Mudanças no horizonte (no PIB Potencial)

O PIB Potencial é o nível de actividade económica natural de uma economia, depois de expurgado o efeito do ciclo económico. Ao que parece, a Comissão Europeia está, finalmente, a ponderar alterações substanciais à forma como calcula este indicador – uma notícia antiga que, infelizmente, parece ter despercebida aos media nacionais.

Por que seria tão importante a metodologia utilizada pela Comissão Europeia para calcular um obscuro indicador económico? A principal explicação tem que ver com o facto de este indicador influenciar de forma decisiva o défice estrutural, que passa a ser a variável-chave na monitorização imposta pelo Tratado Orçamental.

Primeiro, o PIB Potencial. Estimar o PIB Potencial exige, muitas vezes, assumir algumas hipóteses dúbias relativamente ao comportamento da economia (veja-se a metodologia da Comissão Europeia aqui). Os métodos muitas vezes passam por utilizar procedimentos estatísticos para ‘depurar’ as séries do PIB, obtendo uma medida da actividade tendencial. Este procedimento é particularmente problemático em situações em que uma recessão cíclica é especialmente duradoura, na medida em que tende a ‘estruturalizar’ uma situação que de estrutural tem muito pouco.

Outra opção passa por utilizar uma curva de Phillips para analisar a relação entre inflação e desemprego. A curva permite, olhando para a inflação, deduzir o nível de desemprego que corresponde à actividade económica ‘natural’. Mas mesmo este método parece produzir muitas vezes resultados pouco razoáveis, como descobriu Olivier Blanchard quando analisou o caso da Letónia (e como Krugman não se cansa de enfatizar). Entretanto, o FMI forneceu uma boa explicação para estes estranhos resultados (capítulo 3 do World Economic Outlook de Abril de 2013).

O saldo estrutural, por sua vez, exige não apenas um cálculo fiável do Produto Estrutural mas também elasticidades razoáveis da receita fiscal face ao PIB e uma boa medida da sensibilidade da despesa social ao desemprego. Recentemente, têm sido feitos esforços no sentido de neutralizar não só o efeito de medidas one-off (Comissão Europeia) mas também os efeitos de bolhas de activos e alterações na composição do Produto (FMI – ver nota técnica aqui).

Sem Título

Mas apesar de tudo isto, a medida continua altamente dúbia. Por exemplo, as contas do FMI e Comissão mostram uma degradação do saldo estrutural espanhol de mais de 8% em apenas dois anos – algo que, sabemos, por fontes independentes, não corresponde (nem de perto, nem de longe), à acção discricionária do Governo espanhol entre 2008 e 2010. É possível que estes erros de medicação estejam a reflectir precisamente más estimativas do Produto Potencial.

Neste sentido, uma alteração de cálculo do PIB Potencial pode melhorar automaticamente o valor do saldo estrutural – e, assim, diminuir as exigências impostas pelo Tratado Orçamental. Aliás, uma revisão do PIB Potencial suficientemente grande (mas plausível de acordo com informações independentes) poderia levar alguns dos PIIGS a terem, na prática, um saldo estrutural já praticamente equilibrado. As implicações de revisões desta natureza, é escusado dizer, seriam enormes.

P.S.– O debate ‘estrutrual/cíclico’ tem inspirado bons comentários por essa Europa fora. Ver isto, isto, isto e isto.

Update: Infelizmente, a realidade parece mais complexa. O Wall Street Journal noticia que devido a ‘problemas políticos’ a alteração da metodologia poderá ser adiada. Sobre isto, ler também Sin and Unsinn, de Paul Krugman.

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