Mistérios da produtividade

No âmbito de um pequeno projecto em que estou inserido tenho estado a compilar dados sobre a produtividade portuguesa nas últimas décadas. A coisa habitual: pegar no PIB de cada país, ajustá-lo pelas paridades de poder de compra e comparar as séries ao longo do tempo. Com um pequeno ingrediente secreto, que está disponível na OCDE, mas a que nem toda a gente deita a mão: em vez de dividir o PIB pelo número de trabalhadores, divido-o pelas horas trabalhadas.

Uma das coisas que saltam à vista na análise comparada é a enorme estabilidade da produtividade nacional ao longo das últimas três décadas. De 1980 para cá já houve três resgates, um choque petrolífero, uma mudança de moeda, Governos do PSD, Governos do PS e Governos do PSD com o CDS. Mas a produtividade relativa pouco muda. Andamos sempre ali entre os 50 e os 55% das economias mais produtivas.

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Robôs a roubar empregos

Este é um daqueles post guardados como draft há algum tempo. A ideia era publicar alguma coisa durante a Web Summit, mas acabei por não ter tempo. Felizmente, o Observador fez-me o favor de manter o tema vivo:

Os robôs vão ajudar-nos a mudar o mundo. E vão roubar os nossos empregos: O Fórum Económico Mundial prevê que, até 2020, desapareçam cinco milhões de empregos nos quinze países mais desenvolvidos do mundo por causa da evolução da robótica e da inteligência artificial. Segundo o estudo, divulgado no início deste ano na Conferência de Davos, os setores da saúde, energético e financeiro serão os mais afetados, mas também haverá perdas de trabalho consideráveis na construção, na extração de recursos e no setor das artes e do entretenimento.

Vamos supor que há de facto uma legião de robôs capazes de fazer tão bem ou melhor o trabalho que hoje é feito por seres humanos. Este é um grande ‘se’, como veremos daqui a pouco. Mas mesmo assumindo a premissa como verdadeira não é óbvio em que é que isto difere dos processos de mecanização e automatização que estão em curso há… enfim, há vários séculos. Trocar mão-de-obra por maquinaria é o que tem acontecido nas economias desenvolvidas pelo menos desde a Revolução Industrial.

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O que fizeram os impostos pela Irlanda

Este é um tema sempre actual – quanto mais não seja porque mesmo quando sai do radar são as próprias empresas ‘com sede’ na Irlanda que se encarregam de o colocar de novo na agenda.

Aqui há uns tempos defendi que a relação entre a política fiscal agressiva da Irlanda e o extraordinário crescimento dos anos 90 para cá era muito mais ténue do que parecia à primeira vista. Os números que conhecemos, e que fazem parangonas nos jornais, estão consideravelmente empolados por factores que não costumam entrar na comparação simples das taxas de crescimento: pressões demográficas, diferentes pontos de partida, horas trabalhadas e até o gap crescente entre a métrica habitual de bem-estar (PIB) e a métrica mais relevante para a Irlanda (Rendimento Nacional Bruto).

Quanto se leva estes factores em conta, o milagre desvanece-se, ou pelo menos perde bastante fulgor. O passado recente da Irlanda parece recapitular a história de muitas outras economias que chegaram aos anos 70 com um grande atraso face à fronteira da produção tecnológica: no fundo, uma história de catching-up (muito) bem sucedida. Que, no caso da Irlanda, está enterrada sob uma série de problemas de comparabilidade.

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Já agora, não reclamo originalidade. As ideias desse post foram quase todas retiradas do melhor paper que eu conheço a destilar o sucesso irlandês: Catching up with the leaders: the Irish hare.

Mas uma coisa que não referi nesse post – porque, enfim, desconhecia – é a quantidade de reformas fiscais que a Irlanda foi tendo desde os anos 60, todas aparentemente no mesmo. É provável que a magnitude das alterações tenha sido bem inferior à das mudanças dos anos 90, mas em todo o caso a imagem – roubada ao Middle Class Economist – não deixa de ser interessante.

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O Tigre Celta, os impostos, as reformas estruturais e alguns exageros

Pode uma economia crescer com base em impostos baixos e reformas estruturais? Claro que pode. E não falta evidência empírica a sugerir que esta crença é mais do que wishful thinking – basta circular um pouco por esta base de dados. Infelizmente, há muito menos certezas em favor da ideia de que este policy mix pode operar milagres económicos, capazes de arrancar um país da pobreza e projectá-lo para os lugares cimeiros dos rankings de riqueza.

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Chagas da Grande Recessão

Há várias formas de comparar a performance económica de diferentes países após uma crise. A mais simples é contrastar as variações de um determinado indicador na ressaca da recessão, como o Produto, os salários reais ou a taxa de desemprego. Um problema desta métrica é que faz tábua rasa do passado recente. O facto de o PIB irlandês estar a crescer mais do que o PIB inglês não quer dizer que esteja a recuperar melhor; pode simplesmente resultar do facto de a recessão irlandesa ter sido mais violenta.

Para evitar estes problemas é recomendável olhar para o nível do PIB actual (por oposição à sua variação) e compará-lo com o PIB pré-recessão. Mas esta abordagem também não é perfeita, já que não leva em conta as dinâmicas pré-crise de cada país. Se uma economia cresce naturalmente a uma taxa de 8%, então é normal que dois ou três anos após a recessão tenha um PIB maior do que uma economia que cresce 2%, mesmo que a dimensão da recessão tenha sido igual. Não porque recuperou melhor, mas porque ia mais embalada antes de a recessão estalar.

Por isso, convém levar em conta não apenas a dimensão da recessão mas também o crescimento natural de cada país. Por exemplo, calculando o perfil do PIB que seria seguido caso não tivesse havido crise, e contrastando esse contrafactual com o PIB efectivo. O FMI já fez isso para uma série de países na ressaca de crises bancárias mas, ainda não vi ninguém aplicar a mesma métrica à Grande Recessão.

Pois bem, aqui vai. O PIB contrafactual é calculado com base na evolução do PIB de 2000 a 2007, obtendo-se uma imagem semelhante a esta para cada país (ou região). A partir daí, basta calcular a diferença entre o PIB efectivo e o PIB contrafactual, expresso em percentagem deste último. Uma nota adicional: utilizei o PIB per capita para anular o impacto que as variações demográficas têm no crescimento económico.

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Qual é o problema dos défices?

Esta é uma pergunta de manual. E a resposta tem uma ponta solta que me anda a incomodar.

Há uma corrente em macroeconomia – que julgo ser minoritária, mas que de vez em quando aprece aqui e ali – segundo a qual os défices orçamentais são irrelevantes. Deixemos de lado esta corrente mais exótica e voltemos ao mundo real.

No mundo real, é sempre possível fazer um argumento mais ou menos complexo em torno dos efeitos de segunda ronda dos défices orçamentais. Afinal de contas, os défices implicam dívida pública, a dívida implica o pagamento de juros e os juros implicam mais despesa pública. Se pelo menos uma parte desta despesa for coberta com recurso a impostos distorcionários, não é difícil chegar à conclusão que os défices conduzem, a prazo, e por afectarem os incentivos dos agentes económicos, a uma actividade económica inferior à que seria obtida caso não houvesse dívida. Mas este é o tipo de mecanismo a que os macroeconomistas não costumam dar grande importância (provavelmente por boas razões).

Também há o problema da sustentabilidade da dívida pública, que a acumulação recorrente de défices elevados acabará, mais tarde ou mais cedo, por levantar. Quanto mais elevada for a dívida pública, mais provável é que quem financia (e refinancia) essa dívida opte subitamente por encontrar um lugar mais seguro para guardar o dinheiro. Esta paragem abrupta de fluxos financeiros obriga o Estado a reduzir o défice (isto é, a procura pública) e pode, no limite, levar a economia a uma recessão. Esta é uma óptima razão para ter cuidado com a gestão das contas públicas. Mas parece-me muito mais um argumento para vigiar os níveis de dívida pública do que propriamente para rejeitar, por princípio, quaisquer défices orçamentais.

Os manuais de economia dão uma resposta simples a questão: a dívida pública representa um encargo sobre as gerações futuras. E era precisamente aqui que queria chegar.

É fácil fazer alguma confusão com esta questão das ‘gerações futuras’. Se os défices tiverem sido financiados por investidores estrangeiros, então é seguramente verdade que o país, enquanto conjunto de agentes económicos, fica mais endividado em consequência de um défice. Um défice representa dinheiro que saiu do estrangeiro para entrar no país (via Estado), e que terá amanhã de sair do país para voltar ao lugar de destino. O processo não é significativamente diferente de um empréstimo para habitação – receber hoje para pagar amanhã.

Mas a mecânica é diferente se o défice tiver sido financiado internamente, através dos recursos dos próprios portugueses. Neste caso, a dívida pública que decorre dos défices representa, simultaneamente, uma responsabilidade dos portugueses, enquanto contribuintes, e um crédito dos mesmos portugueses, enquanto credores do Estado. Os portugueses não serão necessariamente os mesmos – nem todos pagam impostos, da mesma forma que nem todos emprestam ao Estado – mas o país, como um todo, não estará mais pobre do que estava antes de haver défices. Os défices limitaram-se a criar a responsabilidade legal de haver transferência de dinheiro entre concidadãos.

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O papel do investimento público

É o assunto em destaque nos capítulos analíticos do World Economic Outlook. Vale a pena ir analisar. Mas o FMI devia ter mais cuidado: isto é o tipo de coisa fácil ser lido em diagonal e citado às três pancadas.

As for the macroeconomic impact of increased public investment, the chapter finds that such investment raises output in both the short and long term. It also finds that these effects vary with a number of mediating factors, and these are fundamental to teasing out the chapter’s policy implications (…)

For economies with clearly identified infrastructure needs and efficient public investment processes and where there is economic slack and monetary accommodation, there is a strong case for increasing public infrastructure investment (…) The increased public investment would provide a much needed boost to demand in the short term and would also help raise potential output in the long term.

These conclusions should not, however, be interpreted as a blanket recommendation for a debt-financed public investment increase across all economies. Adverse market reactions—which could occur in some countries with already-high debt-to-GDP ratios or where returns to infrastructure investment are uncertain—could raise financing costs and further increase debt pressure.

But if infrastructure needs are indeed pressing and investment may be self-financing for some economies—in the sense that the public-debt-to-GDP ratio may not rise as a result of investment—why is public investment in advanced economies at a three-decade low? The reason is that in practice, public investment decisions frequently are not guided by economic rationale. This can cut both ways—inefficient and unproductive projects are often pursued by politicians and line ministries when they should not be, and some productive projects (and importantly, maintenance) are forgone when they should be given priority. Regarding the latter, Box 3.5 illustrates how improvements in fiscal institutions and some fiscal rules seem to help preserve public investment during periods of fiscal consolidation

Increasing investment efficiency is critical to mitigating the possible trade-off between higher output and higher public debt. Thus a key priority in many economies, particularly in those with relatively low efficiency of public investment, should be to raise the quality of infrastructure investment by improving the public investment process. Improvement could involve, among other reforms, better project appraisal and selection that identifies and targets infrastructure bottlenecks, including through centralized independent reviews, rigorous cost-benefit analysis, risk costing, and zero-based budgeting principles

O Tigre Celta recupera (pela terceira ou quarta vez)

A economia irlandesa cresceu 3,3% no segundo trimestre (e 7,7% em termos homólogos). Algumas notícias, compreensivelmente, não resistem a invocar o regresso do Tigre Celta.

Não é todos os dias que se vê a actividade económica a crescer acima dos 3% (sobretudo se estivermos a falar de países europeus), mas vale a pena pôr alguma água na fervura. No caso da Irlanda, pelo menos, já houve dois trimestres em que o Produto andou a baloiçar entre os 3 e os 4% (2011 e em 2013). Mas foi sol de pouca dura e nos trimestres seguintes a situação foi rapidamente ‘corrigida’.

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Duvido muito que estes ziguezagues constantes representem fases do ciclo económico. A economia irlandesa tem uma estrutura bastante peculiar e essas particularidades muitas vezes criam problemas no próprio sistema de compilação das contas nacionais (o caso das patentes farmacêuticas é bem conhecido). É possível que estes altos-e-baixos súbitos reflictam algum fenómeno deste género.

Por essa razão, e sobretudo se estivermos a falar da Irlanda, convém esperar algum tempo antes de extrair grandes tendências de indicadores de alta frequência. Para já, pelo menos, outros indicadores associados não sugerem nada de novo relativamente à tendência recente: uma recuperação real e consistente, mas lamentavelmente lenta.

Causas do crescimento (3)

Este post devia ser uma pequena conclusão dos dois anteriores (1 e 2), mas vale a pena acrescentar um terceiro factor aos que explicam o crescimento, antes de concluir a série: a gestão macroeconómica.

A gestão macroeconómica não é muito relevante para o crescimento de longo prazo, e tem mais a ver com o emprego efectivo dos recursos disponíveis (emprego e capital) do que com a melhor utilização desses mesmos recursos (produtividade). Mas tendo em conta que Portugal está com uma taxa de desemprego perto dos 14%, seria incompreensível não referir este ponto.

O objectivo da gestão macro é domar a violência dos ciclos económicos, prevenindo as recessões quando estas se começam a desenhar e acelerando as recuperações depois de aquelas ‘estalarem’. Isto é conseguido através do estímulo da procura agregada, via política orçamental (mais défices), política monetária (juros mais baixos) ou cambial (desvalorização da divisa).

No caso de Portugal, duas das opções não constam da caixa de ferramentas do Governo (estão delgadas no BCE) e a outra está, para todos os efeitos, severamente restringida – seja pelas regras europeias, seja pela própria (in)disposição dos mercados internacionais a financiar mais aventuras orçamentais.

Se a isto somarmos o facto de que as reformas estruturais e o investimento têm frutos tardios e incertos, não é difícil concluir que promessas de crescimento não são mais do que wishful thinking alimentado por alguma ingenuidade económica. Aliás, não deixa de ser curioso que, apesar de todas as alterações políticas e mudanças de regimes ao longo dos últimos 150 anos (que se traduziram em taxas de crescimento altamente voláteis), a história económica portuguesa possa ser descrita de uma forma razoavelmente simples: o nível de vida oscilou entre 40 e 50% da Europa desenvolvida, até que começou lentamente a convergir com a abertura comercial iniciada a partir do final dos anos 50.

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Isto não quer dizer que a política seja impotente, mas apenas que há limites àquilo que a política pode prometer. E as promessas que valem de facto alguma coisa são bastante diferentes do tipo de promessas que a classe política está habituada a fazer.

Em particular, uma das conclusões dos dois primeiros posts é que estimular e promover o crescimento depende muito mais das questões ‘comezinhas’ e ‘técnicas’ de política económica do que das ‘grandes questões’ da Política Económica (com inicial maiúscula). Como encontrar maneiras de avaliar investimentos públicos e financiar os mais importantes? Como reformar os mercados de trabalho, acelerar a justiça e aumentar a concorrência? A resposta não é fácil e exige investigação microeconómica, exercícios de benchmarking internacionais, estudos de caso, alguma arte e, reconheça, um pouco de sorte. Nenhum partido pode prometer nada disto.

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Causas do crescimento (2)

A Eficiência (ou Progresso tecnológico, ou TFP ou resíduo de Solow) é o segundo factor – para além do stock de capital – que influencia o crescimento económico de um país.Este é um conceito abrangente que engloba não apenas as inovações tecnológicas mas também factores como técnicas de gestão mais avançadas ou melhores formas de organização do trabalho. No fundo, cai aqui dentro tudo aquilo permita melhorar a eficiência com que o capital e o trabalho são ‘fundidos’ no processo produtivo.

Tal como acontece com o caso do investimento, é muito mais fácil enunciar a sua importância do que promover o seu crescimento. Em parte, e talvez por causa disso, os economistas preocupam-se mais em encontrar as condições que permitem melhorar a Eficiência do que em aumentá-la directamente. O que nos conduz às malfadadas ‘reformas estruturais’.

As reformas estruturais (RE) são mudanças nas leis, procedimentos ou regras de um país no sentido de facilitar o processo produtivo. Dito assim, toda a gente é a favor de RE, e por isso convém tornar o conceito um pouco mais palpável. Genericamente, as RE incluem coisas com que toda a gente concorda (diminuição da burocracia, sistemas fiscais mais simples), coisas com que a maior parte das pessoas concorda (mais eficiência no sistema de Justiça, mais concorrência no mercado de bens, menor poder de monopólio em serviços protegidos) e coisas reconhecidamente mais controversas (alteração dos sistemas de protecção social, flexibilização laboral, etc.).

Os críticos das RE costumam atacá-las por serem supostamente meras escolhas ideológicas sem verdadeiros benefícios. Muitas destas críticas são injustas e resultam mais de preconceito do que de uma análise informada. Ainda assim, convém ter algum cuidado antes de depositar demasiadas esperanças em soluções deste género, e sobre este ponto convém notar duas coisas.

Primeiro, há evidência empírica sólida em torno dos benefícios das reformas estruturais. A Comissão Europeia tem inclusivamente uma base de dados em que compila investigação acerca deste tópico – a MACMIC – para quem tiver interesse em ir além do ‘achismo’ neste domínio. A conclusão de vários estudos é que as RE tendem a aumentar a taxa de crescimento do PIB.

Os mesmos estudos, porém, concluem muitas vezes que estes efeitos são pequenos, demoram tempo a materializar-se e dependem crucialmente da forma como a reforma é implementada. Por exemplo, um estudo encomendado pelo Governo irlandês revela que cada RE, por si só, permitiria reduzir a taxa de desemprego entre 0,1 e 0,3 pontos percentuais nos primeiros anos após a respectiva implementação. O melhor cenário é um em que há RE em todas as sete áreas contempladas, o que baixa a taxa de desemprego em 2,5 pontos percentuais… em 2020 (detalhes em baixo).

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