A importância da blogosfera

Blogosfera – um debate de diletantes ou um contributo válido para o policy making? Paul Krugman dá uma resposta especialmente inspirada (e inspiradora) em In praise of econnowonkery.

The overall effect is that we’re having a conversation in which issues get hashed over with a cycle time of months or even weeks, not the years characteristic of conventional academic discourse. Is that a problem?

OK, first point: many people seem to have a much-idealized vision of the academic process, in which wise and careful referees peer-review papers to make sure that they are rock-solid before they go out. In reality, while many referees do their best, many others have pet peeves and ideological biases that at best greatly delay the publication of important work and at worst make it almost impossible to publish in a refereed journal. Gans and Shepherd wrote about this almost 20 years ago, and the situation has surely not improved.

I’m told by younger colleagues, in particular, that anything bearing on the business cycle that has even a vaguely Keynesian feel can be counted on to encounter a very hostile reception; this creates some big problems of relevance for proper journal publication under current circumstances.

A second point is that events are moving fast, and the long lead times of conventional publication essentially guarantee that it will be irrelevant to current policy issues.

Still, all of this would be cold comfort if wonkblogging was just generating noise and confusion. But from where I sit, the reality has been just the opposite.

Look at one important recent case — no, not Reinhart/Rogoff, but Alesina/Ardagna on expansionary austerity. Now, as it happens the original A/A paper was circulated through relatively “proper” channels: released as an NBER working paper, then published in a conference volume, which means that it was at least lightly refereed. Proper science!

Except that it was all wrong. And how did we find out that it was all wrong? First through critiques posted at the Roosevelt Institute, then through detailed analysis of cases by the IMF. The wonkosphere was a much better,much more reliable source of knowledge than the proper academic literature.

And I would say that in general the quality of economic discussion we’ve been having in recent years is the best I’ve ever seen. Yes, there’s junk economics out there, but when was that not true? And yes, it can be hard for lay readers — or for that matter, it seems, quite a few people with heavy economic credentials — to tell the junk from the real insights; but again, when wasn’t that true? As far as real, insightful, useful discussion of matters economic is concerned, this is actually a golden age.

Of course, these useful insights have been largely ignored by policy makers. But once again, when was that not true?

So wonk on proudly. As Martha Stewart would say, it’s a good thing.

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8 comments on “A importância da blogosfera

  1. PP diz:

    Incluir na “blogosfera” o FMI e um esticanco, mas a questao e importante. Krugman exagera porque nao encontra neste momento na literatura academica argumentos para defender as suas posicoes. Entao agarra-se a erros em estudos que apontam no sentido contrario e da uma cambalhota digna de um politico da nossa praca: se os estudos dos meus adversarios estao errados, entao eu tenho razao. A verdade e mais desanimadora: nao ha consenso na literatura academica sobre este tema porque nao ha um conjunto de estudos convincentes que apontem claramente numa ou noutra direccao. A blogosfera, os policy institutes e o FMI avancam mais depressa, e bem, porque e preciso tomar decisoes pelo mundo fora. Mas nao substituem a acumulacao lenta de evidencia no meio academico, com erros, avancos e recuos. Krugman sabe isto muito bem, mas esta numa missao para salvar o mundo da austeridade, e os fins justificam os meios.

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  2. Caro PP,

    Penso que, neste caso concreto, a situação até é a inversa. O paper de Alesina-Ardagna era um dos poucos estudos que contrariavam a acumulação lenta de evidência no meio académico em torno de política orçamental, segundo a qual a redução do saldo orçamental é contraccionista. Neste sentido, a ‘velocidade de reacção’ das publicações do FMI, policy institutes e contributos ‘blogosféricos’ permitiram desconstruir a tese de uma maneira que não teria sido possível através dos processos mais típicos da academica (sobretudo numa academia em que os lags submissão-publicação são tão grandes).

    Obviamente, isto não substitui a produção académica: complementa-a. Mas não penso que Krugman tenha defendido outra coisa.

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  3. PP diz:

    Caro Pedro,

    Pode-me indicar as referencias dos artigos dos quais resulta esse consenso academico segundo o qual a reducao do saldo orcamental e contraccionista? Ou melhor ainda, ja que e essa a medida que Krugman advoga: artigos segundo os quais uma expansao orcamental produz recuperacao economica? Aviso: e melhor nao procurar antes de 1998. De acordo com o proprio Krugman, no seu paper sobre o Japao desse ano:

    “My point is that the end of the Depression, which is the usual, indeed perhaps the sole, motivating example for the view that a one-time fiscal stimulus can produce sustained recovery, does not actually appear to fit the story line too well. Much, though by no means all, of the recovery from that particular liquidity trap seems to have depended on inflation expectations that made real interest rates substantially negative.”

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  4. A Comissão Europeia publicou recentemente uma meta-análise em que compila
    estudos empíricos e simulações DSGE que tentam quantificar o impacto da política orçamental. Apesar dos multiplicadores específicos variaram bastante de estudo para estudo, penso que todos chegam à conclusão de que reduzir o défice dá um contributo negativo para o crescimento. O FMI fez uma meta-análise semelhante, que chega a conclusão similares. Mas veja por si mesmo:

    http://ec.europa.eu/economy_finance/publications/economic_paper/2012/pdf/ecp460_en.pdf

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  5. PP diz:

    Obrigado, vou ler.

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  6. PP diz:

    Nao me parece que se retire dessa meta-analise nenhum consenso, bem pelo contrario.

    Para comecar, o proprio estudo assim o diz:
    “The different estimates are far from conclusive in view of the marked differences across specifications and methodologies” (sobre multiplicadores da despesa)
    “Results are not conclusive as even differences in the sign of multipliers are observed” (sobre multiplicadores da receita)

    As estimativas do multiplicador de um aumento da despesa vao entre -0.6 e 1.9. De aumento de impostos entre -23.9 e 1.55. E nao sao indicados os intervalos de confianca. Nao podemos sequer exlcuir que uma reducao do defice diminui o crescimento. E ainda que excluamos esse cenario a enorme dispersao de estimativas nao nos diz grande coisa sobre a magnitude do multiplicador. Essa e que e a questao central, como o Pedro bem mostrou nas simulacoes que aqui partilhou recentemente. Sobre essa magnitude nao ha consenso academico, e Krugman esconde essa realidade atacando este ou aquele estudo, sem nunca apresentar os estudos em que ele proprio se sustenta. Alias, basta ver os argumentos bastante indirectos com que ele defende o estimulo orcamental aqui: http://krugman.blogs.nytimes.com/2011/10/11/why-believe-in-keynesian-models/

    Isto tudo aceitando como validas as metodologias seguidas nesta literatura, que deixam muito a desejar. Sobre esse tema lembro-me do seguinte paper:
    http://www.econ.ucdavis.edu/faculty/kdsalyer/LECTURES/Ecn200e/summers_illusion.pdf

    Por ultimo, ha como refere a meta-analise uma literatura recente que estima multiplicadores em tempos de crise, que podem ser maiores por varios argumentos teoricos, mas tambem ai nao ha consenso, como nota a coluna de Olivier Blanchard que o Pedro tambem partilhou recentemente.

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  7. Caro PP,

    Há que ter alguma cautela na forma como se emprega o termo “consenso”. O consenso ‘consensual’ é coisa que não existe, nem mesmo nas ciências mais duras. Se procurar o suficiente, há-de encontrar até quem ponha em causa a hipótese da selecção natural.como princípio explicativo da evolução das espécies (e neste caso concreto nem terá de procurar muito: só em solo nacional há pelo menos dois professores renomados a defender essa postura, segundo creio).

    A meta análise que referi inclui alguns estudos onde o aumento da despesa acaba de facto por reduzir o crescimento, mas é um estudo em 19. E estamos apenas a falar de estudos baseados em VAR, excluindo as simulações teóricas através de DSGE.

    Chamar-lhe consenso talvez seja abusivo, tendo em conta os crjtérios de exigência que são colocados a outras ciências; mas, em economia, isto é provavelmente o mais próximo que se pode chegar de alguma coisa remotamente assemelhada a um consenso. Colocadas as coisas assim, defender as conclusões de A-A argumentando que “Não há consenso” em torno dos multiplicadores é dar um contributo líquido para obscurecer, em vez de esclarecer, a substância da questão.

    Acho importante salientar que este ‘consenso’ em torno do sentido dos multiplicadores não existe, de facto, no que diz respeito à sua magnitude concreta. Mas julgo que esta questão mais específica já cai um pouco fora do âmbito do post do Krugman (e se quer a minha opinião particular, parece-me que há evidência de peso a comprovar a tese de Blanchard – novamente, não apenas o material empírico produzido nos últimos dois anos, mas também o material inspirado em raciocínio teórico – veja, por exemplo, Cristiano e Rebelo).

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  8. PP diz:

    Pedro, eu nao estou a falar sobre a versao “extrema” defendida por A-A de que a consolidacao e expansionista. Isto apesar de mesmo essa versao nao ser desacreditada pelos estudos citados – do lado da despesa sao 4 estudos em 20 que estimam valores negativos a medio prazo (1 a 3 anos), nao 1. Do lado da receita sao 6/18 a favor da consolidacao expansionista.

    O que eu vejo neste post de Krugman e uma desvalorizacao da investigacao academica na questao mais geral: qual e a politica orcamental correcta no actual contexto da crise? A-A e apenas o exemplo que ele usa. Para informar o debate nessa questao nao basta saber se o multiplicador e positivo, e preciso ter uma ideia da sua magnitude. E sobre essa questao basta olhar para a tabela de estimativas para se perceber que nao temos ideia nenhuma. 8 dos 20 estudos sobre a despesa apresentam valores menores ou iguais a 0,5. Com esses valores e dificil justificar uma politica expansionista.

    E esta a realidade que, na minha opiniao, Krugman esconde. Eu leio este post como dizendo: nao liguem ao que se passa na academia neste tema, liguem ao que esta a dizer o FMI. Isto convem-lhe porque o FMI cada vez mais advoga uma posicao que coincide com a dele. Isto e legitimo da parte do FMI, claro. O FMI tem de defender uma posicao independentemente de haver ou nao suporte empirico forte, porque tem de tomar decisoes. E ha bons argumentos para uma politica expansionista mesmo que nao saibamos muito sobre as suas consequencias. Mas basta comparar os textos de Blanchard e Krugman para ver que enquanto o primeiro reconhece claramente a falta de investigacao nesta area, apresenta os dois lados da questao e cita estudos contrarios as suas posicoes, o segundo nao faz nada disso. Krugman apresenta sistematicamente uma versao viciada desta discussao, e infelizmente acho que isto tem um efeito negativo sobre quem o le sem se aperceber disso. Este post foi para mim mais um exemplo. A campanha de descredibilizacao de RR e outro, e bem triste pelas consequencias que tem para a ciencia economica como um todo.

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