Sobre a inexplicável descida do desemprego

A descida da taxa de desemprego de 17,7 para 16,4% no segundo trimestre é uma óptima notícia. Mas, reconheça-se, inesperada e surpreendente. Não havia nada nos indicadores de conjuntura – e nos dados de alta frequência veiculados pelos centros de emprego – que fizesse antecipar uma queda tão grande da taxa de desemprego, pelo que estes números devem ser lidos com cautela e prudência.

Mas se é difícil perceber o que esteve na origem deste comportamento bizarro do mercado de trabalho, não é particularmente complicado identificar, desde já, as razões que não explicam esta queda. E há pelo menos três que não cumprem os ‘mínimos olímpicos’ para se qualificarem como hipóteses plausíveis.

As primeiras duas dizem respeito às particularidades da forma como a taxa de desemprego é calculada: um rácio entre o número de desempregados e a população activamente à procura de emprego. Esta fórmula de cálculo faz com que a taxa de desemprego possa, ainda que de forma episódica, ser um mau barómetro da real situação do mercado de trabalho, bastando para isso que haja desempregados a deixar de procurar emprego ou a procurá-lo noutras paragens (isto, é emigração). Nesta situação, a redução da taxa de desemprego não traduz qualquer melhoria significativa da economia, mas apenas um ‘baixar de braços’ por parte de quem deixa de ter perspectivas realistas de encontrar emprego em Portugal.

Claramente, não foi isso que aconteceu. A imagem em baixo compara a evolução população activa com a evolução do volume de emprego. Se a hipótese do ‘copo meio vazio’ (emigração e desencorajamento) fosse verdadeira, a redução do desemprego não estaria associada, como está, a um aumento expressivo do emprego. O número de pessoas empregadas ou a procurar activamente emprego (população activa) também não caiu no segundo trimestre – na verdade, até aumentou, embora o acréscimo seja demasiado marginal para que seja considerado mais do que uma mera estabilização.

Imagem 1

A questão da sazonalidade, que tem sido muito referida na comunicação social, também está longe de explicar a queda da taxa de desemprego. Apesar de ser verdade que os segundos trimestres estão normalmente associados a um aumento do volume de emprego, o aumento registado no segundo trimestre supera de longe a tendência histórica. A imagem de baixo dá conta disto mesmo, mostrando a variação do emprego em todos os segundos trimestres de 2000 a 2013, com este último ano em destaque e uma média histórica a tracejado. Ou a sazonalidade já não é o que era, ou então explica muito pouco do que aconteceu entre Abril e Junho de 2013.

Imagem 2

Em suma, as explicações habituais no campo da ilusão estatística são claramente insuficientes para explicar os números do desemprego. Mas também não parece haver indicações do lado da economia real que justifiquem esta melhoria tão acentuada. Concentro-me em três, porque me parecem as mais relevantes, e também porque já as vi serem mencionadas aqui e ali como hipóteses plausíveis.

Primeiro, a actividade económica. Só conheceremos ao certo os valores do PIB quando o INE divulgar a estimativa rápida das Contas Nacionais a 14 de Agosto, mas para já há sinais de que o Produto poderá ter crescido no segundo trimestre. A Universidade Católica apontou recentemente para uma expansão modesta, mas positiva, na casa dos 0,6% relativamente ao trimestre anterior. Este valor é, porém, claramente insuficiente para gerar uma queda do desemprego de 1,3 pontos percentuais. A julgar pela experiência histórica dos últimos 10 anos, aliás, um crescimento de 0,6% não deveria permitir um aumento do emprego superior a 0,12%, muito abaixo dos 1,6% efectivamente registados.

A imagem seguinte mostra a relação entre a variação do PIB e a variação do volume de emprego, com o segundo trimestre de 2013 a vermelho. O painel mostra claramente que o segundo trimestre de 2013 foge à tendência histórica, no que parece ser uma quebra da Lei da Okun (ver mais aqui).

Emprego 1

Chamo porém a atenção para o facto de o R2 ser extraordinariamente baixo. Ou seja, o PIB trimestral é uma variável pobre para prever o comportamento do emprego, pelo que grandes teorizações com base neste indicador serão necessariamente débeis. Isto não significa que não haja relação entre ambos. De facto, o R2 sobe para próximo de 0,8 quando utilizamos valores homólogos (PIB homólogo versus emprego homólogo), o que é provavelmente justificado pelo facto da haver algum lag entre o momento em que a actividade cresce e o momento em que as empresas decidem contratar mais trabalhadores (algo que não é capturado nas comparações trimestre-a-trimestre). Mas é preciso ter cautela antes de se retirar grandes conclusões de um crescimento do Produto num período tão curto como um único trimestre.

A redução dos salários é outra possibilidade que me parece pouco plausível. É verdade que as remunerações têm estado a cair, e que uma redução salarial deste género pode permitir um aumento do emprego sem aumento da actividade económica subjacente (ver uma explicação detalhada aqui). Por outro lado, a quebra verificada nas remunerações está a realizar-se sobretudo através dos cortes nominais do sector público (ver o terceiro gráfico deste post, por exemplo), onde o mecanismo compensatório descrito (  salários -> emprego ) está ausente, seja porque a contratação não é motivada pelo lucro, seja porque, como é óbvio, as contratações estão congeladas.

A hipótese das reformas estruturais é igualmente débil. Por uma razão simples: não sabemos ao certo quanto tempo demoram a actuar nem qual a magnitude concreta do seu efeito positivo. Invocar as reformas estruturais para explicar uma súbita descida do desemprego (que ainda para mais vem no seguimento de duas subidas abruptas e igualmente inesperadas) é apenas dar um nome diferente à nossa ignorância.

Finalmente, é possível que haja alguma alteração profunda de expectativas em relação ao perfil esperado da actividade económica. É compreensível que, num cenário de alteração das expectativas, as empresas contratem antecipadamente, mesmo que essas contratações não tenham um reflexo imediato no PIB. As hipóteses concretas que ouvi referidas dizem respeito à paragem da austeridade, seja por falta de fibra do Governo, seja por resistência popular.

Apesar de esta possibilidade ser elegante e plausível em teoria, haverá de facto alguém que acredite que houve uma reorientação da política orçamental? A própria decisão do Tribunal Constitucional foi rapidamente contrariada por medidas adicionais e o que tem estado em debate na comunicação social – e gerou aliás um choque nas reuniões recentes entre PS e Governo – é o pacote de cortes de 4,7 mil milhões de euros. Falar em expectativas, neste contexto, parece-me ainda menos razoável do que invocar as malfadas reformas estruturais.

Olhar para a desagregação do crescimento do emprego ajuda pouco. Dos 72 mil empregos líquidos criados, cerca de 33 mil vieram dos serviços, mas a maior parte surgiu mesmo na agricultura (mais de 46 mil). Estes números também não são compatíveis com a narrativa das reformas estruturais ou com o fim da austeridade (a não ser que a primeira coisa que um português mais confiante faça seja atulhar o frigorífico de bens agrícolas).  É tudo muito estranho e muito pouco coerente.

Um palpite conservador é que tudo não terá passado de uma mistura exótica de sazonalidade, algum evento único no sector agrícola e volatilidade natural do mercado trabalho. O próximo trimestre já permitirá perceber um pouco melhor o que se está a passar; mas, até lá, eu seria prudente na leitura das mãos do mercado de trabalho.

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5 comments on “Sobre a inexplicável descida do desemprego

  1. E que tal comparar a variação homóloga do número de empregados? menos 182 600, uma quebra de 3,9%, explica muita coisa e cala qualquer euforia.
    De notar que a agricultura é sanzonal (começa mais cedo a época das colheitas que a turística), e era capaz de especular sobre uma diminuição da imigração para trabalhos agrícolas…
    Chamo também a atenção para o sub-emprego, que o ano passado não foi considerado, de acordo com este estudo do INE. Não me detalhei na forma como é tratado, mas pode explicar muita coisa, sobretudo porque salários na casa dos 300 euros (um truque para contornar o salário mínimo, que em teoria pode resultar em 7×2 horas de trabalho diário, empregando 2 com um dispêndio de apenas mais 100€) aumentaram.

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  2. Júlio diz:

    Não esquecer o Estímulo 2013: o estado paga 60% do salário durante 18 meses.
    Foi um corre corre para contratar mão-de-obra intensiva, que de repente ficou baratíssima.

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  3. Há dados sobre a evolução do horário médio de trabalho? Os tais dados que dizem que, no ultimo ano, só os trabalhadores com menos de 310 euros aumentaram faz pensar em muito trabalho parcial.

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  4. Miguel, esses dados existem, mas são de acesso mais difícil. Eu, pelo menos, estou a ter alguma dificuldade em compilar séries longas de salários e horários médios. (E poderá não ser apenas por inépcia. Sei que o INE tem a prática de apenas facultar determinados dados a pedido, pelo que a base estatística pública nem sempre terá toda a informação disponível)

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  5. […] post anterior, acerca da misteriosa descida da taxa de desemprego, suscitou vários comentários e algumas […]

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