Aprender com os erros

O que é que é preciso acontecer para convencer alguém a mudar de opinião? Este foi o tema de um Seminário acerca das narrativas da crise, em Coimbra Lisboa. E é uma óptima discussão. Nos últimos anos não faltaram previsões para a evolução da economia global e da Zona Euro. Salvo honrosas excepções, saíram quase todas ao lado – e, nalguns casos, flagrantemente ao lado.

Quando as expectativas são frustradas de uma forma tão gritante, o mínimo que se exige a quem trabalha no ramo é que seja capaz de olhar para trás e, à luz dos acontecimentos recentes, reavaliar as ideias em que acreditava e mudar os modelos a que recorre. Se depois de sete anos continuam a acreditar na mesma coisa, das duas uma: ou acertaram em tudo, o que é improvável, ou não aprenderam nada, o que é deplorável. No meu caso, isto foi o que eu aprendi:

Continuar a ler

A Estagnação Secular está aí?

Por que estão as taxas de juro tão baixas? Por que é que alguns países europeus estão na prática a receber dinheiro sempre que pedem um empréstimo nos mercados? Por que é que a remuneração dos depósitos mal chega para cobrir a inflação?

Se lhe perguntarem isto, a sua resposta acabará provavelmente por fazer referência ao BCE. É possível que invoque a política monetária dos últimos anos, o Quantitative Easing, o facto de a taxa de remuneração de depósito estar em níveis negativos ou alguma acção deste género. Mas o argumento, com toda a certeza, girará em torno de uma determinada opção tomada pela autoridade monetária.

Num certo sentido, isto é verdade: o BCE fixa as taxas de juro, e essas taxas de juro são transmitidas ao resto da economia. Por outro lado – e este é um ponto crucial a que quase ninguém costuma fazer referência – a moderna teoria económica assenta na ideia de que a política monetária tem efeitos exclusivamente no curto prazo. O Banco Central pode aumentar ou reduzir a quantidade de dinheiro em circulação e, assim, influenciar as taxas de juro. Mas assim que os preços se ajustam ao novo volume de massa monetária, os efeitos reais desaparecem.

Continuar a ler

Como ensinar economia

O ensino de economia é um tema quente desde a célebre debandada de alunos de uma aula do célebre Gregory Mankiw. A questão levanta tantos problemas – mais científicas do que propriamente pedagógicas, parece-me – que qualquer discussão acaba sempre por ser longa e demorada. Para quem tem tem tempo e paciência, aqui fica o contributo de Karl Whelan (o melhor que li até agora): Thoughts on teaching economics after the crash.

A superioridade dos economistas

Um paper sobre sociologia da economia está a dar que falar. The superiority of economists argumenta (de forma persuasiva) que:

Economists also distinguish themselves from other social scientists through their much better material situation (many teach in business schools, have external consulting activities), their more individualist worldviews, and in the confidence they have in their discipline’s ability to fix the world’s problems. Taken together, these traits constitute what we call the superiority of economists, where economists’ objective supremacy is intimately linked with their subjective sense of authority and entitlement. While this superiority has certainly fueled economists’ practical involvement and their considerable influence over the economy, it has also exposed them more to conflicts of interests, political critique, even derision.

Já houve tanta gente a falar sobre o assunto que o Bruegel fez um apanhado dos contributos. Fica aqui para quem quiser seguir o assunto.

Capitalismo

Um comentário interessante de Antonio Fatas à igualmente interessante recensão que Deirdre McCloskey fez ao bestseller de Piketty: Is 0% growth for 90% a successful economic model?

Very few, including Piketty, would disagree with the merits of capitalism. The fact that all advanced and prosperous economies have reached their current level of income by relying on markets, the fact that the fastest growing emerging markets are those that move closer to that model and by doing so are able to lift a large percentage of their population from below poverty levels, all speak up in favor of the power of markets and incentives to unleash growth.

But the debate cannot end up there. The success of capitalism as an economic model does not imply that we should accept current outcomes and that we should not discuss alternative models that, in comparison to other economic paradigms, might all look very similar but they could produce very different distributions of income. What Piketty and others have done is to raise awareness that since the early 80s, the economic model that we call capitalism has generated an outcome that is different from the one we had seen in the previous decades and that this outcome, in some countries, resemble what we saw before the Great Depression (…)

We all agree that the current economic model has allowed the income of many Americans to increase at a rate close to 2% for more than a century based on continuous productive accumulation of capital and innovation, an amazing success. But how would we think about the same economic model if this rate of growth slowed down and was very close to 0%? This would represent a big change in the economic outcome and would, for sure, raise concerns about why the model is failing to deliver relative to our expectations (that is the argument we use to call alternative models, like those of planned economies, a failure).

While it is true that GDP per capita growth has remained in line with historical experience over the last decades, the income of a large % of US households has either stopped growing or is growing at a rate much closer to 0% than to 2%. So if 0% growth for 100% of the population would represent a failure, what about 0% growth for 90% of the population? Regardless of how well capitalism has performed in the past, we need to open for a debate on the merits and outcomes of such a model that takes into account how the income and wealth that it generates gets distributed. There is no just one form of capitalism, there are many. Current tax rates, regulations are not set in stone and they are very different from what they were during many periods of the recent economic history so a debate on how inequality trends reflect on the successes and potential weaknesses of the current model is not only a healthy one but one that is needed.

One more comment regarding McCloskey’s review. While I said I did not want to go into the details of the review, there was one that I found very surprising. The review argues that while income inequality might have increased, consumption inequality is a lot lower. One of the reasons is that the actual consumption of those who own six houses is not that different from those who own one as you can only live in one house at a time. That’s an odd argument. If taken seriously it provides support from those on the “left” who argue for very high levels of taxation for the rich. Let’s tax 100% of the value of those 5 extra houses given that they are not providing any consumption or welfare to those who own them.

Somos todos keynesianos*

Um artigo interessante de Alexandre Abreu no Expresso: Keynes e os seus herdeiros. Um alerta ao leitor: o trecho citado não representa a ideia mais importante do texto – é só a ideia que me interessa, e que queria discutir aqui.

Keynes é com certeza um dos economistas mais conhecidos do público em geral (…) É sintomático o facto de ter dado o nome não só a uma corrente do pensamento económico, como a algo ainda mais geral: um entendimento das economias modernas como sendo afectadas por crises e recessões que podem ser mitigadas ou ultrapassadas através da actuação das políticas públicas (…)

A visão da economia esboçada no parágrafo anterior é hoje em dia considerada heterodoxa em termos de teoria económica, pois a visão clássica, para a qual o equilíbrio entre oferta e procura é um ponto de partida, reconquistou o predomínio na academia da década de 1970 em diante. Ao nível da política económica, porém, é tácita ou explicitamente aceite por todos: por mais conservador que seja, não há banqueiro central que não reconheça que a expansão da oferta da moeda estimula a economia; não há ministro das finanças que não saiba que os aumentos de impostos têm um efeito recessivo (…)

Este desfasamento entre as visões dominantes a nível teórico, por um lado, e aplicado, por outro, é surreal mas verdadeiro: é como se os engenheiros desenhassem satélites com base no reconhecimento de que a terra gira em torno do sol, ao mesmo tempo que a astrofísica dominante insistisse que é o sol que gira em redor da terra (…)

Este anacronismo é preocupante. Ou seria, se fosse real. Mas há uma explicação mais parcimoniosa para esta suposta incoerência, e que não obriga a presumir alguma forma aguda de dissonância cognitiva na generalidade dos policy-makers. A explicação é simples: se quem está à frente dos bancos centrais e dos Governos se parece com um keynesiano, age como um keynesiano, e pensa como um keynesiano, talvez seja mesmo um keynesiano.

Reconheço que no debate ‘popular’ do tema seja fácil confundir as coisas. No imaginário dos leigos, o keynesianismo é vagamente identificado com um Estado grande, Segurança Social, regulação de mercados, salário mínimo. E admito que Keynes tenha, em algum ponto da sua vida, defendido estas opções – entre outras igualmente defensáveis, como o mercantilismo, uma moeda universal e o apelo estético de um bigode proeminente. Mas a macroeconomia keynesiana não é isto.

Portanto, começo por propor uma definição que me parece mais ou menos consensual. De forma resumida, o pensamento keynesiano defende que: i) as economias podem passar por períodos prolongados em que a actividade económica está abaixo do seu potencial e em que há desemprego involuntário; ii) estas recessões são, ou podem ser, provocadas por uma contracção da procura, que de facto afecta a quantidade de bens e serviços produzidos – isto é, a Lei de Say não é válida; c) os problemas podem ser evitados, ou pelo menos largamente minorados, através da política monetária e da política orçamental.

Continuar a ler

Não é para todos

International Mensch Fund, por Paul Krugman. Sobre o FMI e o mea culpa.

The IMF has released an audit of its own response during the aftermath of the financial crisis, which concludes that it messed up by embracing fiscal austerity in 2010. It failed to understand that you need to differentiate between countries that borrow in their own currency and those that don’t; it failed to appreciate that the negative effects of fiscal contraction would be much larger in a zero lower bound environment.

Well, I could have told you all of that at the time – and in fact I did, over and over again.

But let us nonetheless celebrate the IMF’s willingness to look honestly at its own record and learn from it. Taking responsability for your acts and statements is all to rare in modern economic discourse, as the comedic evasions of the open-letter crew demonstrate. The Fund, ir turns out, is better than that, and deserves praise.