Juros baixos, juros baixos até perder de vista

O World Economic Outlook de Outubro está aí, e a julgar pelo que li o Departamento de Investigação não se ressentiu da saída de Blanchard. O WEO continua tão útil e rigoroso como nos últimos anos, e tem – para além das habituais previsões macroeconómicas – um interessantíssimo estudo acerca da desinflação em curso nas economias avançadas: Global desinflation in an era of constrained monetary policy.

Não vou resumir aqui o estudo, que já inclui um sumário executivo muito completo para os mais preguiçosos. Mas queria dar nota de um gráfico impressionante, que compila as expectativas de mercado relativamente às taxas directoras dos principais bancos centrais e que mostra… bom, que mostra isto:

1 O primeiro quadro mostra a revisão das expectativas de mercado em relação ao comportamento da Reserva Federal. Em Setembro de 2013, o consenso apontava para a normalização rápida da Fed funds rate entre 2015 e 2016. Hoje, o mercado espera uma subida muito mais suave – apesar de a própria Fed anunciar que a coisa vai ser mais brusca  -, com a taxa directora a subir meio ponto percentual ao longo dos próximos três anos.

O segundo quadro compõe o ramalhete com as perspectivas actuais para as taxas do Bank of England e do BCE. O mercado espera que estas taxas de juro – negativas na Zona Euro e nos 0.25% no Reino Unido se mantenham a este nível até ao final da década.

Agora parem um pouco para pensar o que significa isto. Mesmo com a inflação baixa, entre 0,5 e 1,5%, estes valores representam taxas de juro reais negativas. Numa situação normal, taxas desta ordem de magnitude deveriam dar um impulso estrondoso ao investimento. Será assim tão difícil encontrar projectos que passem numa análise de custo-benefício em que a taxa de referência é negativa1? Mas qualquer pessoa que não tenha passado os últimos quatro anos em Marte sabe que prática, neste caso, não está a ser simpática para teoria.

E isto faz-me pensar no que dizia o Antonio Fatas há uns meses, num daqueles posts que o pessoal da macroeconomia devia mesmo, mesmo, mesmo ir ler. O post aborda as taxas de juro cobradas a soberanos, mas a ideia também é válida para as expectativas do mercado em relação às taxas directoras.

When 30 or even 50 year interest rates are negative or close to zero something is not right. Either this is the end of growth as we know it or the start of a 30-year period of extremely low inflation combined with deflation or our expectations are seriously off and we are up for an interesting surprise.

1 E sim, eu sei que a taxa directora não é igual à taxa de mercado cobrada à maioria das empresas, mas o princípio qualitativo é semelhante. E, nalguns casos (Alemanha, por exemplo), a questão é a mesma até em termos quantitativos: a taxa de juro real relevante é negativa.
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2 comments on “Juros baixos, juros baixos até perder de vista

  1. João Neto diz:

    Existe um factor que é pouco considerado pela Economia mainstream, seja neoliberal, seja keynesiana, que é a questão da disponibilidade energética (net energy). Se assumirmos que a quantidade de energia disponível está a descer — o que podemos argumentar se é verdade ou não, mas creio haver fortes evidências a favor desta asserção — não será o comportamento que descreve no post um sintoma esperado?

    Para haver crescimento sustentado é preciso que exista energia para investir em capital novo. Se a energia disponível está a ser praticamente toda usada para manter o status quo — e uma progressiva percentagem desta serve para manter a própria industria energética dado que os EROI dos combustíveis fósseis continuam a decrescer –, é normal que os estímulos simplesmente não funcionem.

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  2. “Se assumirmos que a quantidade de energia disponível está a descer — o que podemos argumentar se é verdade ou não, mas creio haver fortes evidências a favor desta asserção”

    As principais fontes de energia (petróleo, gás, solar, não sei se também o carvão…) estão a ficar mais baratas cada dia que passa.

    E a “disponibilidade energética” está (ainda que de forma implicita) mais que incluída na economia convencional, em que se assume a tal “função produção” em que entra o trabalho, o capital, os recursos naturais e a tecnologia e sai o produto (e que na versão mais histórica, à David Ricardo, com crescimento populacional, sem progresso tecnológico e com uma quantidade limitada de recursos naturais, a economia tende para um estado estacionário, em que os trabalhadores e capitalistas empobrecem e os proprietários de recursos naturais enriquecem – na Inglaterra de Ricardo isso equivaleria mais ou menos a whigs contra tories) – a “disponilidade energética” pode ser vista como uma subcomponente dos recursos naturais (eventualmente com também alguma tecnologia à mistura).

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