Quatro choques na prática: contas e exemplos

Boa parte do raciocínio dos posts anteriores assentou na desagregação do PIB em subcomponentes mais pequenas – emprego, produtividade, demografia, etc. Apesar de haver alguma macroeconomia envolvida, a maior parte dos dados apresentados, e das inferências produzidas, não exigiam qualquer econometria: bastava conhecer e transformar algumas identidades contabilísticas fundamentais.

Para ilustrar um pouco melhor o que estava a tentar dizer, apresento de seguida uma ‘decomposição’ da evolução do PIB em termos de vários contributos fundamentais – que podem, de forma mais ou menos rigorosa, ser identificados com alguns dos choques que referi anteriormente.

  • O crescimento do PIB é igual à produtividade multiplicada pelo emprego. O crescimento da produtividade, por sua vez, pode ser ‘partido’ em duas componentes: o crescimento da produtividade de um país de referência, e a diferença entre o ‘nosso’ crescimento e ‘esse’ crescimento. O objectivo desta separação é perceber se Portugal está a ficar mais produtivo porque as economias mais avançadas estão também a ficar mais produtivas (“efeito Alemanha”, porque é a referência que usei), ou se está a convergir (ou divergir) desse benchmark – chamemos-lhe o ‘efeito catching up’.

 

  • Já a evolução do emprego pode ser cindida em duas partículas: a evolução da demografia (que neste esquema é aproximada pela evolução da ‘população em idade activa’) e a evolução do emprego que não é explicada por esta primeira parcela. Eu chamei-lhe emprego por conveniência, mas na verdade o que está aqui em causa é um enorme resíduo, que agrega várias pequenas variáveis de natureza diferentes: choques de oferta, choques de procura, etc., etc. Ainda assim, a separação é útil.

Eu fui fazendo estes cálculos de forma parcelar antes de escrever os posts anteriores, mas ao tentar integrar tudo num único conjunto tive de proceder a alguns ajustamentos. Por exemplo, as contas da produtividade baseavam-se nas Contas Nacionais e no Inquérito ao Emprego, uma fonte que não estava acessível de forma imediata para calcular a produtividade alemã. A solução foi usar outra fonte (full-time equivalents da AMECO), harmonizando tudo e possibilitando comparações.

Mas ao passar de uma fonte para outra perdi também acesso a outros conceitos que não estão disponíveis nas Contas Nacionais da AMECO (como população em idade activa). A solução foi usar algumas hipóteses auxiliares para tentar ‘calcular’ esses conceitos dentro do quadro conceptual das Contas Nacionais, e rezar para que as conclusões se mantivessem1.

As preces foram parcialmente atendidas: no final a coisa bateu mais ou menos certo, embora com algumas qualificações aqui e ali. O resultado final foi este.

Simulação 1

O quadro global é confuso e revela pouca informação. Ao agregarmos a coisa por períodos é possível tornar o gráfico mais legível.

Simulação 2.png

Esta divisão mostra como o grande crescimento dos anos 60 e 70 se deveu em boa medida à produtividade, fosse por que os países do pelotão da frente estavam a caminhar a passos largos (barras azuis), fosse porque a própria economia nacional estava a conseguir encurtar a distância face aos líderes, medida pelas barras laranjas.

Isto não tem relevância nenhuma para a Década Perdida. Era só uma leitura acompanhada para se perceber a ideia da coisa. Mas com estes dados é possível calcular contra-factuais e ilustrar a importância relativa de alguns dos choques que afectaram a economia portuguesa ao longo do período 2000-2007.

Por exemplo, podemos isolar o efeito catching up para mostrar em que medida é que a produtividade portuguesa tem convergido com a alemã ao longo dos anos. Dada a enorme volatilidade destes dados, é conveniente apresentá-los com alguma média móvel para suavizar as variações bruscas.

Simulcion.png

A imagem mostra duas das ideias que avancei aqui: primeiro, os problemas de produtividade nacional datam do início dos anos 90, e não do período do euro: é a partir de 1994 que o ritmo de convergência cai a pique. E, segundo, a partir da segunda metade dos anos 2000 este movimento parece começar a inverter-se. Os valores e datas não são exactamente os mesmos que avancei nos posts iniciais, devido à alteração de fontes que discuti em cima, mas a mensagem central parece ser preservada.

Também podemos usar esta metodologia para perceber ‘quanto teria crescido a economia portuguesa durante a Década Perdida sem os ventos adversos da demografia’ (o que neste caso concreto corresponde a ‘trancar’ a evolução demográfica no valor médio da década de 90). E o resultado é:

ssss

Novamente, podem reparar que os valores não são exactamente iguais aos que aparecem aqui, mas ainda assim as diferenças são não são substanciais. Em média, o crescimento do PIB durante o período 2001-2007 passa de 1,2 para 1,5%, com as diferenças a concentrarem-se sobretudo na fase mais tardia deste período. Sem este efeito, o PIB poderia ter crescido perto de 3% em 2007, o que é uma taxa bastante apreciável.

Este esquema tem algumas limitações. Apesar de permitir distinguir a importância relativa de elementos como a produtividade alheia, a capacidade de convergência da economia (catching up) e a demografia, é silenciosa em relação a todos os outros factores. Que parte do abrandamento resulta de choques de procura? Em que medida é que reformas laborais que afectem a decisão de participar (ou não) no mercado de trabalho influenciam a evolução da população activa? Tudo isto é incluído no enorme resíduo a que dei o nome de “Emprego”, mas que na verdade é uma enorme caixa negra.

Ainda assim, e apesar de já termos espremido deste esquema tudo aquilo que havia a espremer no que diz respeito à análise de 2000-2007, podemos renovar-lhe o prazo de validade se o usarmos para analisar o período mais recente. Sai um pouco fora do âmbito destes posts, mas as conclusões são tão interessantes que se justifica um ligeiro desvio.

Por exemplo, sugeri há umas semanas que a retoma actual representa um salutar, mas ainda assim trivial, regresso ao mercado de trabalho da população que antes tinha perdido o emprego. Dentro do esquema proposto acima, isso devia reflectir-se contributo acentuadamente negativo do factor ‘emprego’ durante a crise, compensado por um contributo simétrico no período seguinte. O quadro seguinte põe em evidência este contributo, agregando todos os outros para tornar a conclusão mais clara.

Simulação 5

A história dos últimos oito anos, interpretada à luz da imagem de cima, é muito fácil de explicar. Entre 2009 e 2013, a economia passa por um período intenso de eliminação de empregos. Mas a partir do momento em que ‘bate’ no fundo, o movimento inverte-se e enorme destruição de postos de trabalho dá lugar a uma igualmente enorme criação de empregos.

Mais interessante ainda é a influência cresce que a demografia tem nos números do crescimento económico. Mostrei ali em cima como esse efeito já se faz sentir, mesmo que de forma mitigada, desde 2002. Mas qual é a dimensão deste contributo nos anos mais recentes, quando a emigração disparou?

Uma forma de responder a esta questão é recalcular o crescimento do PIB entre 2008 e 2016, retirando o contributo da demografia e fixando-o no valor médio do período anterior (à semelhança do que fiz lá em cima para 2001-2007). Obviamente, o cálculo assume que a demografia é completamente exógena e que quaisquer variações na sua taxa de crescimento se traduziriam mecanicamente num idêntico crescimento do emprego e do PIB, mas em todo o caso as hipóteses parece-me mais aceitáveis do que a alternativa muitas vezes sugerida (que há um ‘número fixo de empregos’, e que os movimentos demográficos são meras reacções a este número).

Simulaçao 6.png

As diferenças são abissais. Em 2014, por exemplo, o crescimento do PIB seria de 2,2%, e não de 0,9%. Em 2016, a diferença seria de um ponto percentual. Sem as variações demográficas, o crescimento médio do PIB durante a ‘fase de recuperação’ (2014-2016) seria de 2,4, e não de 1,2%. Estamos a falar de metade do crescimento registado (!).

Penso que a lupa à luz da qual avaliamos os dados ‘agregados’ actuais não pode ser a mesma que usamos para avaliar os dados do passado, porque entre um período e o outro há enormes diferenças demográficas que deviam ser tidas em conta. Fará sentido comparar o crescimento económico de um país africano em expansão demográfica com o crescimento de um país como Japão, onde a população está a mingar? Se não faz – e claro que não faz – então também não devíamos ignorar essa subtileza em comparações longitudinais.

Já agora, esta proposta não é nova. O Banco de Portugal tem vindo a alertar para este problema nos últimos boletins económicos, onde complementa sempre a análise ‘bruta’ do crescimento com uma análise do crescimento per capita (vejam , por exemplo, a caixa 5.1 deste boletim).

1 Este problema da sensibilidade dos cálculos a escolhas aparentemente triviais das fontes de dados não parece ser só meu. Ao olhar para a economia portuguesa dez anos depois da célebre análise de 2007, Blanchard nota como os números da produtividade mudaram drasticamente, devendo-se a diferença a uma subtileza na forma como o INE mudou o cálculo do conceito de full-time equivalents. «Part of the revisions come from a change in definition, from number of workers to number of full-time equivalents as a measure of employment, and the reclassification of public employment. Most of the revisions reflect retrospective changes in the underlying series. In the course of writing this paper, and thus checking on the numbers in the 2007 paper, we have been struck by the size of the revisions of some of these numbers. In some cases, an explanation that appeared plausible then appears less plausible today, with the reverse also being true»
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