Se a Grécia fosse Portugal

Uma das coisas mais lamentáveis na discussão da crise grega é a (aparente) dificuldade de muita gente em apreender os factos mais básicos da questão. Não estou a falar de argumentos débeis, como a ideia de que flexibilizar metas significa deixar a Grécia viver novamente acima das suas possibilidades. Refiro-me a erros factuais – por exemplo, a ignorância de que a Grécia foi, ao contrário do que se pensa, o país europeu que mais reformas estruturais fez e que mais apertou o seu orçamento.

Na verdade, o colapso da Grécia é simples de explicar. Perante a situação calamitosa das contas públicas em 2009, só havia duas possibilidades: saída do euro para financiar o défice com emissão monetária – algo que ninguém queria -, ou um ambicioso programa de consolidação orçamental, associado a financiamento por parte dos credores oficiais. Como a consolidação afecta negativamente o crescimento, a recessão era inevitável.

Havia alguma forma de minorar o problema? Sim, mas não muito. Para amenizar esta recessão o Governo grego podia ter tentado renegociar as metas fixadas com a Troika, de maneira a diminuir o esforço orçamental exigido ao Estado. Mas pensar que a depressão podia ter sido contornada através de mais cortes ou mais reformas estruturais é pura fantasia – e só revela ignorância, no primeiro caso, ou wishful-thinking, no segundo.

Certamente que só ouvimos argumentos destes em Portugal. Lá fora, onde o discurso é dominado por economistas treinados, ninguém sugeriria algo remotamente parecido com isto. Certo?

Não. A passagem que se segue é de Daniel Gros, director do CEPS, um think-tank europeu.

Fundamental to Greece’s case for new bailout terms is the narrative that it has been a victim of excessive austerity. But this neglects a crucial fact: austerity worked in Europe’s other crisis-hit countries. Indeed, Portugal, Ireland, Spain, and even Cyprus are showing clear signs of recovery, with unemployment finally falling. Why is Greece different?

The short answer is exports. In all of the other crisis-hit countries, rising exports offset, at least partly, the hit that demand took when their governments slashed spending and raised taxes to balance their books (…) If Greece had experienced the same growth in exports as Portugal, it would not have experienced such a deep recession, and tax revenues would have been higher, making it much easier for the government to achieve a primary budget surplus.

É verdade que as exportações gregas têm tido um comportamento frustrante ao longo dos últimos anos. Na verdade, as vendas ao exterior estagnaram de 2010 a 2013, naquela que foi uma das piores performances da Europa.

1Por outro lado, não é claro o que é que o Governo grego podia ter feito em relação a isto. Mais reformas estruturais? Mas a Grécia foi o país mais reformista da Europa. Além do mais, foi na Grécia que os custos unitários do trabalho (CUT) mais caíram. É óbvio que se as exportações tivessem crescido muito mais a recessão teria sido muito menor; mas essa afirmação é largamente despida de implicações práticas se não vier associada a um inventário dos erros de política que conduzirem a este resultado.

Finalmente, a comparação com Portugal («If Greece had experienced the same growth in exports as Portugal, it would not have experienced such a deep recession») não pode deixar de inspirar alguma ironia. Utilizando os dados da AMECO, é possível construir uma série para as exportações gregas que mimetize o comportamento das exportações portuguesas, e de seguida incorporá-la no PIB grego para ver o resultado. Gros tem razão quando diz que as exportações podiam ter amenizado a recessão, mas deixo à consideração do leitor a avaliação da relevância deste argumento.

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Mas tudo isto me leva a pensa num problema antigo: por que razão é que a Grécia, com a maior redução dos CUT da Europa, teve uma performance externa tão deplorável? O próprio FMI já levantou essa questão, num estudo em que identificava uma enorme “matéria negra” – isto é, um resíduo inexplicável – a puxar para baixo as exportações da Grécia (ver caixa 1.3.3. do WEO).

A resposta, provavelmente, é muito simples. Cito, em baixo, o comentário que Miguel Madeira fez num dos posts anteriores:

O facto da principal “exportação” grega ser turismo muda um pouco as regras do jogo – quando compro carne de vaca normalmente não estou minimamente preocupado com as condições sociais do pais de onde ela vêm (pode estar à beira de uma crise humanitária e de uma hiperinflação – na moeda local – que isso não afeta a minha decisão de comprar a carne); já no caso do turismo (em que implica lá estar fisicamente), uma crise tende a afugentar os turistas, mesmo que os preços sejam atrativos

Provavelmente, isto é mais do que um palpite inteligente. Veja-se, em baixo, a evolução das exportações desagregadas por tipo de venda – bens e serviços.

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As exportações de bens cresceram mais do que a média – talvez não tanto quanto a queda dos CUT deveria ter feito crescer1, mas ainda assim um valor apreciável. O problema esteve nas exportações de serviços (sobretudo turismo, no caso grego), que caíram quase 7% em termos acumulados. Como os serviços representam mais de metade das exportações totais (contra cerca de 25% no resto dos países), o valor global acabou por ser apenas marginalmente positivo, e um dos piores de toda a Europa.

P.S.- Sobre a Grécia, ler também Acabar com a austeridade na GréciaA Grécia no melhor dos mundos possíveis, Soluções realistas para a Grécia.
1 Os CUT não dizem tudo. Nos últimos anos tem sido frequente grandes reduções dos custos não se traduzirem em reduções concomitantes dos preços finais, o que também pode explicar muita coisa.
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5 comments on “Se a Grécia fosse Portugal

  1. jvgama diz:

    Uma sugestão: esta ideia tem mérito para um artigo científico, se for ainda melhor explorada.

    Pedro Romano e Miguel Madeira, que tal porem mãos à obra?

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    • Parece-me demasiado corriqueiro para um artigo. Mas se calhar não ficava mal no Vox, não.

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    • Uma hipótese poderia ser um estudo comparando, para vários países, a variação do “índice de infelicidade” (desemprego+inflação – parece-me uma melhor proxy para “ambiente de crise social” do que propriamente o PIB) com o diferencial entre a variação da exportações e a variação das exportações turísticas (parece-me melhor esse diferencial do que propriamente a variação absoluta do turismo; há muitos outros fatores que podem influenciar a variação do turismo, mas muitos influenciarão também as outras exportações – o referido diferencial será a melhor maneira de captar o que é só suposto influenciar o turismo)

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  2. Carlos Gil diz:

    Ou seja, as manifestações mais ou menos violentas promovidas pelo Syriza e pela esquerda em geral afastaram os turistas e agravaram a crise. Irónico.

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    • jvgama diz:

      Aparentemente a culpa não foi da crise humanitária resultante da austeridade recorde aplicada na Grécia, mas sim “da esquerda” que não soube “comer e calar”.

      Só é pena que essa narrativa não bata certo com os factos, já que muitas manifestações foram promovidas pela direita e pela extrema direita, e suponho que, mesmo sem manifestações, um partido nazi a chegar a percentagens consideráveis não faça notícias que ajudem à estratégia de promoção turística na Grécia…

      A Grécia e a Alemanha têm pouco em comum, mas esta reacção das pessoas à austeridade (subida do extremismo em geral e do nazismo em particular) aconteceu em ambos os casos.

      Confundir o sintoma (manifestações) com a doença (crise social e humanitária provocada pela austeridade) é um erro crasso.

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