Sim, mas…

post anterior explicou os detalhes de uma explicação possível para a Grande Estagnação: a conjugação infeliz de um conjunto de choques, que se sobrepuseram durante algum tempo. De certeza que haverá muitas objecções a esta ideia, e consigo perceber a mais relevante: na prática, limitei-me a fornecer evidência para a existência destes choques, sem verdadeiramente ‘explicar’ alguns deles e despachando-os como ‘mistérios para posterior investigação’.

Esta crítica tem razão, mas só até certo ponto. De facto, não sei explicar o abrandamento da produtividade, nem a dificuldade da taxa de desemprego em descer entre 2005 e 2008. Porém, parece-me que o simples facto de desagregar as coisas e mostrar que há vários efeitos a actuar em simultâneo permite iluminar algum caminho e pôr de parte algumas das hipóteses mais grandiosas para explicar a Grande Estagnação.

Aliás, e na medida em que ‘pequenos choques inexplicáveis’ estão constantemente a afectar a economia de vários lados, a demonstração de que o período 2000-2007 foi uma altura crucial em que se conjugaram, por aparente acaso, várias pancadas sucessivas, aparentemente independentes umas das outras, pode mesmo ser a melhor explicação a que podemos aspirar.

Vejamos as coisas desta forma. A fraca retoma cíclica do emprego após 2005 pode ser um mistério interessante, mas provavelmente não será nem mais misteriosa nem mais relevante (em termos numéricos) do que muitas outras pequenas surpresas da economia portuguesa nas últimas décadas. O mais relevante, aqui, foi mesmo o facto de este pequeno mistério se ter feito sentir na mesma altura em que havia muitas outras coisas a actuar no mesmo sentido.

Outra objecção possível: por que é que toda a análise é feita até 2007, ignorando os ‘maus anos’ de 2008-2010? Esta é fácil: em 2008, o mundo é atingido pela maior crise económica das últimas décadas, influenciando imenso a contabilidade final. Seria como avaliar o impacto de uma política comercial olhando para os anos da Grande Depressão. Se não estamos dispostos a fazer econometria hard-core, o melhor é deixarmos a observação estranha de fora.

Outra objecção possível é que em toda esta história não há uma única referência a um dos factos mais notáveis da economia portuguesa das últimas duas décadas: a emergência de um enorme e persistente défice externo. Ora, se a teoria dos quatro choques já não é ‘elegante’ por si mesma, ainda mais estranha se torna se tivermos de invocar outros choques adicionais para explicar a questão do défice externo.

Mas a ideia de que menos crescimento devia vir associado a um maior défice externo não tem grande fundamento na teoria económica. Na verdade, por norma acontece o contrário: um PIB mais pequeno implica um volume de importações de menor, que por sua vez se traduz num défice externo mais baixo. De resto, há evidência independente de que a degradação do défice externo tem pouco que ver com as rubricas da contabilidade nacional directamente ligadas ao PIB (exportações e importações). A degradação resulta quase toda de coisas como remessas da emigração, as transferências europeias, e o impacto da balança de rendimentos (ver aqui, aqui, aqui).

Outra objecção possível é que algumas das conclusões que apresentei em posts anteriores dependem – não crucialmente, mas em parte – da fonte de dados utilizados. O PIB é todo igual, mas coisas como o emprego, as horas trabalhadas, a população em idade activa e as paridades de poder de compra variam um bocado consoante a proveniência. E as diferenças são pequenas quando olhamos para horizontes longas, a verdade é que podem tornar-se relevantes sempre que aumentamos a frequência da análise.

Para tentar minimizar este problema tentei, sempre que possível, fazer uma análise por ‘blocos temporais’. Em todo o caso, este problema existirá sempre que tentarmos extrair informação mais desagregada do que aquela que está presente apenas nos números brutos do PIB. Não tenho certeza de que o critério da estabilidade deva ser tão valorizado ao ponto de nos levar a deitar fora informação valiosa, mesmo que limitada e possivelmente menos robusta.

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