Investimento Público: uma comparação alternativa

Um dos exemplos mais engraçados da relevância da Economia Comportamental (sigam o link se não conhecem, e depois vão a correr ler isto) é o regime de subscrições da Economist.

Economist tem – ou tinha, há uns anos – três opções de assinatura: a) assinatura on-line por 59$; b) assinatura da versão impressa por 125$; e c) assinatura de ambas as versões por 125$. O que parece estranho, porque ninguém no seu perfeito juízo preferiria pagar 125$ para ter a versão impressa quando pode ter o pacote completo pelo mesmo montante. O que é a opção b) está ali a fazer? Será a Economist assim tão cega que não perceba que ninguém vai escolher esta opção?

A resposta é: não, a Economist não é cega. Mas explora muito bem a cegueira cognitiva dos seus clientes.

O princípio parece funcionar assim. Quando tomamos decisões de compra comparamos a qualidade do bem com o respectivo preço. Mas nem sempre é fácil avaliar bem essa qualidade, e é ainda mais difícil decidir os pesos relativos que os dois critérios vão ter na decisão final. Será que este casaco vale mesmo os 50€ que a loja me pede por ele? A microeconomia parte do pressuposto de que o consumidor compara a utilidade marginal do casaco com a utilidade marginal de todos os outros bens disponíveis ao mesmo preço, mas todos sabemos que esta não é a melhor descrição do comportamento de quem está nas compras.

Um atalho útil seguido pelo nosso cérebro é criar rapidamente ‘alvos de comparação’ e utilizá-los como pontos de referência. Posso não saber muito bem se este casaco vale 50€, mas se ao lado houver outros casacos a custar 200€, a tentação imediata é achar que ele é barato. E é para isso que a opção b) da Economist é disponibilizada. Não é que alguém a vá escolher. Simplesmente a opção fornece uma âncora que torna opção c) relativamente mais apetecível. Este é um subproduto do fenómeno mais vasto de ancoragem, que tem uma série de aplicações em marketing e comunicação.

E lembrei-me disto quando descobri que:

O Investimento Público vai crescer 22% em 2017 (…) O ministro do Planeamento e das Infra-estruturas, Pedro Marques, garantiu esta terça-feira, 18 de Outubro, que o investimento público vai aumentar no próximo ano em 750 milhões de euros face à execução estimada em 2016.

Isto é verdade e bate certo com o que está no OE 2017; mas não é nada óbvio que a execução de 2016 seja o melhor termo de comparação. Afinal de contas, em 2016 o Investimento Público (IP) deve ficar bem abaixo do orçamentado – e o valor orçamentado já era, ele próprio, o mais baixo de sempre.

O ano de 2016 é como a opção inerte da Economist: está ali tão à mão que se torna inevitável usá-lo como âncora. Eu sugiro que resistamos a esta tentação e façamos comparações alternativas, provavelmente significativas do que esta.

Por exemplo, o IP deve ficar 22% acima do valor de 2016, mas apenas 14% acima do que estava no Orçamento de 2016 (linha vermelha em baixo). Ou seja, uma boa parte desta enorme variação não tem muito a ver com ‘novos planos’, mas sim com o facto de os planos de 2016 não terem sido todos concretizados, o que cria um forte efeito base e empola a variação subsequente. Na verdade, até desconfio que alguma da subida nominal é na verdade investimento que, por ter ficado por realizar em 2016, é agora concretizado no exercício seguinte – mas não convém complicar ainda mais a coisa.

aerd

Ah, e se a comparação for feita tendo como referência o ano de 2015, então o IP até cai ligeiramente, como se vê na imagem.

Não quero sobrecarregar muito este ponto. Subir é melhor do que descer, e se a margem orçamental só permite esta subida, não há muito que se possa fazer. Dá para escrever um post a recomendar o excelente livro do Daniel Kahneman, e pouco mais.

Em todo o caso, serve para reforçar uma lição mais geral. Que convém sempre ter noção das proporções quando se discutem números orçamentais, sobretudo quando há efeitos base tão fortes e oscilações tão grandes de ano para ano. Neste contexto, ‘crescer 22%’ não quer necessariamente dizer grande coisa. E, na dúvida, podem sempre dar um passo atrás e tentar pôr as coisas em perspectiva.

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2 comments on “Investimento Público: uma comparação alternativa

  1. Leo diz:

    Nao sei bem se os dados comparaveis – bem, pelo menos sao diferentes, mas pelo que o Eurostat diz, esta tendencia nao e exclusiva a Portugal?

    http://ec.europa.eu/eurostat/tgm/table.do?tab=table&init=1&language=en&pcode=teina210&plugin=1

    Gostar

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