Programa do PS: o modelo e o emprego (III)

Este post tenta fazer para o emprego o que o post anterior fez para o PIB: perceber quão plausíveis são resultados previstos pelo estudo de impacto financeiro do programa do PS.

Habitualmente, considera-se que a evolução do mercado laboral é em boa medida determinada pelo comportamento da actividade económica – isto é, o PIB. Por isso, podemos começar por abordar a questão fazendo a pergunta: qual é a relação entre o crescimento do PIB e crescimento do emprego previstos pelo PS?

Se fizermos algumas contas chegamos à conclusão de que o modelo do PS assume (não necessariamente de forma explícita) que cada ponto percentual de crescimento económico se traduz em cerca de 0.5-0.6 pontos de crescimento do emprego. Isto é muito? Ou é pouco? O melhor é fazermos o mesmo exercício para as projecções da Comissão Europeia e contrastar os resultados.

Post 3 - Gráfico 1

As diferenças são óbvias. Por exemplo, para um crescimento de 1% do PIB o PS assume que haverá um aumento do emprego de 0.5/0.6%, ao passo que a Comissão estima um crescimento muito mais modesto, na casa dos 0.4-0.2%.

A previsão da Comissão também apresenta uma propriedade curiosa: prevê que esta relação (PIB-emprego) se esbata ao longo do tempo. O que pode resultar de uma aceleração da produtividade ou ser apenas um subproduto da crença de que a taxa natural de desemprego portuguesa será superior a 10% (ver secção 1.3. NAWRU), “impedindo” o crescimento de se traduzir em mais postos de trabalho.

Em todo o caso, as implicações destas diferenças são grandes. Segundo o cenário do PS, as medidas previstas permitem gerar 208 mil empregos adicionais. Mas este valor só é alcançável utilizando a relação PIB-emprego de 0.5-0.6. Porque se usarmos a relação empregue pela Comissão Europeia o mesmo crescimento prometido pelo PS permite criar apenas… 50 mil postos de trabalho. Não é coisa pouca.

Mas não será que é a Comissão Europeia quem está a ver mal as coisas? Vamos tentar outra abordagem. O que fiz no gráfico seguinte é estimar uma relação histórica entre o PIB e o emprego para o período 1995-2009. A azul aparecem os anos incluídos na regressão; a verde aparecem os anos 2010-2013; a vermelho aparece 2014. E a cor de rosa aparecem os pares PIB-emprego apregoados pelo PS1.

Post 3 - Gráfico 2

Sob este prisma, as coisas ficam um pouco diferentes. Aparentemente, a relação PIB-emprego usada pelo PS nas suas simulações não foge muito à regra histórica, com os quatro anos de projecção a ficarem consideravelmente perto da recta do gráfico. Eles ficam sistematicamente acima dela, mas a diferença não parece ser muito grande. Optimismo? Talvez. Mas pouco.

Porquê então a divergência face à Comissão? A resposta simples é que a Comissão Europeia – cujas previsões ficaram de fora do gráfico para o tornar minimamente legível – usa relações PIB-emprego que estão numa posição inversa à do PS – ou seja, rácios que também estão perto da recta mas sistematicamente abaixo dela.

Isto exacerba as diferenças entre ambas. Mas oculta um facto importante: pelo menos à vista desarmada, e sem fazer contas mais elaboradas, os pressupostos do PS e da Comissão parecem igualmente plausíveis. Simplesmente situam-se em polos diferentes dentro da gama de resultados “aceitáveis”.

Isto não significa que a meta dos 200 mil empregos seja realista. Esta meta assenta não apenas numa determinada relação PIB-emprego mas também numa certa previsão para o PIB. Se esta previsão for – como parece ser – bastante optimista, acabará inevitavelmente por afectar a previsão para a criação de emprego. Por exemplo, basta que o multiplicador relevante seja de 0.8 em vez de 1.6 para que a criação de emprego passe de 200 mil para um valor entre os 25 e os 100 mil (dependendo da relação PIB-emprego que considerarmos).

1 Porquê estimar apenas o período 1995-2009? Porque a partir de 2010 a relação histórica quebrou-se, com o emprego a cair sucessivamente mais do que seria esperado tendo em conta a dimensão da recessão, como se vê pelos pontos assinalados a verde (o puzzle do emprego que tanta investigação suscitou). Mas isto não parece ter muito de estrutural, porque em 2014 a retoma foi acompanhada de um movimento de sentido contrário, com um tímido crescimento a dar origem a um enorme aumento do volume de emprego (ponto vermelho). Aliás, esta é a minha explicação favorita para a descida tão rápida da taxa de desemprego: uma simples correcção de bizarrias passadas (ver aqui e aqui).
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