Salários, emprego e os ajustamentos de 81 e 2011

Comparar eventos semelhantes em diferentes períodos temporais é quase sempre um exercício arriscado. A comparação simples não é necessariamente má, mas fomenta uma atitude intelectual laxista que facilita a passagem directa da observação ingénua para conclusões “supostamente” sólidas. Ou, nas palavras de Simon Wren-Lewis, “these are the kind of arguments we use to persuade our students that they should take a course in econometrics”.

Tendo isto em conta, convém não dar demasiado crédito ao quadro que mostro de seguida. Apresento-o porque ele põe em evidência dois aspectos interessantes que, ilustrando ou não uma tendência mais geral, podem dar pistas interessantes a quem tiver tempo e paciência para se dedicar a estes assuntos.

O quadro compara os dois últimos processos de ajustamento da economia portuguesa – 1982/83 e 2010/13 – no que diz respeito a algumas das principais variáveis macro.

Sem Título

A variável-chave aqui são os salários. Os salários reais (aqui deflacionados pelo deflator do consumo privado) parecem ter caído mais no primeiro ajustamento do que no actual. Mas o consumo privado, que em princípio deveria seguir de perto a evolução daquela variável, teve um comportamento em contraciclo, chegando mesmo a crescer no primeiro período.

Não sendo o salário real a única variável que influencia o volume de compras das famílias, parece-me difícil argumentar que a estrutura do rendimento disponível familiar tenha divergido tanto em 30 anos que hoje a relação entre ambas as variáveis seja significativamente diferente da que vigorava nos anos 80.

A única explicação que me ocorre para dar alguma coerência a estes dados é pressupor que uma redução do salário real provocada pela desvalorização da moeda seja de facto menos visível do que uma redução imposta pela via nominal. E temos assim dois efeitos pelos quais o mecanismo cambial pode assegurar um ajustamento mais suave: primeiro, pela alteração preços relativos entre a produção nacional e a produção importada, promovendo a troca de um pelo outro; segundo, por mitigar o impacto que a redução salarial tem na procura interna efectiva – um feliz side effect da ilusão monetária, portanto.

O segundo dado importante do gráfico tem que ver com a relação entre salário real e emprego. Uma redução do salário real não implica necessariamente um aumento do Produto, como é explicado no Mainly Macro (Unemployment, wage flexibility and the Output Gap). Por outro lado, a flexibilidade pode permitir uma ‘partilha de fardos’ equitativa, se se traduzir um nível de emprego mais elevado.

Novamente, parece haver uma relação negativa entre evolução do salário real e desemprego. Aparentemente, o mecanismo cambial permite uma flexibilidade real que é muito difícil de emular através das variáveis nominais – e que se traduz em choques menores no mercado de trabalho. Por outro lado, um observador atento dirá, provavelmente com razão, que o simples facto de o mecanismo cambial aumentar o Produto real explica, por si mesmo (e sem necessidade de invocar questões ligadas à rentabilidade marginal do factor trabalho), a melhor evolução do mercado de trabalho na década de 80.

P.S.- Uma ressalva importante: o facto de não haver evidência de que Portugal tenha tido um problema de salários (1, 2 e 3) não implica, necessariamente, que não seja necessário cortá-los hoje. Este corte pode ser desejável para contrariar o choque de procura – ou amortecer o seu impacto no mercado de trabalho -, choque este que era inevitável depois de o financiamento externo ter ‘secado’ em 2011.

Não, os salários não estão a subir

O Diário Económico noticia hoje que empresas privadas estão a aumentar salários até 3%. Quem tem estado atento às notícias acerca do estado do mercado laboral não pode deixar de torcer o nariz a esta manchete, e levantar pelo menos algumas dúvidas em relação à forma como o jornal chegou a esta conclusão.

A metodologia, de facto, não é das mais felizes, e seguramente não justifica a importância que está implícita a uma primeira página. A jornalista contactou onze empresas/grupos e inquiriu os responsáveis relativamente às actualizações salariais negociadas (ou em negociação). O inquérito permitiu apurar que a Continental Mabor tenciona dar aumentos de 2,2%, a Renova fica-se pelos 1,5%, a Autoeuropa e EDP sobem até 1,6% e a GALP não ultrapassa os 0,5%. Três empresas afirmam que não dão aumentos (embora uma actualize os vencimentos inferiores a 600€) e outras três não avançam valores.

A média (não ponderada) das actualizações reportadas é de cerca de 1%, um valor consideravelmente mais baixo do que o chamariz da primeira página – e que está, de resto, em linha com os números de contratação colectiva que o Banco de Portugal reporta nas suas estatísticas (1,1%, no capítulo H.2.7). Mas há razões para crer que nenhum destes números traduz fielmente o que se passa de facto no mercado laboral.

Os valores da contratação colectiva referem-se apenas a actualizações salariais para contratos pré-existentes. As actualizações apenas podem ser um proxy útil para a totalidade da economia se se presumir que os novos contratos seguem um perfil semelhante aos dos mais antigos. Num mercado laboral como o português, em que a pressão do desemprego tende a acumular-se sobre quem está fora do mercado (outsiders) esta hipótese é pouco plausível.

Outro problema tem que ver com a abrangência do conceito de salário, que muitas vezes deixa de forma prémios, outros bónus ou compensações não pecuniárias (seguros de saúde, refeições, etc.). O quadro global só pode ser capturado se se passar de um conceito restrito de salário para o conceito abrangente de “compensação”, que inclui um conjunto mais vasto de benefícios do que apenas o vencimento mensal.

Tanto o Banco de Portugal (capítulo H.2.8) como o INE fornecem informação relevante para ultrapassar este problema – as remunerações médias declaradas à Segurança Social e as compensações por empregado por conta de outrém. Em ambos os casos se chega a uma variação média salarial bastante diferente de 3% (ou sequer de 1%).

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“Portugal Profundo”

O debate público em torno das alterações no IRS foi pobre e mal-informado. O imbróglio em torno da suposta falta de progressividade das novas tabelas ocupou demasiado tempo de antena. Um aspecto ainda mais relevante foi a divergência entre a ideia que as elites mostraram ter acerca da “classe média” e aquilo que a “classe média” é.

Os números do Instituto Nacional de Estatística (Inquérito ao Emprego, 3º trimestre), que são pouco permeáveis a percepções enviesadas, dão uma boa ideia do que é essa “classe média”. Todos os valores são em percentagem do total do emprego dependente.

Para memória futura: entre os trabalhadores assalariados, mais de 60% ganha menos de 900€. Quem ganha mais de 1.800€ está nos 5% mais “ricos” de Portugal. Estes valores são brutos. Em ambos os sentidos da palavra.

Os CUT vistos de perto

No post anterior, argumentei que os Custos Unitários do Trabalho são um indicador de valor analítico limitado. Em primeiro lugar, os CUT não são úteis para comparar salários com produtividade, porque deflacionam a produção sem aplicar o mesmo tratamento aos rendimentos do trabalho; em segundo lugar, os CUT não são um proxy perfeito para medir a evolução da competitividade externa, porque agregam a informação ao nível da economia completa, sem separar o sector transaccionável do sector não transaccionável.

Este post acrescenta mais alguns dados a esta discussão, concluindo com uma curiosidade que ainda não vi referida em nenhuma análise.

A narrativa oficial, recorde-se, estabelece uma relação entre a evolução dos CUT, competitividade externa e crescimento das exportações. Veja-se em baixo como Portugal tem sido um dos países a apresentar um crescimento das vendas ao exterior mais expressivo ao longo dos últimos dois anos.

A Troika afirma que esta evolução resulta do comporamento dos CUT, que apresento em baixo numa base trimestral (clicar para aumentar).

Os CUT não reflectem um grande crescimento da produtividade. O Eurostat revela que a produtividade tem crescido em linha com a média da Zona Euro. A descida dos CUT reflecte, por isso, redução das remunerações. De onde vem esta redução?

Ao contrário do que porventura se esperaria, esta redução vem do sector público. Para chegar a esta conclusão, fiz o seguinte exercício: a) comparar as remunerações das Administrações Públicas das Contas Nacionais com as remunerações das famílias, sector financeiro e empresas não financeiras da mesma fonte; b) dividir o agregado pelo número total de trabalhadores de cada subsector; c) utilizar o boletim do emprego público para extrair os números do emprego nas Administrações Públicas no primeiro trimestre de 2012; d) calcular taxas de variação homólogas.

A variação negativa das remunerações vem sobretudo do sector público, devido ao corte salarial médio de 5% em 2011. Estes números não reflectem a retenção dos subsídios a fazer em 2012. A divergência deverá, por isso, agravar-se. Daqui extraem-se três conclusões.

A primeira conclusão é a impressionante rigidez nominal da economia portuguesa. A subida da taxa de desemprego para valores acima dos 13% não parece estar a ter efeito nas negociações salariais do sector privado.

A segunda conclusão é que a descida dos CUT deverá ter muito pouco a ver com a melhoria das exportações, tendo em conta que ela reflecte sobretudo desenvolvimentos salariais num sector (Administrações Públicas) que nem sequer concorre no mercado internacional.

Uma terceira conclusão tem que ver com a protecção relativa de sectores. Ao contrário do que seria de esperar, é no sector público que as remunerações têm caído mais. É verdade que o funcionário público médio tem maior estabilidade laboral, o que, poderá argumentar-se, compensa este efeito; porém, mesmo a este nível parece que as coisas mudaram muito nos últimos dois anos.

A TSU, os salários e a produtividade

A polémica em torno da TSU permanece ao rubro. Mas o debate parece ter cristalizado em torno da seguinte questão: a alteração permite reduzir salários no sector exportador e assim ganhar quota de mercado?

Subjacente a esta ideia está um diagnóstico que é frequentemente repetido no discurso político e económico: que os salários em Portugal cresceram acima da produtividade. Este diagnóstico é, no mínimo, pouco preciso. Vejamos porquê, começando por analisar o indicador comummente utilizado para ‘provar’ este facto.

Nesta imagem é óbvia a divergência salarial entre a Alemanhe e a periferia. Há contudo duas razões para acreditar que este indicador não conta a estória toda.

Note-se, em primeiro lugar, que a diferença entre a periferia e a média da Zona Euro é inferior à diferença entre esta e a Alemanha, sugerindo que pode ser a Alemanha o outlier e o verdadeiro ‘corpo estranho’ a necessitar de explicação. No caso específico de Portugal, há razões para crer que estes custos possam estar até sobrestimados.

Em segundo lugar, os ULC são um índice que compara a evolução das remunerações nominais com o PIB real por trabalhador. Incorporam assim três elementos: remunerações, PIB e deflator do PIB. Qualquer uma destas componentes pode conduzir a uma subida dos ULC, não havendo, à partida, razões para atribuir esta subida ao rácio remunerações/PIB.

De facto, o ‘Wage share’ calculado pela Comissão Europeia mostra que, à excepção do caso irlandês, não houve variação relevante da fracção do PIB absorvida pelo factor trabalho.

A explicação para a subida dos ULC está, isso sim, na evolução dos preços (avaliados pelo deflator do PIB), que cresceram mais em Portugal do que na média da Zona Euro.

Para ilustrar isto, decompus a variação acumulada das remunerações em três componentes: a produtividade, o deflator do PIB e um resíduo que é a parte não explicada por nenhuma destas parcelas – e que, na prática, significa a variação da repartição do PIB entre trabalho e capital. Um valor positivo indica que o trabalho absorve mais produção sem que isso seja explicado pela produtividade e/ou pela subida dos preços.

Como se vê, os salários cresceram menos do que seria de esperar tendo em conta a produtividade e a subida dos preços. A este nível, a Alemanha é novamente o ‘outlier’.

Tendo em conta que a política monetária é apenas uma, é legítimo perguntar por que é que os preços subiram mais em Portugal do que no resto da Zona Euro – e, em particular, na Alemanha.

A resposta mais provável tem que ver com um choque de procura. Entre 2000 e 2010, a economia portuguesa, tal como a maioria das economias da periferia, estiveram expostas a um crescimento de procura que aumentou os seus preços e levou assim a subidas salariais para compensar este desequilíbrio. Tal como seria de esperar numa pequena economia aberta, a subida dos preços notou-se no sector dos bens não transaccionáveis.

Esta narrativa foi defendida por alguns economistas, como Campos e Cunha. A principal diferença face à ‘história oficial’ é que nega que haja um problema de competitividade em Portugal, pondo a tónica no crescimento excessivo da procura, que atrofiou o sector exportador e engordou em demasia o sector não transaccionável.

Esta questão é relevante para a questão da TSU, na medida em que lança luz sobre os canais através dos quais a medida pode, ou não, ter efeito.

Por exemplo, perdem relevância as afirmações recentes do sector industrial, segundo as quais a margem garantida pela descida da TSU será devolvida aos trabalhadores. Se os salários estão alinhados pela produtividade, e os preços cresceram em linha com os preços internacionais, este é o resultado expectável.

Pelo contrário, continua a ser importante monitorizar a evolução dos salários e preços nos serviços e construção, seja porque a) foi o crescimento relativo destes sectores, seja em termos de emprego, seja em termos de preço, que gerou o desequilíbrio; seja porque b) serviços e construção são inputs do sector industrial, que acabam por afectar o seu desempenho.

Finalmente, há que considerar um terceiro factor: o diferencial de salários que se foi construindo na última década entre os trabalhadores da indústria e os trabalhadores dos serviços. Diminuir este diferencial é mais importante do que baixar os salários médios, na medida em que é este hiato que dificulta a transição da parte de um lado da economia para o outro.

Custos salariais sobrestimados?

E se os custos salariais forem mais baixos do que se pensa?

O Banco de Portugal (BdP) colocou a hipótese em 2010. Segundo o BdP, o encerramento da Caixa Geral de Aposentações a novos subscritores introduziu uma ruptura no tratamento dos dados das contribuições sociais pagas pela entidade patronal (o Estado, no caso), que aumentou artificalmente os custos salariais identificados nas estatísticas oficiais produzidas pelo INE (ver a caixa 2 do Boletim Económico de Verão de 2010).

Isto é relevante porque é com base nestes custos salariais que são calculados os Custos Unitários do Trabalho, o principal indicador de competitividade analisado pelos organismos europeus e, cada vez mais, pelos próprios observadores da Troika.

A novidade é que o BdP vai começar a publicar periodicamente uma nova série com a Taxa de Câmbio Efectiva Real de Portugal, deflacionada pelos Custos Unitários do Trabalho mas ajustada à alteração metodológica introduzida pelo INE. A diferença entre o indicador oficial, calculado pelo BCE com base nos dados do INE, e o indicador “ajustado”, é significativa.

A série pode ser acedida no Boletim Estatístico (tabela  D.123).