Inflação atinge os 6%

Calma, não é essa inflação. A inflação medida pelo Eurostat está mesmo abaixo da meta, a rondar 0s 0,5%. E com tendência para descer – pelo menos se olharmos para onde devemos olhar, que é para a core inflation.

Mas se perguntarem a um europeu qual é a sua percepção, então 6% é provavelmente a resposta que vão obter. A Comissão Europeia fez um estudo acerca de percepções e realidade, e concluiu que, apesar de não passaram completamente ao lado dos preços que pagam nas lojas, os europeus avaliam a inflação em níveis sistematicamente acima dos valores registados nos dados oficiais.

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Em média, a diferença entre a percepção e realidade atinge os 3,6 pontos percentuais (p.p.). Mas há vários países onde a discrepância pode aproximar-se dos 10 p.p., o que torna as coisas mais engraçadas (e, já agora, também torna algo inconsequente o trabalho de quem se dedica a construir modelos em que o consumo das famílias depende em boa medida da inflação esperada, como é comum nos deste género).

Outra coisa curiosa é que apesar de os consumidores não serem aparentemente muito bons a monitorizar os preços que pagam, eles parecem conseguir aperceber-se de mudanças no nível da taxa de inflação: quando a inflação cai, as suas percepções de inflação também baixam; e quando a inflação sobe, as suas percepções sobem – mesmo que, neste jogo do gato e do rato, elas continuem sempre mais altas do que os valores reportados pelo Eurostat.

Notem também que o enviesamento – a diferença entre as linhas azul escura e amarela – tem vindo a diminuir ao longo do tempo. Os europeus erram, mas erram cada vez menos.

Isto é consistente com uma série de estudos que começaram a aparecer como cogumelos nos últimos anos (aqui e aqui, por exemplo), e que sugerem que o compromisso dos bancos centrais com metas de inflação claras e definidas tem contribuído para ancorar e estabilizar as expectativas em torno dos targets anunciados. Sim, é um bocado “duh”; mas tendo em conta a quantidade de hipóteses que em economia são assumidas por serem plausíveis, em vez de aceites por terem sido testadas…

A Comissão Europeia também desagrega os resultados por várias ‘classes’, o que permite ter um olhar mais fino. Uma das conclusões que se pode extrair é que as pessoas com mais instrução dão respostas mais próximas do valor ‘correcto’ da inflação. Isto também não é surpreendente – embora resulte menos do facto de estarem mais atentas ao que compram, e mais do facto de lerem jornais e saberem que há uma meta de 2%, e que o BCE tem falhado  essa meta.

Menos esperado, diria eu, são as diferenças nas respostas registadas entre… homens e mulheres. Pelos vistos, o sexo feminino percepciona uma inflação mais alta do que o sexo masculino.

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Diferentes processos cognitivos? Ou apenas uma desculpa para ir aos saldos? Further research is warranted.

 

 

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3 comments on “Inflação atinge os 6%

  1. “e, já agora, também torna algo inconsequente o trabalho de quem se dedica a construir modelos em que o consumo das famílias depende em boa medida da inflação esperada, como é comum nos deste género”… “Outra coisa curiosa é que apesar de os consumidores não serem aparentemente muito bons a monitorizar os preços que pagam, eles parecem conseguir aperceber-se de mudanças no nível da taxa de inflação”

    Suspeito que a segunda observação anula a primeira; isto é, um modelo em que os consumidores têm uma noção exata da inflação, e um modelo em que a inflação percebida pelos consumidores seja uma função quase linear da verdadeira inflação não terão praticamente as mesmas propriedades, pelo que formalizar ou estimar um é formalizar ou estimar o outro?

    Agora, pegando tanto na diferença entre escalões educacionais como entre sexos, dá-me a ideia que, quanto maior a influência da experiencia pessoal de fazer compras na estimativa da inflação, maior esta é (provavelmente os homens vão menos às compras e por isso recorrem mais aos números oficiais para responder à pergunta).

    Duas explicações que me ocorrem:

    a) uma subida de preços fica mais na memória de que uma descida

    b) as pessoas normais, quando lhes pedem par estimar uma taxa de inflação, olham só para os bens em que tal é possível sem fazer cálculos matemáticos complexos, ou seja os bens que são iguais ao longo dos anos; assim, toda a deflação embutida no progresso técnico perde-se

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    • Depende. Acho que há mecanismos económicos que funcionam bem mesmo que as pessoas apenas se apercebam de variações da inflação, passando ao lado do seu nível. O efeito da taxa de juro no consumo parece-me um desses casos. Noutros casos acho que não é muito fácil imaginar que as duas coisas sejam indiferentes. Por exemplo, há modelos em que o nível de preços está ‘atado’ pela massa monetária em circulação, esperando-se que as famílias vejam essa massa nos números macroeconómicos e, sabendo que essa massa é injectada de forma permanente, antecipem automaticamente inflação mais alta no futuro. Este tipo de coisa exige um tipo de observação e raciocínio que estão muito longe de ser ver nestes inquéritos.

      Quanto ao segundo ponto, também já pensei se não haveria aqui algum bias relacionado com ajustamentos de qualidade. A minha experiência pessoal diz-me que não: a maioria das pessoas queixa-se sempre dos preços das coisas que compra com frequência, como alimentação ou gasolina. Itens duradouros passam melhor debaixo do radar. Mas claro, é só um palpite.

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  2. Leo diz:

    Podera ser “pessimismo inercial”? Isto e, as pessoas acham sempre que os precos subiram mais do que realmente subiram, porque se estao a “queixar”. Nesse sentido sera melhor verificar se as tendencias estao alinhadas – como estao.

    No entanto, creio que o nivel da diferenca podera ser perigoso a mesma.
    Se eu pensar (mesmo que erradamente) que a inflacao e de 6%, poderei estar a consumir menos que o optimo, para uma inflacao “certa” de 1%. Ou pelo menos, se os niveis entre inflacao percebida, e inflacao real forem muito diferentes, os efeitos da politica economica poderao ser… diferentes do esperado.

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