Juntando as peças do puzzle

Os posts anteriores (ver o último aqui) abordaram alguns elementos isolados e parcelares que explicam a Década perdida da economia portuguesa. Agora que as peças estão na mesa, basta começar a montar o puzzle.

Para não obrigar ninguém a ler até ao fim (sobretudo se já leram a pastelada prévia de artigos), posso deixar já aqui um resumo: uma boa parte da explicação está numa infeliz conjugação de timings de vários choques diferentes. Choques que, que por motivos provavelmente fortuitos, se sobrepuseram durante uma janela temporal curta, provocando a ilusão de um corte súbito com o passado recente.

Mas, na prática, as mudanças foram mais subtis do que se pensa. A ideia de que algo estranho e importante aconteceu em 2000, deixando marcas profundas na economia portuguesa, é apelativa quando vemos o contraste abrupto de crescimento entre a década de 90 e a década pós-euro; mas torna-se muito menos persuasiva quando percebemos que na origem deste abrandamento estão vários elementos diferentes, completamente independentes entre si, e alguns dos quais transitórios por natureza.

A história começa mais ou menos assim. Em 1993, a economia portuguesa é atingida por um estranho – e aparentemente não documentado – choque na produtividade. Até então, a produtividade portuguesa crescia mais ou menos em linha com a produtividade alemã. Mas a partir daí iniciou um processo de lenta, mas persistente, divergência.

O abrandamento da produtividade escapou aos radares de quase toda a gente porque coincidiu com a recuperação da recessão de 1992 e com o boom de 1995-1999. A expansão do emprego foi mais do que se suficiente para compensar o crescimento mais fraco da produtividade nos sete anos que se seguiram, que assim acabou por compor números globais do PIB muito positivos. Mas o problema esteve lá sempre.

O que causou o abrandamento na produtividade? Não tenho uma explicação convincente, mas surtos de divergência temporários não são tão raros como se pensa (para além do caso italiano, há muitos outros a nível europeu). O que parece óbvio é que esse cancro começou a entrar em regressão em 2005. Entretanto, porém, já tinha deixado uma marca indesejada no crescimento dos primeiros anos do século XXI.

Este foi o primeiro choque. O segundo choque dá-se em 2001, com o fim do boom dos cinco anos anteriores. O crescimento da procura abranda imenso. Pouco depois, as recessões americana e europeia tornam-se também forças centrífugas e contribuem também para aumentar o desemprego. Durante o ‘fase baixa’ do ciclo (2001-2004) o desemprego aumenta mais ou menos como durante o ciclo anterior. A diferença é que, agora, a destruição de emprego faz-se sentir num cenário de produtividade baixa. Os ventos cíclicos somam-se aos ventos estruturais, para produzir os números abismais que vemos hoje nas séries do INE.

Em 2004/5, a produtividade começa lentamente a convergir com a produtividade alemã, recuperando parte do terreno perdido. Mas, ao contrário do que tinha acontecido no ciclo anterior, a taxa de emprego quase não recua a partir daí. O sobe e desce da taxa de desemprego dá lugar a uma recuperação tímida e quase imperceptível.

Pode ter sido alguma má sorte (será que a retoma do emprego não poderia estar apenas muito atrasada no calendário?), mas independentemente da explicação, os factos são estes: a enorme destruição de empregos não foi seguida por uma simétrica criação de postos de trabalho. Este foi o terceiro choque, que não afectou o período 2000-2004, mas influenciou de forma decisiva a performance do período 2005-2007 (avancei aqui algumas explicações possíveis, mas são todas assumidamente especulativas)

Entretanto, pela calada da noite começava a desenhar-se um quarto choque: o aumento cada vez menor da população em idade activa. Num dos posts anteriores referi que entre a 1993-2000 e 2000-2007 o abrandamento do crescimento parece ter pouco que ver com questões demográficas: “A taxa de crescimento da população em idade activa abranda apenas 0,2 pontos percentuais”. Mas também salientei que “esta conclusão, porém, depende um pouco do período temporal escolhido”.

Isto porque a menor dinâmica populacional parece estar concentrada no período 2005-2007. Um exemplo numérico permite ilustrar isto. Imaginemos, por exemplo, que em 2005, 2006 e 2007 a população em idade activa crescia ao mesmo ritmo que nos cinco anos anteriores. Assumindo que a evolução da taxa de desemprego e da produtividade seriam iguais, o crescimento do  PIB correspondente passaria de 0.8-2,5 para 1.0-3,3%, conforme ilustra a imagem de baixo.

Imagem 11.png

Será que se a economia tivesse crescido a este ritmo ainda falaríamos do período 2000-2007 como a década perdida? Será que haveria assim tanta gente à procura desse Santo Graal que é uma grande explicação unificada para a longa estagnação da economia portuguesa?

A minha suspeita é que, com números deste calibre, a nossa avaliação retrospectiva do que aconteceu neste período seria bastante diferente. Mas ‘esta’ diferença pode ser única e exclusivamente atribuída a um factor tão trivial como as dinâmicas demográficas.

Portanto, temos quatro choques: o abrandamento da produtividade (1993-2005), o fim do boom de 1995-2000, associado à recessão europeia e americana (2001-2004), a cristalização do desemprego num nível alto (2005-2007) e as dinâmicas demográficas (de 2000 em diante, mas com especial incidência a partir de 2005).

Um destes choques parece-me trivial e bem documentado (o boom-bust de 1995/2000 – 2000/2005). Outros é menos conhecido, mas inegável assim que nos damos ao trabalho de olhar para os números (declínio demográficos). E outros, assumo, constituem mistérios por explicar (a performance da produtividade a partir de 1993 e a cristalização do desemprego em 2006). Mas nenhum destes choques, por si mesmo, poderia ter gerado a péssima performance destes números. Foi preciso actuarem em conjunto, concentrando-se num momento específico, para tornarem este período distinto dos anteriores.

De certa forma, Portugal teve azar. Os problemas da produtividade podiam ter acabado antes de 2005, e as dinâmicas demográficas podiam ter-se feito sentir mais tarde. Tivesse sido esse o caso, e a diferença de crescimento entre a década de 90 e a década de 2000 seria muito menor do que acabou por ser. Mas houve uma infeliz coincidência de timings, como se os astros se tivessem alinhado num momento único, para produzir o pior período de sempre de crescimento económico em Portugal. E criar a ilusão de que o país sofreu um único grande embate, do qual nunca mais recuperou1.

Isto dito assim pode parecer palavroso. Por isso, e para encerrar, há um post a seguir que faz algumas contas e ilustra as ideias com números. A questão de um milhão de dólares – ok, e o que é que tudo isto significa daqui para a frente – também é posta em cima da mesa.

1 Já agora, a história de ‘vários choques’ não é nova. A hipótese de Ricardo Reis, por exemplo, recorre a várias fontes de problemas para tentar explicar as dinâmicas do período 2000-2007 – precisamente, presumo eu, porque os factos estilizados não se prestam a uma explicação única. Assim que começamos a desagregar os dados, torna-se difícil acreditar que “o peso do Estado”, “o euro” ou “a liberalização financeira”, por si mesmos, têm grande poder explicativo.

 

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