Problemas de procura

O Inquérito de Conjuntura (IC) às empresas e famílias, publicado mensalmente pelo INE, é uma óptima ferramenta de análise da economia portuguesa. Mas a natureza subjectiva da informação publicada recomenda alguma cautela no tipo de conclusões que este Inquérito permite. Em particular, é preciso ter cuidado quando se utiliza o IC para argumentar, como tem vindo a ser feito, que a economia portuguesa passa por um problema de procura.

É verdade que a generalidade dos empresários, quando inquiridos relativamente aos maiores «obstáculos à produção», aponta par a procura. No último inquérito disponível, a percentagem ascendia a mais de 70%, com percentagens residuais nas restantes possibilidades (pessoal qualificado, maquinaria, crédito bancário, etc.).

Mas suponha-se agora que analisamos as mesmas respostas no ano de 2000, quando a taxa de desemprego estava em 4,5% e todos os indicadores macroeconómicos indiciavam um sobreaquecimento da economia. O que diziam os empresários portugueses na altura? Nada de muito diferente do que dizem hoje, como se vê na imagem de baixo. O padrão, de resto, é mesmo ao longo da década seguinte. A julgar pelo IC, a economia portuguesa tem vivido num estado crónico de procura deficiente.

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Estes resultados não deveriam ser surpreendentes. Mesmo uma economia sobreaquecida mantém permanente um determinado nível de criação e destruição de empresas, e é natural que as empresas que estão a ser expulsas do mercado culpem naturalmente a procura. Ao mesmo, a falta de procura é um constrangimento muito mais palpável do que a falta de qualificações dos trabalhadores, por exemplo. Há um bias claro no tipo de respostas que os empresários tenderão a fornecer a estes inquéritos.

Uma forma de contornar este bias é analisar um mesmo obstáculo ao longo do tempo, em vez de comparar os vários obstáculos num determinado momento (uma técnica bastante usada no domínio da ‘economia da felicidade’), porque é expectável que o enviesamento seja mais ou menos estável durante longos períodos. A imagem de baixo mostra a percentagem de empresários que culpam a ‘falta de procura’ como principal obstáculo à produção, associada a uma medida independente da escassez de procura.

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Há uma associação clara entre as duas variáveis, o que confirma a ideia inicial de que a procura é um problema grave (e que a evolução do primeiro indicador é um bom ‘proxy’ para a procura efectiva). Mas é importante ter consciência das limitações destes dados, sobretudo no que diz respeito a comparações entre obstáculos. Levar as respostas demasiado à letra obrigar-nos-ia a concluir que as taxas de juro praticadas pela banca junto das empresas – quase 3% superiores aos valores alemães – são um problema perfeitamente marginal. Como é óbvio, não são (ou não estaríamos a presenciar isto).

P.S.- Isto é menos irrelevante do que parece. Note-se que se o problema for apenas de procura, a cura será essencialmente orçamental (reduzir o grau de consolidação). Se o problema for de procura e bancário-financeiro, a opção de reduzir o grau de consolidação orçamental pode deixar de ser a melhor escolha, pelos efeitos que acabará eventualmente por ter na percepção da solvabilidade do Estado e na cadeia causal que esta acarreta ( ↑ taxas de juro -> ↑ custo de financiamento dos bancos nos mercados interbancários  -> ↑ taxas de juro cobradas às empresas).

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2 comments on “Problemas de procura

  1. Talvez as taxas de juro afectem sobretudo, não os empresários, mas os candidatos a empresários que não chegam a lançar a sua empresa porque os juros são muito altos; e, como não chegam a se tornar empresários, não fazem parte (suponho) do universo dos inquéritos de conjuntura.

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  2. Alt diz:

    O problema banco-financeiro só se resolve com uma união bancária a sério ou com uma reformulação profunda da banca portuguesa. Tudo o resto são cantigas para atenuar a realidade(paninhos quentes para evitar a cirurgia).
    Quanto aos candidatos a empresários, como alguém como eu que contacta diariamente com uma boa fatia destes, é preciso entender que a taxa de falhanço é muito elevada em países onde essa faceta é bastante comum(e.gUS) e que muitos só avançam quando se apercebem desses números(que eu falo sempre questão de os clarificar pois ser empresário não deve nunca ser moda) e mais ainda onde o falhanço tem conotações muito negativas(como o nosso, levando a que muitos desistam ao primeiro contacto com avaliação do estado da tecnologia, planos de negócios etc). Do contacto diário, o problema maior não são os juros, são essencialmente de mercado(a procura aqui e lá fora, muitos nem sequer sabem avaliar correctamente o mercado ou os potenciais clientes, baseiam-se em alegorias, muitas delas propagandeadas pelo Governo actual) e de financiamento para transferência de tecnologia(que deve ser feito com verdadeiro capital de risco que em Portugal é muito residual e de fraca qualidade avaliativa e não com bancos que andam “amarrados” a um deleveraging germânico cujo impacto está à vista de todos)

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