Inflação a subir. Ou a descer?

A inflação está a subir na Zona Euro. O Eurostat divulgou dados esta semana e ficámos a saber que entre Setembro e Outubro a inflação relevante (HIPC) acelerou de 0,4 para 0,5%.

Poucas pessoas embandeiraram em arco, porque 0,5% ainda está longe, muito longe, da meta dos 2%. Mas, no geral, o tom foi de consolação: estamos longe, mas estamos a aproximar-nos. E o que conta é a tendência. O i, por exemplo, escreve que:

Os números revelados ontem são (sic) proporcionando um pequeno conforto para o Banco Central Europeu (BCE), que tem uma preocupação permanente com a inflação muito baixa no bloco dos países que partilham a moeda única.

Mas seria muito sinal se o BCE se sentisse reconfortado com estes números. Isso significaria que está mais preocupado com a avaliação que os observadores desatentos fazem do seu trabalho do que com o cumprimento escrupuloso e efectivo do seu mandato.

Digo isto porque o mandato do BCE é colocar a inflação nos 2% no médio prazo. O objectivo não é atingir esta meta à boleia de factores temporários, como uma subida do IVA, alteração de preços administrados ou oscilações no preço das commodities, porque todos estes factores são por natureza temporários – e, uma vez desvanecido o choque inicial, deixam de exercer influência sobre a inflação, ‘puxando-a’ para baixo.

Ou seja, o BCE deve garantir uma inflação sustentadamente em torno dos 2%, de maneira a ancorar as expectativas dos agentes económicos em torno desta meta. E para avaliar esta ancoragem deve-se olhar não para a inflação headline mas para a inflação core, que põe de parte os factores mais voláteis e com menos inércia, como é o caso da energia. E essa métrica, disponível no site do BCE, não é especialmente animadora.

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A inflação que aparece nos noticiários é a inflação a azul, que está em torno dos 0,5% e a subir. Mas a inflação que o BCE deve levar em conta nas decisões de política monetária é a inflação amarela, que está abaixo dos 1% e a descer.

Claro que o BCE sabe isto muito bem. Contudo, não convém subestimar a influência que o lado negro da força ainda pode exercer sobre Draghi. Neste momento temos o Bundesbank a pedir o fim dos estímulos monetários na Zona Euro, o ministro das Finanças alemão a dizer que não há problemas de procura na Europa e o resto a olhar de queixo caído e a perguntar o que é que se passa com esta gente. Até já há quem encare isto do ponto de vista sociológico).

O confronto de ideias está a ser vencido, com uma coligação cada vez maior a defender que é preciso fazer alguma coisa diferente.  Mas das ideias à política vai uma enorme distância. Até ela ser encurtada não convém dar munições ao adversário.

P.S.- Uma curiosidade: foi precisamente o foco do BCE na inflação headline, ignorando os sinais que vinham da inflação subjacente, que provocou a precipitada – e rapidamente invertida – subida de juros em 2011. Na altura até houve um debate engraçado sobre isso (adivinhem quem ganhou).

 

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