma a que elas sejam congruentes com esse valor trimestral. O bottom line, em todo o caso, é que não faz muito sentido apresentar a taxa de desemprego mensal sem referir que a fonte dos últimos dois meses é, na prática, diferente da fonte da dos restantes.

O gráfico tem mais dois problemas. O primeiro é que apresenta o volume de desempregados ocupados em milhares, mas expressa o desemprego como uma taxa. A utilização de uma escala única tornaria óbvio (como se verá em baixo) que, apesar de os número de ocupados ser de facto elevada, a variação do número de ‘ocupados’ é demasiado pequena para provocar grandes variações no número total de desempregados.

O segundo problema – ou, em rigor, uma limitação que reforça uma percepção errada – é que o gráfico começa em 2013, e dá assim a entender que a taxa de desemprego começa a cair precisamente quando o número de ocupados começa a crescer. A verdade é que o número de ocupados estava a crescer pelo menos desde 2011, e que esse crescimento foi acompanhado de uma súbita galopante do desemprego.

O que fiz em baixo é simples. Primeiro, calculei a taxa de desemprego trimestral do INE (oficial). De seguida, utilizei os dados do IEFP para apurar o número trimestral de ‘ocupados’ (média dos três meses relevantes) e fi-los transitar do ‘emprego’ para o ‘desemprego’. O resultado final é uma taxa de desemprego ajustada ao factor ‘ocupados’ do IEFP (nota: por lapso, a taxa ajustada é erronamente apontada como ‘INE’. Obviamente, a taxa ajustada é a que aparece a cor vermelha).

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Como é óbvio, a inclusão dos ‘ocupados’ no volume de desemprego altera substancialmente o nível da taxa de desemprego. Mas o comportamento da taxa permanece inalterado: subida acentuada ao longo de mais de um ano e descida abrupta no segundo e terceiro trimestres de 2013. De facto, eliminar o ‘factor ocupados’ apenas faz com que a redução da taxa de desemprego nos dois últimos trimestres passe de 2,1 para 1,7 pontos percentuais.

O gráfico de baixo compara as oscilações trimestrais da taxa de desemprego. As oscilações dos trimestres a vermelho são as que se verificam na ‘taxa de desemprego ajustada’. O objectivo é apenas mostrar como o recuo da taxa de desemprego continua a ser impressionante mesmo depois de eliminada a variação no número de ‘ocupados’. O IEFP tem muito pouco a ver com isto.

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P.S.– O tempo é um recurso escasso e qualquer debate tem benefícios marginais decrescentes. Tendo isso em conta, este foi o último post dedicado ao tema do desemprego.

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2 comments on “Taxa de desemprego e os empregados fantasma do IEFP

  1. […] “Taxa de desemprego e os empregados fantasma do IEFP” de Pdro Rmano (Desvio Colossal) […]

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  2. Parabéns pelo excelente trabalho. É com análises cuidadas e filtradas de emoções e preconceitos que podemos ter, de facto, uma noção do que verdadeiramente ocorre num determinado momento e prepararmo-nos melhor para enfrentar o futuro.

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