Em comentário por e-mail, um leitor pergunta por que razão tem a economia “desprezado de forma gritante os problemas associados à desigualdade”. E sugere que se devotem mais recursos à investigação neste âmbito e menos “às áreas mais estéreis e ideológicas da macroeconomia”. Esta crítica faria algum sentido há alguns anos. Neste momento, e tendo em conta a importância que o tema tem vindo a ganhar, parece-me desactualizada. Em baixo seguem algumas referências.
Sobre os problemas individuais associados à desigualdade há imensa literatura relevante. Em 2009, o livro The Spirit Level chamou a atenção para alguns destes problemas. A obra foi sujeita a intensa crítica e as suas principais conclusões devem ser lidas com algum cepticismo, mas a bibliografia referida fornece algumas pistas perceber em que medida a desigualdade pode ser corrosiva.
No âmbito da Economia Comportamental, um campo promissor que insiste em experiências laboratoriais, há vários estudos a confirmar os efeitos nefastos da desigualdade. Também é possível utilizar técnicas econométricas para apurar indirectamente estes efeitos – veja-se este estudo engenhoso de Bruno Frey, por exemplo.
Nos últimos anos tem havido também um interesse crescente na compreensão das razões subjacentes ao crescimento da desigualdade. Há o estudo clássico de Katz e Goldin, de 2007, que aponta para o efeito conjugado de desenvolvimento tecnológico ‘enviesado’ e fracas melhorias do sistema educativo (The race betwwen education and tecnhology). Esta é considerada uma das principais explicações, juntamente com a globalização e alterações de política fiscal e regulação laboral e financeira – a OCDE fez a melhor compilação que conheço em Divided we stand, um longo relatório acerca do tema.
Mais recentemente, vários académicos têm tentado ir além das causas e efeitos individuais e colocaram a hipótese de a desigualdade poder ter efeitos no próprio crescimento económico. O antigo economista-chefe do FMI avançou esta possibilidade em Fault Lines (livro do ano de 2010 para o FT) e Michael Kumhof, formalizou esta hipótese através da criação de um modelo económico. A ideia básica é que a desigualdade gera pressões no sentido da acumulação de dívida, que acabam por desaguar numa grande crise financeira. Mecanismos mais ortodoxos através dos quais a desigualdade pode afectar o crescimento são elencados num óptimo relatório de Jared Bernstein.
Finalmente, a investigação neste campo tem sido impulsionada pela excelente base de dados de Thomas Piketty e Emmanuel Saez, The Top Incomes Database. E este interesse, por sua vez, levou a OCDE a compilar também números neste campo. A OECD Income Distribution Database é um recurso valioso para quem quiser perceber as dinâmicas da desigualdade. P.S.- Estas são apenas as referências que conheço. Quem tiver contributos adicionais poderá deixá-los na caixa de comentários.
A ideia que eu tenho é de que a questão da igualdade/desigualdade até tem sido se calhar o assunto mais discutido em Economia nos últimos 150 anos.
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Presumo que não lhe tenha escapado um artigo publicado recentemente no FT – Capitalism: In search of balance – de John Gasper. Como não o vejo referido, mas porque me parece ter algum interesse, resumo o propósito de J Gasper: contraditar o discurso/exortação do Papa Francisco que acusou o capitalismo de encorajar a idolatria do dinheiro e o crescimento da desigualdade no mundo. Defende Gasper que “conquanto tenha aumentado a desigualdade nas sociedades mais desenvolvidas a desigualdade a nível global foi reduzida”.
Por mérito do capitalismo, segundo Jasper.
“Cada um o que quer prova”, afirmava J Guimarães Rosa, pela boca do sertanejo.
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Os efeitos perniciosos da desigualdade são locais ou globais? Essa é a verdadeira questão. Se forem globais, diminuição da desigualdade global (em troca de aumento de desigualdade local em TODAS as sociedades, tal como está a ocorrer) pode até ser benéfico. Se (como temo) os efeitos são sentidos prioritariamente localmente, diminuição da desigualdade global não pode compensar isso.
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A correcção entre os aumentos de rendimento do grupo dos mais ricos e a redução de outros grupos intriga-me. Que respostas haverá para que sem perturbar o crescimento podermos actuar para eliminar essa disparidade e corrigi-la com vantagem. As politicas de impostos Holanda/França sendo um exemplo penso que terá como consequencia o efeito contrario ao da justiça desejada.
As verbas que B.Gates& Co entrega à fundação e subtrai aos burocartas das finanças têm um efeito multiplicador no bem estar dos cidadãos que me merece nota positiva. Que outros caminhos deviamos seguir?
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