As duas faces da Década Perdida

Nota prévia: os leitores podem ter interesse em ver este post primeiro

Comecemos pelos dados mais básicos do crescimento económico, que toda a gente usa quando discute esta questão. A imagem de baixo mostra o crescimento do PIB real desde 1970, terminando em 2007 para não apanhar a Grande Recessão – um período que tem um efeito enorme nos dados agregados, mas que poucas pessoas argumentariam ser um problema especificamente nacional.

Imagem 1

Eu podia apontar para a “década perdida”, mas de certeza que o leitor consegue descobri-la sem a minha ajuda.

Identificado o problema, é preciso percebê-lo: o que aconteceu a partir de 2000/2001 que fez com a que taxa de crescimento do PIB afundasse de uma média de 3% para apenas 1%?

Para ter uma visão mais desagregada da questão podemos dividir a variação do PIB em dois ingredientes distintos: o número de horas trabalhadas e a produtividade média de cada hora de trabalho (tal como fiz aqui). O PIB pode crescer porque somos mais eficientes, produzindo mais por cada unidade de tempo, ou apenas porque estamos a trabalhar mais tempo (seja porque há mais emprego, seja porque cada empregado passa mais horas no posto de trabalho). Este é o equivalente económico à distinção desportiva entre inspiração e transpiração.

A imagem de baixo ‘decompõe’ o crescimento do PIB nestas duas parcelas. (A soma dos dois não é sempre igual ao PIB – o produto de dois termos não corresponde à respectiva adição –, mas em termos práticos a diferença é quase sempre inferior a 0,1 pontos percentuais, pelo que podemos ignorar este resíduo implícito).

Imagem 2

Quando fazemos esta separação começamos a descobrir pormenores curiosos, que passavam imperceptíveis à análise “agregada” ao nível do PIB (Ok, talvez continuem imperceptíveis a quem vê este gráfico confuso, mas mais à frente apresento uma imagem mais limpinha que põe em evidência estas nuances).

A parte mais curiosa é que em termos de produtividade não aconteceu nada de especial de 2000 diante. A produtividade (PIB/hora trabalhada) não cresceu muito entre 2000-2007 – em média, andou sempre ali entre os 1 e os 1,5% –, mas essa tendência vinha pelo menos desde 1993. Seja qual for a avaliação que fizermos da evolução da eficiência portuguesa desde a adesão ao euro (“boa”, “má”, “medíocre”), ela não poderá ser muito diferente da avaliação que fizermos da que vigorou nos sete anos anteriores.

Este ponto é importante porque muitas das hipóteses que tentam explicar a Grande Estagnação desde a adesão ao euro invocam, de forma mais ou menos explícita, factores cuja influência sobre o crescimento económico se faz sentir através do impacto na produtividade. Coisas como o excesso de burocracia ou regulação, a expansão do sector público, a má alocação de crédito pelo sector bancário, privatizações apressadas e por aí fora (ver, por exemplo, aqui, aqui, aqui e, de forma mais geral, aqui. O Negócios também tem uma boa súmula aqui).

Mas a grande diferença – e, na verdade, a única diferença – entre o Portugal pré-euro e o Portugal de 2000 em diante foi o comportamento das horas trabalhadas. O país não se tornou de súbito menos inspirado; simplesmente parece ter começado a transpirar menos. O quadro de baixo sistematiza estas diferenças para dois períodos simétricos: os primeiros sete anos de moeda única e os sete anos anteriores. O comportamento da produtividade é virtualmente igual.

Imagem 3

A travagem brusca de um crescimento de 2,9 para 1,2% devolve-se única e exclusivamente ao efeito das “horas trabalhadas”. O que poderia explicar isto? Assim de cabeça, há várias possibilidades, algumas mais plausíveis que outras.

Primeiro, a mais óbvia: desemprego involuntário. As horas trabalhadas caíram porque os portugueses perderam os seus empregos e não conseguiram outros disponíveis. Esta hipótese remete para problemas macroeconómicos: uma deficiência momentânea da procura, causada por vários tipos de choques temporários (apreciação excessiva do câmbio real, rebentar de uma bolha imobiliária, colapso bolsista, etc.).

Segundo, a menos óbvia: redução voluntária das horas trabalhadas. A teoria ‘a la Prescott’ de que as pessoas de vez em quando tiram férias para desfrutar da vida não é muito plausível, mas há várias declinações da mesma ideia que podem ser relevantes para Portugal. É fácil construir um argumento em torno de um sistema de reformas mal desenhado, que tornou a aposentação antecipada excessivamente atractiva; de um subsídio de desemprego demasiado longo, que desincentiva a reinserção no mercado laboral; da subida expressiva do Salário Mínimo Nacional a partir de 2001; e talvez até seja possível falar da expansão de prestações sociais no início do século XXI, que diminuem a urgência em encontrar emprego.

Não sei se os timings de cada um destes factores bate certo com o fenómeno que estamos a tentar explicar, mas não seria estranho que tudo isto junto tivesse um impacto não negligenciável na redução das horas trabalhadas.

Finalmente, o factor mais claro, embora frequentemente menos referido: a redução da população em idade activa. Apesar de só termos acordado para os problemas demográficos em 2011, a verdade é que o crescimento da população activa de 2000 em diante já não era o mesmo do passado. Como a pool de possíveis empregados estava a abrandar, é natural que o número de empregados efectivos também perdesse fôlego.

Os próximos posts tratam separadamente de cada um destes eixos: a inspiração e a transpiração da economia portuguesa desde 2000 até 2007.

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