Apesar da insistência, os robôs teimam em não querer roubar empregos

O que é que os robôs e a tecnologia estão a fazer aos empregos no século XXI? Este tem sido um dos debates mais recorrentes entre economistas nos últimos tempos (e por vezes até neste blogue). Mostrando que está atento ao que se passa à sua volta, o BCE deu destaque ao tema no último Fórum de banqueiros centrais, em Sintra, onde foi apresentado um paper de David Autor e Anna Salomons acerca da questão.

E a resposta dos autores – um dos quais, by the way, é um dos gigantes da moderna economia empírica – é… Bom, nada de especial.

Ok, em bom rigor o paper (são 70 páginas; se tiverem pressa podem só ler a apresentação) não aborda directamente a questão da robotização, mas sim o tema mais lato do crescimento da produtividade, no qual a robotização é apenas uma influência. Autor analisou 19 países ao longo de quatro décadas e tentou perceber em que medida é que a produtividade influencia o emprego. O objectivo era descobrir se a inovação, que faz com que seja cada vez mais fácil produzir mais bens e serviços com menos pessoas, tende, a prazo, a criar uma massa cada vez maior de desempregados depauperados, como está subentendido em toda a história do Robots are coming for your job.

E não, não é esse o caso. Na verdade, se alguma coisa os dados sugerem é exactamente o fenómeno contrário: uma ligação positiva (e inesperada, diria eu) entre produtividade e emprego. Isto acontece porque, apesar de o aumento de produtividade numa determinada indústria reduzir o volume de postos de trabalho nessa mesma indústria (sendo cada trabalhador mais produtivo, são necessários menos trabalhadores para assegurar um determinado volume de produção), essa destruição é contrabalançada por criação de empregos noutras indústrias, que mais do que compensa o choque inicial.

Os canais de transmissão através dos quais este efeitos de reequilíbrio podem operar são variados e o paper fornece evidência preliminar a favor de alguns deles, mas esta é apenas uma nota de rodapé dentro de um trabalho de fôlego que tem um âmbito mais lato. Deste ponto de vista, as conclusões limitam-se a confirmar a intuição clássica e corroboram o pensamento convencional em economia. David Ricardo poderia ter esboçado uma resposta semelhante no século XIX.

In brief, over the 35+ years of data that we study, we find that productivity growth has been employment-augmenting rather than employment-reducing; that is, it has not threatened employment (…) This strong finding emerges despite robust evidence that industries experiencing rising labor productivity exhibit falling employment. The reason that industry-level productivity growth typically raises net employment is because productivity growth in each sector — particularly in services — generates employment growth spillovers elsewhere in the economy. These spillovers are sufficiently large that they more than offset employment losses in industries making rapid productivity gains. Individually, we estimate that both the employment-reducing and employment-increasing effects of productivity growth are economically sizable: however, their net effect makes for a rather modest positive impact of productivity growth on employment. These same results hold whether our productivity measure is output per worker, value-added per worker, or sectoral level productivity. Moreover, we confirm that these results hold not just for employment but for final consumption, meaning that productivity growth leads to a significant output response that appears to offset its direct employment-reducing effect. This highlights that final demand increases and inter-industry output linkages play an important role in countervailing the task-replacing effects of technological change (…) Our findings support a prosaic neoclassical story in which both labor supply and final demand for goods and services jointly determine the level of employment, and where the key driver of both forces is the population of consumer-workers.

Há algumas qualificações. Há sempre algumas qualificações. Mas que não são novas nem inesperadas. Pelo contrário, são as nuances que conhecemos há muito tempo: a tecnologia aumenta o bolo, mas pode operar uma alteração radical na forma como as várias fatias são repartidas entre as várias pessoas à volta da mesa.

Despite the relative neutrality of productivity growth for aggregate labor demand, we estimate that this same force has been non-neutral for labor demand across skill groups. Rapid productivity growth in primary and secondary industrieshas generated a substantial reallocation of workers into tertiary service activities, both in high skill-intensive services (e.g., health, education, finance) and in low skill-intensive services (e.g., food service, cleaning, hospitality). Because these sectors have a comparatively bimodal skill distribution of employment — with a disproportionate share of employment in either high- or loweducation jobs —  the expansion of services relative to other sectors has tended to favor high- and low-skill workers at the expense of middle-skill workers. Productivity growth has therefore contributed indirectly to the well-known phenomenon of employment polarization.

A outra qualificação importante é que a relação virtuosa entre produtividade e emprego parece ter perdido alguma força desde 2000 para cá. Autor estima elasticidades emprego-produtividade por década e conclui que os coeficientes no período de 2000 em diante se tornaram ligeiramente negativos. Na verdade, o valor é tão curto que para todos os efeitos não é estatisticamente significativo, está praticamente ao mesmo nível da década de 80 e o próprio Autor não lhe atribui grande importância. Mas como aparece no estudo, e não quero fazer cherry-picking, aqui vai a imagem e o comentário.

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We note this development without drawing a strong conclusion since it may be transitory, especially considering the unusual economic conditions leading up to the global financial crisis at the end of 2007 (which is also the last year of our data). Indeed, the 1980s exhibited the second weakest productivity-employment relationship of the four decades in our sample, and it was followed immediately by the decade of the 1990s that exhibited the strongest net productivity-employment relationship. These observations underscore that the positive relationship between productivity and employment appears to fluctuate over time, as both the distribution of productivity growth across sectors and its employment elasticities may change over time. Our analysis does not shed light on why these fluctuations occur.

O paper de Autor é um trabalho impecável de um economista de topo. E gostei imenso de o ler, o que é raro acontecer com um paper desta dimensão. Mas por vezes pergunto-me se não estaremos a desperdiçar recursos intelectuais escassos a combater batalhas fantasma.

Afinal de contas, para lá de todo o burburinho com origem em Sillicon Valley e propagado pelas Wired desta vida acerca dos futuros apocalípticos que a robotização vai trazer, onde está exactamente a mais pequena evidência de que este é um problema de relevo? Toda a evidência histórica sugere que a tecnologia tem um efeito nulo no emprego a longo prazo, uma conclusão que tem eco nos dados demográficos e nos dados em painel (os países mais robotizados – Alemanha, EUA, Japão – são exactamente aqueles em que o desemprego é mais baixo). A teoria também não é simpática para a ideia da pauperização do trabalho e os estudos de âmbito mais microeconómico não costumam encontrar efeitos visíveis da tecnologia nos volumes de emprego (mesmo que por vezes sejam apresentados ao público de forma diferente).

Como se não bastasse, todas as séries macroeconómicas mostram que este é um período de reduzida inovação tecnológica e escasso crescimento da produtividade. O problema desta obsessão, por isso, começa logo na premissa. Estamos todos preocupados com a possibilidade de os robôs descerem a colina para nos roubar o emprego, mas quando olhamos lá para cima só vemos um descampado cada vez mais árido. É como se o Sporting estivesse preocupado com a enorme quantidade de campeonatos que tem vencido nos últimos 20 anos, porque “qualquer dia a sala de troféus não tem espaço para mais”.  Isto está errado de tantas formas que uma pessoa nem sabe bem por onde começar.

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3 comments on “Apesar da insistência, os robôs teimam em não querer roubar empregos

  1. O paper é muito interessante sem dúvida! Mas porquê ignorar a co-autora do paper? Pelo que vejo o paper foi escrito por Autor and Salomons e não só por Autor… Seria justo nomear os dois autores.

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