Inflação: de volta à estaca zero?

É engraçado como estas coisas funcionam de forma assimétrica. Há uns tempos, o Eurostat divulgou que a inflação headline atingiu a meta do BCE (2%) e não houve jornal que não fizesse um splash com o inevitável “preços atingem meta do BCE”. Mas agora o Eurostat divulga estes números e quase ninguém dá por ela.

E isto é incompreensível, porque aquilo que o Eurostat nos diz agora é muito, muito mais relevante do que aquilo que nos disse em Fevereiro, quando a variação do índice de preços supostamente “atingiu a sua meta”. Em Fevereiro, o IPC acelerou para um nível transitoriamente elevado, devido à subida do preço dos combustíveis, desvio temporário que o BCE podia ignorar (como de facto ignorou). No mês de Março, por outro lado, a inflação core abrandou e anulou praticamente toda a convergência para o objectivo que tinha sido feita nos meses anteriores.

Uma imagem talvez ajude a explicar. Na última reunião do BCE, Mario Draghi retirou do seu discurso algumas das notas mais cautelosas que apareciam nos meses anteriores. Não deu indicações em relação à retirada de estímulos, mas deixou cair a referência aos riscos de deflação. Parte deste “moderado optimismo” resulta provavelmente da descida continuada do desemprego europeu nos últimos meses. Mas também, e sobretudo, do facto de esta descida ser acompanhada da subida da inflação subjacente.

Esta subida é lenta e bem miudinha. Mas se juntarmos a esperança à falta de rigor quase conseguimos desenhar uma tendência. E concluir que, se esta tendência se mantiver, o BCE consegue atingir a sua meta lá para o início de 2019.

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O facto de a inflação subjacente ter agora recuado para 0,7% traz o BCE de volta à casa de partida. De um mês para o outro, a inflação ‘engoliu’ todas as subidas dos últimos cinco meses – que eram, já agora, as únicas subidas que havia na Zona Euro desde o início de 2015, quando o BCE anunciou o programa de Quantitative Easing. Para todos os efeitos, podemos dizer que a inflação subjacente está solidamente ancorada “perto, mas abaixo”… dos 1%.

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Talvez não esteja, claro – mas pelo menos é aspecto que a coisa tem, e é com base nesta informação  pública que o BCE devia tomar decisões, e não com base em receios infundados ou histórias da carochinha.

E isto leva-nos às circunstâncias particulares em que actua a política monetária neste momento, que parecem ter gerado uma involuntária (e potencialmente trágica) aliança entre dois sócios inesperados. Por um lado, os responsáveis políticos do centro europeu, que vivem em estado pânico permanente com a possibilidade de o BCE se deixar capturar pelos países do Sul e transformar a Zona Euro numa espécie de Zimbabué. E, por outro lado, os próprios media da periferia europeia, que na ânsia de poderem finalmente dar notícias relevantes acerca de política monetária bombardeiam mensalmente o presidente do BCE com perguntas acerca da retirada de estímulos, e dão um palco desproporcionado a todos aqueles que sugerem que esse dia pode estar mais próximo do que se pensa.

O resultado é a criação de um ambiente intelectual em que toda a gente vê uma inversão de marcha do BCE mesmo ao virar da esquina, criando fantasmas onde eles não existem. E obrigando o próprio BCE a despender boa parte do seu tempo a desfazer mal-entendidos, em vez de se dedicar a fazer aquilo que está mandatado para fazer: tudo aquilo que for preciso para que a inflação fique perto, e não “uns pontitos abaixo”, dos 2%.

 

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