O extraordinário mundo dos organismos europeus

Em Setembro de 2014, Mario Draghi anunciou a intenção do BCE de alargar o arsenal de medidas de política monetária para ‘reflacionar’ a Zona Euro. O discurso tinha, porém, algumas partes mais sinistras, entre as quais a ideia de que o activismo do banco central seria ineficaz caso não fosse devidamente apoiado por reformas estruturais.

A verdade é que as reformas estruturais estão habitualmente associadas a uma inflação mais baixa, e não mais alta – pelo que o conselho, se levado à letra, poderia acabar por reforçar, em vez de combater, as pressões deflacionistas em curso. Na altura, muita gente notou que o rei ia nu (embora provavelmente houvesse boas razões para isso).

Entretanto, a Comissão Europeia tratou de estudar o assunto de forma mais rigorosa. Em Structural Reforms at the Zero Lower Bound, os economistas da Comissão analisam o impacto das reformas estruturais num cenário de taxa de juro zero e concluem que:

The policy implication of the analysis is that recent warnings of adverse effects from structural reforms at the current juncture appear to overemphasise potential short-term costs. While it is certainly true that an accommodative monetary policy stance would facilitate the adjustment in “normal times”, reforms at the ZLB do not appear to imply significant short-term costs in terms of aggregate economic activity. Furthermore, the results also suggest that, even in the case of fully credible pre-commitment, postponing reforms is no better alternative.

A conclusão resulta, aparentemente, da simulação do impacto macroeconómico que teria a redução de um ponto percentual do ‘mark up’ do sector não transaccionável (na prática, um ‘aumento de concorrência’ com efeito nos preços).

Sem Título

A tabela expressa resultados em ‘desvios’ face ao cenário base. Por exemplo, uma reforma estrutural semelhante à que é modelizada faria com que o PIB dentro de 10 anos fosse 0,57 pontos percentuais superior ao que seria no ‘cenário sem reformas’. (E pode não ser completamente óbvio à primeira vista, mas um ‘menos’ antes do número reportado significa mesmo um valor negativo.)

Há algo de perturbador em tudo isto. O discurso oficial do BCE é que a política monetária só funciona com reformas estruturais, uma bizarria macroeconómica que não me recordo de alguma vez ter visto noutro lado. Os estudos conhecidos não só não suportam essa ideia como até indicam que, no curto prazo, o impacto económico destas reformas, a existir, será tendencialmente negativo no PIB (ver a primeira coluna); e que, a longo prazo, acabariam por acentuar a descida dos preços – precisamente o problema que se está a tentar evitar (ver última linha, do ‘GDP deflator’).

Este não é propriamente o tipo de estudo que os partidários das reformas estruturais deveriam ter interesse em difundir. Mas, por alguma razão difícil de compreender, parece que uma contracção do PIB no primeiro ano e uma inflação permanentemente mais baixa daí em diante são razões suficientes para concordar com o BCE na tese da ‘indispensabilidade das reformas’. Dá vontade de citar Paul Krugman: “To see this as a triumph of structural reform requires preconceptions so strong it’s hard to see why you would even bother looking at data”.

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4 comments on “O extraordinário mundo dos organismos europeus

  1. cristof9 diz:

    O programa Targeted Long Term Repo Operations que anda a ser discutido poderá trazer novidades de peso na zona euro. Para o cidadão comum noto pouca informação atempada e por vezes deturpada. Ainda não entendi se por ignorância se por outros interesses mais “elevados”.

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  2. Joao diz:

    Chamar reformas estruturais a uma diminuicao de markups e muito redutor e tem pouco a ver com o que, por exemplo, se exigiu a Portugal com o memorando (reformas laborais, reformas na justica, reducao da despesa publica, etc).
    As reformas podem ser complementares com a politica monetaria se promoverem o investimento. Em todo o caso, parece-me provavel que essa declaracao do BCE tivesse apenas o objectivo politico de agradar aos alemaes, ao mesmo tempo que se anunciava uma politica monetaria que os alemaes (irracionalmente) nao querem.

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  3. “O discurso oficial do BCE é que a política monetária só funciona com reformas estruturais, uma bizarria macroeconómica que não me recordo de alguma vez ter visto noutro lado. ”

    O raciocínio poderá ser “a economia europeia já está perto do produto potencial, logo políticas expansionistas não funcionarão; a menos que se aumente também o produto potencial, o que implica as tais reformas”

    Ou numa análise mais marxizante poderia ser algo como:

    “O desemprego é necessário para manter a subordinação dos empregados aos patrões; assim, uma política que leve à redução do desemprego pode pôr em causa os alicerces da vida civilizada, a menos que venha acompanhada de outras medidas que tenham um efeito oposto sobre o equilíbrio de poder entre empregados e patrões”

    [Não estou seguro que estas duas hipóteses não sejam simplesmente formas muito diferentes de dizer a mesma coisa.]

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  4. João,

    Sim, essa é a única explicação que encontro. Ou, citando, o Kevin O’Rourke: “Despite its nominal independence, the ECB is in fact the most politically constrained of the major central banks. If Draghi is going to push the ECB towards QE, and question the overall fiscal stance of the Eurozone, he has to come out with this sort of stuff from time to time, to appease the Germans”.

    Miguel,

    Em teoria, isso é possível. Na prática, a verdade é que o próprio BCE assume que o PIB está muito longe do PIB Potencial. (E seria motivo de chacota que tivesse uma opinião muito diferente).

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