Um leitor pergunta, por e-mail, como se compatibiliza este post (e este, já agora) com uma notícia do Económico a dar conta de que a taxa de poupança das famílias atingiu o nível mais baixo da história recente (1999, data de início da série estatística). Onde está o erro aqui?
Na verdade, ninguém está errado. Estamos apenas a falar de coisas diferentes.
Nos posts em questão o que está em causa é o saldo financeiro das famílias. Este saldo é dado pela diferença entre todas as receitas e todas as despesas das famílias, e é dele que depende a capacidade de uma família acumular dinheiro ou a necessidade de se endividar – daí o exótico nome de capacidade/necessidade de financiamento líquido (CNFL). Na prática, a CNFL corresponde mais ou menos à ideia comum que temos de poupança: quando pomos dinheiro no banco poupamos, e quando pedimos emprestado ao banco ‘des-poupamos’.
Já a taxa de poupança que surge na maior parte das notícias limita-se a comparar as despesas correntes das famílias com as suas receitas totais. Qual é a diferença face ao indicador anterior? É que as despesas de investimento (que no caso das famílias dizem sobretudo respeito à aquisição de habitação) não são consideradas. Pegando num exemplo prático, se eu comprar uma casa a minha CNFL fica imediatamente negativa, sem contudo haver qualquer alteração na minha taxa de poupança.
E é daí que vem a divergência. A taxa de poupança está de facto no nível mais baixo desde 1999. Mas como os gastos de investimento têm caído ao longo da última década e meia, o saldo financeiro – que é, em última análise, aquilo que obriga uma família a endividar-se – está hoje ao nível do que se verificava entre 2001 e 2007.
Mas um ponto importante, e que raramente vejo ser enfatizado, é que o nível dos saldos financeiros, em si, não conta a história toda. Um saldo financeiro gordo pode ser insuficiente para responder a pressões financeiras, se as pressões (=dívida) forem grandes. E, pela mesma ordem de razões, um saldo financeiro nulo não significa necessariamente problemas – se a dívida for muito baixa, à partida não há razões para alarme.
Em suma, tudo depende da evolução da riqueza da qual são extraídos fundos para pagar a dívida (Rendimento Disponível) e do stock de dívida acumulado. E esse stock tem evoluído mais ou menos assim.
Aliás, podemos ter uma imagem ainda mais completa da situação se juntarmos a estes valores os números dos activos financeiros, que podem ser usados para abater a esta dívida – por exemplo, depósitos, acções e por aí fora. O gráfico de baixo usa dados do INE para o Rendimento Disponível e dados do Banco de Portugal para os activos e passivos.
Agora, eu não sei: a) qual é o perfil do stock de dívida se o saldo financeiro se mantiver no nível actual – cerca de 2% do PIB; nem b) qual vai ser o perfil do saldo financeiro daqui para a frente (embora suspeite que não vá mexer muito, por algumas razões que não vale a pena discutir). E também não sei qual é o montante de dívida “correcto”, ou sustentável, para uma economia como Portugal.
Mas quando se analisa estas coisas é preciso olhar simultaneamente para os fluxos e stocks. E o que vejo na maior parte dos casos é uma obsessiva (e desleixada) preocupação apenas com os primeiros, sem considerar o “ponto de situação” da dívida acumulada, o valor dos activos acumulados e por aí fora. Na prática, tudo parece resumir-se à lógica do se-sobe-é-bom-se-desce-é-mau.
Já agora, um gráfico que pode ser interessante para algumas pessoas. A comparação internacional não é a coisa mais relevante neste contexto, mas como já tinha compilado os dados para outros fins, deixo-os aqui para quem tiver curiosidade.
São dados em bruto, e não tenho qualquer bottom line para isto. Talvez o facto mais curiosos seja a diferença clara e gritante entre Portugal e os países que tiveram gigantescas bolhas imobiliárias (Irlanda, Espanha), passaram por enormes booms económicos (Estónia, Letónia) ou receberam fortes estímulos orçamentais (Grécia). Mas isso se calhar já era expectável.



