Um problema de empregos. A demografia é uma (pequena) parte da história

O post anterior argumentou que o abrandamento da taxa de crescimento do PIB de 2001 para cá tem pouco que ver com a produtividade. Houve subidas e descidas, e até uma curiosa divergência face aos países desenvolvidos, mas nem o calendário bate certo com as datas-chave do problema (2001-2007) nem a dimensão dos efeitos chega para explicar a magnitude do fenómeno.

Como o PIB é igual à produtividade multiplicada pelas horas trabalhadas, concluímos que se o problema não está no primeiro termo da equação, então estará forçosamente no segundo. E daqui passamos à pergunta: o que se passou então com as horas trabalhadas?

Antes de mais, um ponto prévio importante. As “horas trabalhadas” de uma economia podem variar em função de dois factores diferentes: porque há mais/menos pessoas a trabalhar (a margem extensiva); ou porque as mesmas pessoas estão a trabalhar mais/menos horas (a margem intensiva) – por exemplo, porque impostos elevados desencorajam horas extra e fins-de-semana no trabalho.

Por isso, a primeira coisa que queremos fazer é fazer um despiste de uma das hipóteses, para percebermos qual é a força motriz em acção. Eu decompus as horas trabalhadas nos seus dois factores constituintes (número de empregos x horas de trabalho/emprego), e concluí que o problema está claramente no primeiro elemento. Vou poupar os leitores ao gráfico, porque não quero consumir já toda a vossa atenção (esta série está carregadinha de imagens), mas os números, de qualquer forma, são fáceis de confirmar.

O que aconteceu com emprego de 2000 em diante, que explica quase por inteiro a Década Perdida? Repetindo de forma resumida um menu de opções que já dei lá em baixo, há mais ou menos três hipóteses em cima da mesa: i) passou a haver menos empregos porque havia menos população em idade activa; ii) apesar de a população em idade activa ser a mesma, as empresas não queriam contratar – um contratempo de natureza cíclica, digamos assim; iii) ou talvez as pessoas simplesmente não tivessem incentivos para aceitar os empregos disponíveis, por coisas tão variadas como a existência de benefícios sociais, reformas antecipadas, e por aí fora.

Vejamos um elemento de cada vez, começando para pergunta mais óbvia: será que tudo não resulta apenas de uma demografia adversa?

A imagem de baixo sugere que, no médio/longo prazo, a demografia é um poderoso determinante do número de empregos existentes numa economia. Sim, há muitos factores que influenciam os valores finais, como as condições cíclicas do mercado de trabalho, a política laboral, as regras da Segurança Social e por aí fora; mas em horizontes largos o número de postos de trabalho caminha lado a lado com o número de pessoas em idade activa.

Sem Título

Onde estou a tentar chegar? Simples: dada a ligação óbvia entre demografia e emprego, não podemos ignorar o primeiro quando queremos compreender o segundo. Quando a taxa de crescimento do emprego abranda, como abrandou de 2000 em diante, a primeira coisa que queremos perceber é em que medida é que a novidade não pode simplesmente resultar de choques demográficos.

É isso que tento fazer de seguida. A imagem baixo alarga a dois indicadores aquilo que fiz aqui com as horas trabalhadas: mostra a variação média anual do emprego e da população activa população em idade activa ao longo de dois períodos. A coluna azul mostra a variação no período ‘próspero’ e a coluna azul mostra a variação no período da Grande Estagnação. O ponto verde expõe a diferença entre os dois.

IMAGEM 8

Daqui extraímos duas conclusões directamente. E uma terceira de forma indirecta.

Em primeiro lugar, há um abrandamento notório nas horas trabalhadas da economia portuguesa, que corresponde integralmente a uma menor capacidade de criar emprego. Isto não é novidade: é apenas a demonstração numérica do ponto que enunciei no quarto parágrafo deste post. As horas trabalhadas crescem menos 1,7 pontos percentuais no período 2000-2007 do que no período 1993-2000, o que coincide com a diferença de crescimento do emprego.

Em segundo lugar, a demografia parece ter alguma coisa a ver com isto, mas não muito. A taxa de crescimento da população em idade activa abranda apenas 0,2 pontos percentuais, o que deixa ainda 1,5 pontos percentuais do abrandamento do emprego por explicar. Há claramente alguma coisa a acontecer no mercado laboral que não decorre da demografia – e esse é o ponto do próximo post.

Esta segunda conclusão, porém, depende um pouco do período temporal escolhido. O crescimento da população em idade activa abranda apenas 0,2 pontos percentuais entre os dois períodos seleccionados, mas é um fenómeno que se torna progressivamente mais importante à medida que passamos de 2000 para 2007.

Isso não é claro na imagem agregada, nem tem implicações óbvias neste momento; mas constitui uma peça essencial do raciocínio desta série de posts, razão pela qual faço a ressalva desde já, deixando para depois uma explicação mais detalhada.

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