Comparações homólogas versus comparações trimestrais

No post anterior analisei a descida da taxa de desemprego comparando os valores do terceiro trimestre com os valores do segundo trimestre. Esta opção pareceu-me tão óbvia e intuitiva que nem me dei ao trabalho de a justificar. Mas tendo em conta algumas das reacções ao post, pode valer a pena explicá-la um pouco melhor.

Uma das críticas à análise em cadeia é que ela despreza a questão da sazonalidade, um problema que não afecta comparações homólogas. Isto é verdade, mas a crítica é absurda: no caso concreto do terceiro trimestre o factor sazonalidade contribui para agravar o desemprego, e não para o diminuir (ver aqui o registo histórico). Quem quiser enriquecer a análise levando em conta a sazonalidade acabará forçosamente por concluir que a descida do desemprego foi ainda mais notável do que os valores brutos fornecidos pelo INE.

Obviamente, é sempre possível comparar os valores do terceiro trimestre com os de qualquer outro período. É possível comparar com o período anterior e com o período homólogo. E também é possível contrastar com o segundo trimestre de 2012, com o primeiro trimestre de 2010 ou até com quarto trimestre de 2009. Em termos abstratos, não há qualquer restrição ao termo de comparação apropriado. Tudo depende da pergunta que está a ser colocada.

Por exemplo, a generalidade das críticas à “comparação em cadeia” tende a basear-se na ideia de que a queda do desemprego no terceiro trimestre, de 16,4 para 15,6%, é enganadora por fazer tábua rasa da degradação que se registou no período anterior. Uma comparação homóloga, por outro lado, põe em esta recuperação em perspectiva e mostra que, por muito bons que sejam estes números, eles mal chegam para ultrapassar o disparar da taxa de desemprego entre o terceiro trimestre de 2012 e o primeiro trimestre de 2013.

Mas se a ideia é contextualizar estes números, até faria mais sentido comparar com algum dos trimestres de 2008, antes de a crise do subprime afectar Portugal. E aí a comparação não deixa dúvidas: mesmo depois das últimas boas notícias a taxa de desemprego continua 7 ou 8 pontos percentuais acima do que se verificava por essa altura. Mas, sinceramente, que a situação é trágica e que as chagas da crise vão ficar connosco durante muito tempo parece-me pacífico e consensual. É mesmo isto que está em discussão?

Por outro lado, se o objectivo é aferir o ponto de inflexão da taxa de desemprego (isto é, o ponto em que esta deixa de subir e passa a descer), a comparação em cadeia é o único critério aceitável. Quando é que a taxa de desemprego cai? A taxa de desemprego cai quando cai, e não quando está mais baixa do que no mesmo período do ano anterior.

O exemplo seguinte pode ajudar a ilustrar este absurdo. Imagine-se um indivíduo que a partir de Janeiro, e até Dezembro, ganha sucessivamente dois quilos por mês. E a partir de Janeiro do mês seguinte inicia uma dieta que o vai fazer perder os mesmos dois quilos a cada mês. Como é óbvio, a sua perda de peso começa precisamente em Janeiro do segundo ano. E não faria qualquer sentido dizer que ele continua a engordar até Abril do segundo ano, apenas porque nessa altura continua “mais pesado do que no período homólogo”. Claro que está. Mas isso não significa que não esteja a emagrecer.

Suponha-se agora que no quarto trimestre a taxa de desemprego acaba por subir de 15,6 para 16,6%. A comparação em cadeia daria conta de uma subida de 1 ponto percentual, uma das mais altas da história recente. Mas a comparação homóloga contaria uma história muito diferente: o simples facto de o termo de comparação ser agora diferente faria com que a taxa de desemprego estivesse a recuar 0,4% em termos homólogos – ainda mais do que o que se verifica no terceiro trimestre.

Julgo que a generalidade das pessoas, comunicação social e comentadores diria, e bem, que a taxa de desemprego tinha subido – independentemente de continuar mais baixa do que no período homólogo. Isto parece-me tão óbvio e trivial que acho genuinamente estranho que tanta gente tenha achado normal dizer que não houve recuperação do mercado laboral. Olhar para o trimestre homólogo faz todo o sentido para pôr o que vemos em perspectiva; desde que isso não nos impeça de ver o que está à frente dos olhos.

One comment on “Comparações homólogas versus comparações trimestrais

  1. “Em termos abstratos, não há qualquer restrição ao termo de comparação apropriado. Tudo depende da pergunta que está a ser colocada.”

    Se a pergunta tiver a ver com testar a teoria da “espiral recessiva” (cortes → queda do PIB → menos receita fiscal e mais despesa social → o deficit pouco melhora ou até se agrava → mais cortes → mais queda do PIB), a comparação homóloga faz mais sentido, já que as vagas de cortes tendem a ser anuais (em cada orçamento), logo a queda profetizada também deverá ser de ano para ano (sendo compatível com movimentos do PIB para cima – ou para baixo – de mês para mês dentro de cada exercício orçamental)

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