Quanto pesa a emigração na descida do desemprego?

A taxa de desemprego desceu de 15,6 para 15,3% no último trimestre. O Negócios escrevia ontem que Emigração explica parte da queda do desemprego. O Económico faz hoje manchete com a notícia de que Emigração explica dois terços da descida do desemprego. O que é que a emigração explica de facto?

Os dois títulos chegam a esta conclusão de forma bastante simples. Contabilizam a descida do número de desempregados e ‘separam’ esta descida em duas componentes: a criação de empregos e a redução da população activa. Contas feitas, houve menos 96.000 desempregados, sendo que apenas um terço se converteu em aumento do emprego. De seguida, assume-se que os restantes desempregados foram absorvidos pela emigração.

É legítimo perguntar: a recuperação do mercado laboral é um mito (ou é, pelo menos, bastante mais dúbia do que é sugerido pelas headline figures)? Não. E é importante perceber porquê.

As conclusões de ambos os jornais resultam de uma análise homóloga, comparando o quarto trimestre de 2013 com o mesmo trimestre de 2012. Ao longo deste período a população activa teve de facto uma quebra impressionante – mas toda a quebra se concentra no primeiro trimestre de 2013, quando a taxa de desemprego estava a subir. O efeito população activa pode ter ajudado a mitigar esta subida, mas deu um contributo nulo para as três quedas subsequentes.

Sem Título

Uma forma diferente de ver esta questão. Em baixo apresento a diferença da taxa de desemprego desde que esta começou a descer (ou seja, desde o 2º trimestre) relativamente ao ‘pico’ atingido no primeiro trimestre de 2013. A variação acumulada da taxa é decomposta em dois factores: aumento do emprego e variação da população activa. A metodologia é exactamente a mesma do Negócios e do Económica. Só os resultados é que são diferentes.

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Por esta altura, o leitor poderá já estar confuso. E (compreensivelmente) irritado com o facto de toda esta disputa girar, em boa verdade, em torno de períodos de referência. Se estamos todos a olhar para os mesmos valores de emprego e desemprego, não deveria ser uma questão secundária o ponto temporal com o qual comparamos os dados actuais?

A resposta simples é um: «Sim, mas» (e a resposta longa está aqui). Se a taxa de desemprego cair durante vários trimestres sucessivos, tal acabará por se reflectir necessariamente numa queda da taxa de desemprego homóloga – só é mesmo preciso esperar mais tempo. A vantagem de comparações homólogas é que elas permitem eliminar movimentos ‘erráticos’ provocados por sazonalidade ou outros factores do género; a desvantagem é que novas tendências (como inversões de ciclo) só se tornam perceptíveis bastante depois de terem começado a ocorrer.

A este respeito, um exercício que pode ser interessante: se todas as variáveis laborais se mantiverem inalteradas no primeiro trimestre de 2014, então a mesma comparação homóloga feira pelo Diário Económico/Negócios concluirá que houve uma descida de 2,4 pontos percentuais da taxa de desemprego, que essa descida conduziu menos 125.000 desempregados e que a totalidade destes desempregados transitou para uma situação de emprego. E, entretanto, nem sinais de emigração.

Ou seja: a razão por que é incorrecto dizer que a recuperação do mercado laboral assenta na emigração é simples: porque a recuperação começou no segundo trimestre de 2012; mas a comparação homóloga ‘apanha’ um trimestre em que o mercado laboral não só não melhorou como até piorou bastante.

Uma forma um pouco diferente de olhar para a questão. Suponhamos que a população activa teria continuado a crescer em 2008-2013 ao mesmo ritmo que entre 2002 e 2007. Suponhamos ainda que toda esta população activa adicional fosse considerada desempregada. A taxa de desemprego seria, como é óbvio, muito mais alta. Qual seria o impacto desta ‘neutralização’ artificial do factor emigração no comportamento da taxa de desemprego? Não muito.

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Note-se que este cálculo fornece um caso extremo, porque assume, de forma obviamente irrealista, que i) a população activa teria crescido ao mesmo ritmo que no período 2002-2007; ii) que este ‘desaparecimento’ da população activa corresponde integralmente a emigração líquida, e não a questões demográficas; iii) que toda a população activa adicional estaria desempregada. Mesmo com todos estes pressupostos, a taxa de desemprego teria descido de forma considerável nos últimos trimestres. A emigração pode ter evitado uma subida mais pronunciada da taxa de desemprego antes, mas não é essa a explicação para a descida posterior.

Nota: A título de curiosidade, a projecção de crescimento da população activa deixa esta variável em 5.892 milhares de pessoas no final de 2013 – mais 500.000 pessoas do que o valor efectivamente registado.

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