Programa do PS: o modelo e o PIB (II)

No post anterior levantei algumas questões de pormenor sobre a quantificação, exequibilidade e implementação de certas medidas do programa do PS. Vamos esquecer essas questões de momento e colocar outra pergunta. Assumindo que estas dúvidas não têm razão de ser, até que ponto é expectável que as medidas tenham os resultados que afirmam ter?

Esta parte já é mais complicada. Como é que se refuta ou confirma um modelo? O ideal seria lançar mão do melhor modelo no mercado (idealmente seria o PESSOA do Banco de Portugal), “descarregar” as medidas do PS, rodar a manivela e ver se o que saía de lá era mais ou menos parecido com o que aparece no cenário do PS.

Claramente, isto não é possível. Mas podemos fazer um exercício diferente. Por exemplo, podemos utilizar um modelo mais rudimentar da economia para calcular o impacto das medidas, e depois alterar alguns dos parâmetros-chave do modelo (mantendo-os sempre dentro dos limites da plausibilidade) para obter uma gama de resultados. Como é óbvio, isto não permite dar uma resposta retumbante, definitiva e categórica à questão. Mas permite pelo menos perceber se os resultados do PS caem dentro ou fora deste leque de outputs plausíveis.

O exercício que faço de seguida baseia-se no uso de multiplicadores, e é consideravelmente simples. Primeiro, obtém-se uma medida da orientação da política orçamental – neste caso, o impacto mecânico (e acumulado) das medidas no saldo orçamental. De seguida, aplica-se um multiplicador a este impulso inicial, que é assim convertido em “euros de actividade económica” (a preços constantes). Finalmente, adiciona-se este resultado ao PIB previsto num cenário base. O resultado é um novo perfil para o Produto Interno Bruto, do qual se podem extrair as “novas” taxas de crescimento (o FMI tem uma nota técnica a explicar o processo).

Isto é – presumo – infinitamente – mais simples do que terá sido feito no cenário macro. Mas tem duas vantagens.

Em primeiro lugar, é um método fácil de aplicar, simples de comunicar e que não exige muita informação. Em segundo lugar, temos imensa evidência empírica e simulações teóricas acerca dos multiplicadores “plausíveis” para a economia portuguesa. Não sabemos ao certo qual é “o” multiplicador, mas sabemos que em tempos de crise dificilmente será menos do que 0.5 e que valores acima de 2 são claramente exagerados. Qualquer coisa que caia fora deste leque de multiplicadores tem todo o aspecto de ser banha da cobra.

Vamos às contas. Eu usei o documento do PS para depurar o impacto orçamental directo (ou “mecânico”) de cada medida, fazendo apenas dois ou três ajustamentos de pormenor1. De seguida, apliquei-lhes vários multiplicadores2. E somei o resultado ao baseline do PIB da Comissão Europeia. O que permitiu chegar a este gráfico, que junta a projecção do PS a projecções minhas usando diferentes multiplicadores.

Post 2 - gráfico 1

O PIB calculado pelo PS caminha alegremente entre os outros PIB’s simulados durante os primeiros anos. Até aí, tudo. Mas a partir de 2017 arranca violentamente, e chega a 2018 com mais volume do que o PIB que seria obtido numa situação de multiplicadores de 1.5.

Esclarecido? Claro que não. Vamos fazer outra coisa, evitando a confusão de linhas da imagem anterior. Esta é apenas uma forma diferente de ilustrar o mesmo ponto: começo por partir do PIB simulado pelo PS, comparo-o com o estímulo orçamental e extraio daqui os “multiplicadores implícitos” que estão “contidos” no estudo de impacto financeiro. .

Post 2 - gráfico 2

O resultado é este: o multiplicador é relativamente modesto no primeiro ano (cada € gasto traduz-se em 0.8€ de PIB adicional) mas cresce a partir daí, atingindo os 1.6 no último ano da simulação. Não sendo inconcebível, um multiplicador desta ordem é muito elevado, e começa a aproximar-se daquela zona em que uma pessoa razoável deve começar a torcer um pouco o nariz. Mesmo que haja aqui – como há certamente – efeitos supply side  que transcendem os habituais canais keyesianos3, este não é um resultado trivial.

A título de exemplo, deixo em baixo o resultado de um estudo do Banco de Portugal (que usa precisamente o PESSOA) em que se calculam multiplicadores para a economia portuguesa em tempos de crise (altos) e em tempos normais (moderados).

Post 2 - Gráfico 3

Notem como, em três das quatro variáveis consideradas, o multiplicador raramente excede a unidade. E sim, no caso do consumo público o multiplicador varia entre 1.2 e 2 – mas este efeito dissipa-se rapidamente no tempo, ao ponto de o multiplicador relevante ser de apenas 0.3 no terceiro ano.

Nem todos os estudos têm resultados deste género. Estudos mais empíricos (como este – página 7, também do Banco de Portugal) sugerem que o efeito dos estímulos pode ser bastante persistente (o multiplicador é alto mesmo “no último ano”). Mas mesmo neste caso os multiplicadores dificilmente se aproximam dos números que parecem estar implícitos no exercício do grupo de Centeno.

1 Os ajustamentos foram os seguintes. Considerei que a medida “consignação de IRC” não tem impacto económico, uma vez que se trata de mera reafectação de receita. Considerei também que o impacto positivo de 150M€ da medida “criação de centros de competência” é na verdade um impacto negativo de -150M€. Penso que em ambos os casos terá sido este o entendimento de Centeno & companhia, mesmo que não apareça nos quadros (explico porquê no post anterior).
2 Usei multiplicadores de 0.5, 0.7, 1 e 1.5. Usei também um multiplicador “variável”, em que o impacto das medidas é máximo no primeiro ano (1.5), decaindo progressivamente à medida que os anos passam e atingindo 0.5 no último período.
3 O canal keynesiano é a história habitual do fluxo circular de rendimento (maior rendimento disponível causa maior procura, que por sua vez aumenta o emprego e o rendimento, com este efeito a ser parcialmente contrariado pelo impacto da maior procura de moeda na taxa de juro). Os canais supply side são mecanismos como o aumento de capital da economia, maior competição e redução de preços no sector transacionável, etc.
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