Meter as mãos na massa

Há uns anos comecei a brincar com simuladores de dívida pública. A minha primeira experiência constava do menu habitual: três variáveis exógenas (saldo primário, taxa de juro e crescimento do PIB) que se combinavam entre si para produzir um caminho dinâmico para a dívida pública. Mas o modelo rapidamente cresceu até se tornar num enorme Frankenstein, com juros endógenos, multiplicadores variáveis, prémios de risco e curvas de Phillips pelo meio. A versão final tinha mais de 15 inputs, e permitia gerar dinâmicas muito interessantes.

Além do mais, era divertido. O problema é que, apesar de poder falar sobre as lições que extraí do uso desses modelos, não tinha forma de ajudar o leitor a fazer o mesmo tipo de aprendizagem acompanhada. Por muito engraçado que seja ver as simulações de terceiros, há poucas coisas que substituam a experiência de operar um simulador com as próprias mãos.

O programa Fronteiras XXI, feito pela FFMS e pela RTP, deu-me a possibilidade de fazer uma versão pública desta ferramenta. Está aqui, para quem tiver interesse.

O modelo segue as regras convencionais, mas inclui duas extras que não costumam estar disponíveis: permite ao utilizador incluir (ou ignorar) os custos de longo prazo do envelhecimento da população e dá-lhe a possibilidade de fazer variar o multiplicador da consolidação orçamental. Esta opção permite, por exemplo, perceber em que medida é que as previsões podem sair furadas se quem está ao leme do Ministério das Finanças tiver uma ideia errada do impacto que a consolidação das contas tem na economia – um tópico que há uns anos gerou uma pequena guerra na academia.

Se quiserem uma leitura guiada do simulador, também podem seguir para o blogue da FFMS, onde deixei umas pistas para os curiosos. Boas leituras.

 

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11 comments on “Meter as mãos na massa

  1. unabomber diz:

    Caro Pedro:
    Parece-me que ao considerar o PIB Real (e não o nominal)falta a taxa de inflação nos cálculos do seu simulador.

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  2. jvgama diz:

    A versão dos 15 inputs é que era, eheheh.

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  3. Jose Mendes diz:

    Acho que a fórmula está bastante errada . deveria ser

    ΔDPt = DPt-1 * i – g – SPt

    pelo que com essas taxas, a dívida sobe sempre. Nunca baixa…

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    • Jose, a fórmula usada é a fórmula standard, de qualquer exercício deste tipo. (Aliás, os resultados são rigorosamente os mesmos que pode encontrar nas simulações do CFP, por exemplo).

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      • Jose Mendes diz:

        Podemos verificar ambas fórmulas aplicando a valores nominais para ver se dá certo. Por exemplo começando com 100 de Pib e 132 de Dívida em 2016.
        g só se aplica ao PIB e não à Dívida. daí a diferença de fórmula.

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  4. Jose Mendes diz:

    com i=3,30%,g =1,70%,spt=1,80%
    tem em 2017 : I (Juros Nominais))=4,356, SPT=1,831 , PIB=101,700
    Ou seja Dívida = 132+ 4,356-1,831= 134,525
    Dívida /PIB =1,322766962 em vez de 1.32 em 2016.

    Ou enganei-me algures?
    Que números obtem mesmo ?

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  5. Jose Mendes diz:

    O cenário acima implica que só com um saldo primário superior a 4,28% se diminuiria a dívida . Certo ? Estamos muito longe disso.

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    • Jose, penso que o problema foi ter omitido a inflação. Se reparar, o ‘g’ da minha fórmula é o crescimento nominal, e não o crescimento real. Na prática, ao seu ‘g’ de 1,7 terá de acrescentar, em todos os anos, cerca de 2 de inflação. E aí já obterá os meus valores.

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  6. Jose Mendes diz:

    “Grosso modo”, enquanto houver défice orçamental não se consegue diminuir a dívida. Só com Excedente.

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  7. Jose Mendes diz:

    Fico disponível para toda a ajuda que desejem e que eu possa fornecer.

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