Uma nota sobre a descida do desemprego

A taxa de desempregou voltou a descer no terceiro trimestre, depois de uma surpresa semelhante no segundo. Se as boas notícias de Agosto ainda vieram envolvidas em muito ruído, os dados publicados hoje permitem, finalmente, perceber um pouco melhor o que se passa no mercado de trabalho.

O facto mais notório é a dimensão da quebra do desemprego. A redução da taxa, de 16,4 para 15,6%, é impressionante. A imagem de baixo põe os números do INE em perspectiva, mostrando a taxa de desemprego trimestral (linha azul) e variação desta taxa face ao período anterior.

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Quebras desta magnitude são raríssimas, e nunca antes ocorreram em dois trimestres sucessivos. E algumas das explicações ensaiadas em Agosto, que já na altura não faziam muito sentido, parecem agora claramente desajustadas.

Agora, como antes, a redução do desemprego não é motivada nem pela emigração, nem pelo desencorajamento na procura de emprego – na verdade, o emprego aumentou 1,1%.

Aliás, é curioso notar que a taxa de desemprego começa a cair precisamente no momento em que a população activa estabiliza. O que sugere que a emigração, apesar de não estar agora a mexer os cordelinhos nos bastidores, pode ter tido de facto um papel importante a amortecer os choques ao longo de 2012. É difícil imaginar até quanto teria a taxa de desemprego subido sem esta válvula de escape.

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A sazonalidade também não é uma explicação plausível. A taxa de desemprego costuma subir no terceiro trimestre, e não descer. O movimento reportado hoje pelo INE representa por isso uma quebra apesar, e não por causa, da sazonalidade. A imagem de baixo mostra a variação registada em cada terceiro trimestre (em pontos percentuais da taxa de desemprego do trimestre anterior) ao longo da última década.

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Um ponto muito enfatizado no segundo trimestre foi a importância do emprego agrícola, que representava boa parte do emprego criado. Falou-se até num regresso à agricultura de subsistência ou à mais prosaica ‘ajuda familiar’, que no Inquérito ao Emprego aparece como emprego.

Na altura argumentei que o sector primário estava apenas a introduzir ruído no mercado de trabalho, ampliando, em vez de amortecer, os ciclos de emprego. E que, portanto, faria algum sentido depurar a análise através da exclusão deste sector (“Quando se tira este ruído da equação, tudo parece mais simples: há uma recuperação do emprego, modesta mas expectável).

Os dados divulgados hoje confirmam largamente esta ideia. O emprego agrícola caiu, perdendo uma parte dos empregos criados no trimestre anterior; mas o emprego total aumentou, desta vez arrastado pelos serviços. O segundo trimestre não mascarou números nem ocultou tendências. A questão agrícola era um não-acontecimento que apenas dificultava a leitura da realidade subjacente.

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Mas se em Agosto ainda faria algum sentido procurar explicações nos detalhes metodológicos do Inquérito ao Emprego, esta opção perde alguma força actualmente. Por uma razão simples: se na altura a expectativa era que o PIB continuasse a contrair, agora sabemos não apenas que o PIB cresceu de forma robusta no segundo trimestre, mas também que deverá ter continuado a expandir-se no terceiro trimestre (algumas pistas aqui, por exemplo). A descida da taxa de desemprego é perfeitamente consistente com a informação de conjuntura que vamos recebendo. Não é preciso inventar a toda.

Há mais informação conexa que parece apontar num bom sentido. A taxa de desemprego jovem caiu e há uma forte diminuição dos indicadores de debilidade do mercado de trabalho (população empregada a tempo parcial e subemprego – menos 36 mil emprego, mais do que compensados pela criação de 76 mil empregos a tempo completo).

Os dados relativamente às remunerações dão indicações semelhantes. A verdade é que já apontavam nessa direcção no segundo trimestre; mas, por alguma razão que nunca consegui perceber bem, gerou-se a ideia de que a queda do desemprego era sobretudo resultado de empregos criados em sectores de baixos  salários (<600 euros). Não era antes, como não é agora.

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Claramente, a questão interessante não é a descida do desemprego. A pergunta a responder é a razão por que o PIB terá crescido, num cenário de consolidação orçamental e de procura externa estagnada. Se o desemprego desce em linha com a actividade económica, por que razão está a actividade a surpreender tanto?

A hipótese Tribunal Constitucional é tentadora, mas choca com alguns factos importantes (ver aqui e aqui, por exemplo). Uma hipótese plausível – mas reconhecidamente especulativa – é a reversão dos efeitos multiplicadores da consolidação orçamental (ver aqui). Se a explicação é esta, então há razões para crer que as previsões actuais, que não conseguem capturar estes efeitos, estarão a subestimar fortemente as perspectiva de crescimento económico.

P.S.- Ler também comparações homólogas versus comparações trimestrais

10 comments on “Uma nota sobre a descida do desemprego

  1. Joao diz:

    Muito boas noticias, e uma analise muito interessante.

    Em linha com conversas anteriores, eu vejo duas hipoteses. Ou reversao dos multiplicadores da consolidacao ou reversao dos multiplicadores do processo de desalavancagem. Porque os efeitos da desalavancagem sobre a procura agregada sao tao reversiveis como os da consolidacao. A hipotese TC para mim nao faz sentido, desde logo pela magnitude dos efeitos mas sobretudo porque o governo tem apresentado medidas substitutivas, mantendo os objectivos de consolidacao mais ou menos inalterados em resposta aos chumbos.

    Uma pequena correcao no texto: onde diz “A sazonalidade também é uma explicação plausível” parece que devia dizer “nao e uma explicação plausível”.

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  2. RuiMCB diz:

    Sendo as variáveis analisadas tipicamente variáveis nas quais se identificam factores sazonais muito relevantes, qual é o sentido de valorizar a análise em cadeia e preterir a comparação com o mesmo período do ano anterior?

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  3. Se estamos a tentar perceber o que aconteceu no terceiro trimestre, faz todo o sentido que a análise seja feita em cadeia. A análise homóloga elimina o problema da sazonalidade, mas tem o inconveniente de levar a uma enorme perda de informação.

    Mas neste caso penso que este até é um problema menor. O ajustamento sazonal faria com que a recuperação do terceiro trimestre fosse ainda mais robusta do que se vê nos números oficiais. O ajustamento sazonal no segundo trimestre, por sua vez, tornaria recuperação mais branda, mas não a eliminaria. O facto de a comparação homóloga mostrar uma recuperação muito mais tímida não altera este facto: apenas dá uma ideia da dimensão da hecatombe do 4ºT2012/1ºT2013 – a quebra foi tão grande que mesmo dois trimestres de crescimento robusto do emprego mal chegam para reduzir a taxa de desemprego.

    Já agora, confesso alguma estranheza com a polémica que este post gerou. Com o PIB a crescer às taxas a que está a crescer, estranho seria que o desemprego não recuasse. A minha interpretação é absolutamente canónica.

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  4. Um problema que eu vejo com a explicação “reversão dos efeitos multiplicadores da consolidação orçamental” é que, no fundo, não explica nada – isto é, penso que essa reversão deve ocorrer através de um mecanismo qualquer, e portanto continua a ser necessário explicar qual é exatamente esse mecanismo (penso que a explicação mais ortodoxa à luz dos manuais de macroeconomia seria algo como “a recessão faz reduzir a inflação, aumentando a competitividade da economia e gradualmente compensando a redução da procura causada pela austeridade”, mas duvido que seja isso, porque se fosse seria fácil de identificar).

    Em Portimão, a explicação mais popular para o aumento de turistas neste verão é “Egito e Turquia”.

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    • E, entretanto, indo ao relatório do INE, reparo que o Algarve foi dos sitios onde o desemprego mais caiu (embora seja a coisa mais normal do mundo cair do 2 para o 3º trimestre; mas na variação homóloga também caiu)

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  5. Inês Meneses diz:

    E quando desceu o emprego, Pedro Romano? Entre a desonestidade intelectual e a pura incapacidade para analisar resultados estatísticos, estamos bem arranjados…

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  6. Inês Meneses,

    Presumo que tenha querido dizer “quanto desceu o emprego”. A resposta a essa está no post. O emprego aumentou 1,1%. Pode colocar este valor em perspectiva histórica aqui: https://desviocolossal.files.wordpress.com/2013/08/4.jpg

    Miguel,

    Eu não seria tão céptico. O facto de não sabermos exactamente através de que mecanismo é que o ‘efeito multiplicador’ se dissipa não quer dizer que esta dissipação não seja uma boa explicação. É um pouco semelhante a fenómenos de reversão para a média: se um jogador de futebol tem uma época extraordinária, a ‘reversão para a média’ é uma boa explicação para o facto de o seu ano seguinte ser pior.

    Mais importante ainda, esta hipótese fornece previsões testáveis. Uma das suas implicações é que o ano de 2015 deverá ser um ano de grande crescimento. Já agora, eu mantenho algum cepticismo em relação a esta hipótese. Não imagino a Grécia a recuperar o terreno perdido nos próximos dois ou três anos, por exemplo.

    Obviamente, será sempre possível perceber melhor o mecanismo através do qual o multiplicador se dissipa. Mas como a generalidade da literatura neste tema é empírica – ou seja, constata efeitos mas não os explica em termos microeconómicos -, por agora teremos de nos contentar com uma explicação, digamos assim, ‘não microfundamentada’.

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  7. “https://desviocolossal.files.wordpress.com/2013/08/4.jpg”

    Uma coisa que ocorreu agora – posso estar a interpretar mal esse quadro, mas dá-me a ideia que, pelos vistos, o emprego tende sempre a subir no 3º trimestre (ou é no 2º? – reparo que de 4 em 4 segmentos há um pico, mas não é muito claro em que trimestre é).

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  8. É no segundo trimestre, Miguel. A imagem não é muito clara, mas no excel nota-se bem.

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