Um problema de empregos: oferta ou procura?

Nos posts anteriores vimos que: i) primeiro, a produtividade está longe de explicar a Grande Estagnação da economia portuguesa; ii) segundo, o abrandamento do crescimento económico decorre quase exclusivamente do menor crescimento das horas trabalhadas, que por sua vez resulta do menor crescimento do emprego; iii) terceiro, a importância da demografia para este resultado final é aparentemente limitada (friso o aparentemente, porque mais lá para a frente a questão vai ganhar relevância).

Portanto, é (quase) tudo uma questão robustez do mercado de trabalho. de  E para o explicar só há duas hipóteses: ou as empresas não eram capazes de criar postos de trabalho, ou os trabalhadores não estavam dispostos a aceitá-los – o que corresponde, em traços largos, à oposição clássica entre choques de procura e choques de oferta. Qual dos dois terá sido?

É extraordinariamente difícil distinguir os dois tipos de choques, mas parece-me que toda a anecdotal evidence, associada a alguns dados não-conclusivos-mas-sugestivos suporta a ideia de que o que aconteceu de 2001 em diante foi uma típica ventania cíclica. Vejamos porquê.

Em primeiro lugar, a percepção corrente das pessoas é que as possibilidades de emprego se reduziram, e não que os trabalhadores decidiram tirar férias ou passar à reforma antecipada. Não sendo um adepto de fundar juízos com base em percepções subjectivas, também não me parece que elas devam ser ignoradas, sobretudo se chocarem de forma óbvia com a nossa hipótese de trabalho.

Em segundo lugar, a segunda metade dos anos 90 parece ter sido marcada por um típico boom de natureza macroeconómica: os custos salariais subiram, a balança comercial deteriorou-se (ao contrário do que aconteceu daí para a frente – ver aqui e aqui, por exemplo) e o crescimento foi superior ao do PIB potencial. Essa é a ‘datação do boom’ feita por Blanchard e Pedro Portugal, com a qual eu concordo completamente. Ora, havendo um boom em 1995-2001, é natural que o que vem depois seja um bust.

Em terceiro lugar, nenhum dos sinais habitualmente associados a choques negativos no lado da oferta parecem estar presentes (pelo menos na fase inicial do período 2000-2007). Os custos salariais parecem alinhados com a produtividade (ver aqui e uma súmula aqui) e o sector imobiliário está a definhar desde 2000.

Em quarto lugar, os EUA entraram em recessão em 2001 e passaram por um período de fraco crescimento durante esse ano e o seguinte, como resultado do rebentar das dot.com e do 11 de Setembro. A Zona Euro também passou por um mau bocado em 2002. É quase impossível que estes choques não tenham também afectado Portugal, quanto mais não seja pelo simples efeito das trocas comerciais.

Em quinto lugar, os indicadores de confiança das famílias e das empresas, bem como a natureza das respostas que ambas foram dando ao longo deste período, confirmam este diagnóstico. Os maiores impedimentos à produção parecem ter sido a falta de procura – convém ter cuidado na interpretação destes dados, mas noto que aqui estou a pôr a ênfase nas subidas e descidas das respostas, e não no nível per se (que provavelmente é menos relevante).

Imagem 9

Tudo isto junto torna muito difícil comprar a ideia de que Portugal não passou por um forte choque cíclico de 2000 em diante, que teve como implicação um dinamismo mais débil da procura e se concretizou numa capacidade reduzida de criação de emprego.

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