Quão irrealista é o cenário macroeconómico

Houve alguma estranheza em relação ao cenário macroeconómico traçado no Orçamento do Estado de 2014. O OE prevê medidas de consolidação orçamental no valor de 2,3% do PIB e antecipa, ainda assim, um crescimento económico de 0,8%.

Mesmo assumindo um multiplicador muito conservador, na casa dos 0,6, o pacote de consolidação orçamental tem um impacto de 1,4 pontos percentuais do Produto. Reconheça-se que é pouco credível que a economia crescesse 2,2% na ausência de austeridade adicional. Quão irrealista é o cenário macroeconómico?

A resposta é que tudo depende da persistência dos efeitos do multiplicador. A generalidade dos estudos (como este, feito pelo Banco de Portugal) assume que o impacto da consolidação orçamental tende a desvanecer-se à medida que o tempo passa – o que cria, por si só, uma “pressão latente” para o crescimento. À medida que os pacotes de austeridade se somam, estas tensões acumulam-se e o crescimento económico torna-se praticamente inevitável.

Isto significa que, para avaliar o impacto da consolidação no crescimento, não podemos apenas aplicar um multiplicador ao pacote de austeridade previsto para o ano em curso. É necessário levar em conta o efeito de reversão dos pacotes de austeridade anteriormente aplicados.

Note-se que a dissipação dos efeitos nefastos da consolidação não significa que o PIB retorne à sua tendência ‘pré-crise’. Significa apenas que uma parte da contracção é revertida após o momento inicial do choque, da mesma forma que um balão de ar imerso na água tende a voltar à tona uma vez que deixa de se exercer pressão. E esta reversão traduz-se como crescimento ‘induzido’ pela consolidação.

Um pequeno exercício permite perceber melhor esta ideia. O quadro de baixo assume que o PIB cresce ‘naturalmente’ a uma taxa de 0,5% ao ano, e que é posteriormente afectado pelos vários pacotes de consolidação orçamental a que a economia portuguesa foi (ou está a ser) sujeita – assumindo aqui um multiplicador de 1. Na previsão 1, o efeito negativo da austeridade é persistente; na previsão 2, os efeitos são parcialmente revertidos (20% ao ano, durante quatro anos – ou seja, apenas 80% dos efeitos são anulados). Tudo isto contrastado com os valores efectivos (para 2014, o ‘valor efectivo’ é a previsão do Orçamento).

zz

O modelo não faz previsões especialmente acertadas*, nem é esse o seu objectivo. O propósito é apenas mostrar como a incorporação de uma das conclusões mais pacíficas no estudo dos multiplicadores – isto é, reversibilidade dos efeitos – conduz a previsões significativamente diferentes das que se extraem da aplicação simples de efeitos negativos do lado da procura. Sobretudo nos anos mais avançados do processo de consolidação, quando estes efeitos são mais óbvios.

Será que o modelo de previsão utilizado pelo Ministério das Finanças leva em conta estes factores? Provavelmente, não. Mas é provável que estes factores já se tenham ‘infiltrado’ no PIB ao longo de 2013 (recorde-se o crescimento robusto do terceiro trimestre). Se for este caso, basta que o modelo incorpore o crescimento de 2013 para poder integrar, ainda que de forma indirecta, os efeitos de ‘reversão dos multiplicadores’. E sob este prisma, a previsão não é tão irrealista como parece à primeira vista.

* Entre 2011 e 2013 houve ganhos de quota significativos nas exportações. Se estes efeitos forem eliminados, o modelo faz previsões um pouco melhores. Mas não é óbvio que se deva fazer este ajustamento, porque é possível que uma parte da ‘reversão’ dos efeitos da austeridade se deva precisamente à desvalorização do câmbio real e, portanto, a um aumento de quota de mercado. Eliminar este efeito seria, potencialmente, uma forma de dupla contabilização.

Anúncios

3 comments on “Quão irrealista é o cenário macroeconómico

  1. Joao diz:

    Exactamente, este ponto e crucial. E nao deixa de ter a sua ironia, porque os adversarios da austeridade que defendiam que os multiplicadores em tempos de crise sao muito maiores deviam, para serem coerentes, estar agora entre os mais optimistas quanto a recuperacao.

    Mas ha outras razoes para estar optimista quanto ao cenario macro, ate mais optimista que o governo. Primeiro, o processo de desalavancagem das familias e empresas comeca a dar sinais de estar na recta final. O consumo estabilizou, o desemprego esta em queda ligeira, as ofertas de emprego aumentaram muito significativamente nos ultimos 6 meses e as taxas no credito bancario estao a baixar. Segundo, a procura externa, nomeadamente na zona euro, esta a recuperar. Estes factores indicam que a economia tera a partir de agora mais capacidade para responder a cortes na despesa publica. Ou seja, que os multiplicadores serao agora mais baixos.

    A combinacao de multiplicadores mais baixos para os cortes actuais e uma recuperacao causada pela reversao dos efeitos da consolidacao ja feita podem produzir para o ano uma recuperacao acima das expectativas.

    Gostar

  2. Sim, a principal implicação deste raciocínio (relativamente ao qual eu tenho algumas dúvidas…) é que 2015 será um ano de crescimento anormalmente elevado.

    A questão da procura externa é muito importante, porque a maioria das pessoas não tem noção de que os bons resultados das exportações de 2012-2013 foram conseguidos num contexto de contracção da procura externa relevante (o que deve ser algo nunca visto na história das recuperações económicas de Porugal). Basta uma retoma moderada da procura externa para que o crescimento via exportações possa dar um contributo muito significativo. As circunstâncias dos últimos anos foram extraordinárias (austeridade, fragmentação financeira e desalavancagem generalizada na Europa) e acho que, uma vez dissipados estes factores, que são por natureza transitórios, tornar-se-á mais claro que o futuro é mais risonho do que parece.

    Gostar

  3. Joao diz:

    A proposito das perspectivas de recuperacao, ha um dado que eu gosto particularmente de seguir, que e a evolucao das ofertas de emprego. O aumento do desemprego nesta crise, como e tipico, resultou muito mais de uma reducao das ofertas do que de um aumento das separacoes, e sera tambem por via das ofertas que o desemprego havera de baixar. Acompanhar as ofertas e portanto um bom indicador avancado para a evolucao do desemprego. Alem disso, para as ofertas registadas nos centros de emprego, estes dados sao publicados mensalmente pouco depois da conclusao de cada mes, o que nos da uma visao quase em tempo real. Olhando para os dados recentes, por exemplo, e visivel um aumento significativo das ofertas ao longo deste ano, bastante em linha com a recuperacao da economia no 2o trimestre e sugerindo tambem um bom desempenho no 3o. Ver pag 3 do relatorio do IEFP:
    http://www.iefp.pt/estatisticas/MercadoEmprego/InformacaoMensal/Documents/2013/Inf.%20Mensal%20SETEMBRO%202013.pdf

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s